Meu Chefe, Meu Amor II
Capítulo 12 — A Tensão do Jantar e a Dança das Sombras
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 12 — A Tensão do Jantar e a Dança das Sombras
O salão de eventos, um templo de mármore e cristal, pulsava com uma energia contida. Lustres gigantes derramavam uma luz dourada sobre os convidados impecavelmente vestidos, um desfile de ternos caros e vestidos de grife. Risadas abafadas e o tilintar de taças de champanhe criavam uma atmosfera de opulência e poder, mas sob a superfície polida, uma corrente elétrica de tensão percorria o ambiente. Helena, ao lado de Lucas, sentia cada nervo em seu corpo vibrar. A cada olhar, a cada sorriso forçado, ela se sentia como uma atriz em um palco, recitando um roteiro que ela não havia escrito e que temia que terminasse em tragédia.
Lucas estava radiante. Sua postura era a de um vencedor, seu sorriso largo e confiante. Ele a puxava pela mão, apresentando-a aos investidores como sua protegida, a joia que ele lapidara. Cada palavra que ele pronunciava era uma faca de dois gumes, elogiando-a enquanto, sutilmente, a prendia em sua teia. Helena respondia com monossílabos e sorrisos pálidos, seus olhos varrendo a multidão em busca de um sinal, um rosto familiar que pudesse lhe trazer algum conforto.
Eduardo havia sido claro: confie nele. Mas a confiança era uma flor frágil, e o ambiente parecia um deserto árido, pronto para murchá-la. Ela se sentia exposta, vulnerável. O peso das conversas sussurradas, dos olhares curiosos, era quase insuportável. Sabia que Lucas esperava que ela agisse com naturalidade, que demonstrasse sua lealdade a ele. E ela o fazia, com a alma apertada em um nó de ansiedade.
"Você está deslumbrante esta noite, Helena", Lucas disse, os olhos fixos nos dela, um brilho possessivo em seu olhar. "Todos sabem que você é a mente por trás de muitas das nossas inovações. Eles te admiram."
"Obrigada, Lucas", respondeu ela, forçando um sorriso. "Mas é você quem está liderando tudo isso com tanta maestria." A frase saiu com um gosto amargo, uma mentira que ela teve que proferir.
"É uma parceria, minha querida. Sempre foi. E continuará sendo. Estamos construindo algo grandioso juntos." Ele apertou sua mão, um gesto que deveria ser de encorajamento, mas que ela sentiu como uma corrente.
O jantar foi servido, uma sequência de pratos requintados que Helena mal conseguia saborear. Cada garfada parecia um pedaço de desespero. Ela observava Lucas interagir com os outros, a facilidade com que ele manipulava as conversas, a forma como ele desviava de perguntas difíceis. Era um mestre na arte da dissimulação, e ela, por um tempo, havia sido sua aprendiz involuntária.
O momento que ela mais temia chegou quando Lucas levantou a taça, chamando a atenção de todos. Seus olhos encontraram os dela, um desafio silencioso.
"Senhoras e senhores", começou ele, a voz ressoando pelo salão. "Hoje é um dia especial. Um dia de celebração do sucesso, e de antecipação do futuro brilhante que nos aguarda. Quero dedicar este momento à minha parceira, à mulher que com sua inteligência e dedicação tem sido fundamental em cada passo desta jornada: Helena Machado."
Um aplauso educado irrompeu. Helena sentiu o rosto corar, uma mistura de vergonha e receio. Lucas se aproximou dela, sua mão pousando em sua cintura.
"E eu tenho uma surpresa para vocês", continuou ele, o sorriso se alargando. "Uma surpresa que vai consolidar ainda mais o nosso futuro. Uma aliança estratégica que… bem, vocês saberão de todos os detalhes em breve. Mas posso garantir que será um marco para a empresa, e um passo importantíssimo na carreira de Helena, que terá um papel ainda maior em nossos planos."
Ele a olhou intensamente, como se esperasse uma resposta, um sinal de aprovação. Helena sentiu o estômago revirar. O que ele pretendia? Um anúncio oficial? Uma armadilha pública? Ela se sentiu congelada, incapaz de se mover ou falar.
Nesse exato instante, a porta principal do salão se abriu com um estrondo suave. Todos os olhares se voltaram para a entrada. E lá estava ele. Eduardo. Vestido em um terno escuro impecável, seu porte elegante contrastava com a tensão que ele emanava. Seus olhos, escuros e penetrantes, varreram o salão até encontrarem os de Helena. Havia um brilho de determinação neles, um aviso silencioso.
Lucas, por um instante, perdeu o sorriso. Sua expressão passou de confiança a um leve espanto, seguido por uma raiva contida. "O que ele está fazendo aqui?", murmurou para Helena, a voz baixa e ameaçadora.
"Eu… eu não sei", respondeu Helena, o coração batendo descompassado. Era o sinal. Eduardo estava ali para cumprir sua promessa.
Eduardo caminhou calmamente em direção à mesa principal, ignorando os olhares curiosos. Ele cumprimentou alguns conhecidos com um aceno de cabeça, mas seu foco estava em Lucas e Helena. Ao chegar perto deles, parou, um leve sorriso nos lábios.
"Boa noite, Lucas. Helena", disse ele, a voz calma, mas com um tom de desafio. "Espero não estar atrapalhando nada."
Lucas endireitou a postura, a máscara de cordialidade voltando a se ajustar. "Eduardo. Que surpresa desagradável. Pensei que este evento fosse apenas para os nossos investidores."
"E é. Mas como você sabe, eu tenho um interesse particular em tudo o que acontece nesta empresa. Especialmente quando se trata de negócios que podem afetar meus próprios investimentos." Eduardo olhou de Lucas para Helena, um convite silencioso para que ela falasse.
Helena respirou fundo, reunindo toda a sua coragem. Sabia que este era o momento. "Eduardo veio para uma reunião privada comigo, Lucas. Tivemos alguns assuntos a discutir."
Lucas a encarou, a surpresa e a desconfiança estampadas em seu rosto. "Reunião privada? Mas… você não me disse nada."
"Nem precisava", respondeu Helena, a voz ganhando força. "Eduardo é um parceiro de negócios importante para mim em outros empreendimentos. Precisamos acertar alguns detalhes."
O olhar de Lucas se estreitou, uma sombra de dúvida cruzando seus olhos. A armadilha que ele preparara parecia estar se voltando contra ele. Ele não esperava essa aliança, essa demonstração pública de que Helena tinha outros caminhos, outras parcerias.
"Entendo", disse Lucas, a voz fria. "Mas este evento é sobre o futuro desta empresa. E o seu lugar, Helena, é aqui, ao meu lado."
Eduardo deu um passo à frente, posicionando-se entre Lucas e Helena. "Ah, Lucas, o futuro é uma coisa imprevisível, não é mesmo? E às vezes, as alianças que parecem mais fortes se desfazem com um simples sopro de verdade. E a verdade, meu caro, é que nem tudo o que reluz é ouro."
O salão ficou em silêncio. Todos os olhares estavam fixos na cena dramática. Helena sentiu um misto de alívio e apreensão. Eduardo estava jogando as cartas com maestria, semeando a dúvida e a incerteza.
Lucas, sentindo o controle escapar de suas mãos, tentou recuperar o terreno. "Não sei do que você está falando, Eduardo. Suas insinuações são ridículas."
"São mesmo?", Eduardo sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Talvez. Ou talvez você tenha esquecido de contar a todos sobre os acordes que fez com Helena. Acordos que, se revelados, podem ter consequências… interessantes. Para todos nós."
O ar ficou pesado. Helena sentiu o coração acelerar. Era a deixa. Eduardo estava a empurrando para o precipício, mas com a promessa de que ele a pegaria. Ela olhou para Lucas, que agora a encarava com uma mistura de fúria e pânico. A máscara de serenidade havia caído.
"Eu não tenho nada a esconder", disse Helena, sua voz firme, apesar do tremor interno. "E se você, Lucas, acha que pode me usar ou ameaçar, está muito enganado. As cartas estão na mesa. E eu não estou mais disposta a jogar o seu jogo."
Um murmúrio percorreu o salão. Os investidores trocavam olhares, a intriga crescendo. A noite que deveria ser de triunfo para Lucas se transformava em um pesadelo. Helena, com o apoio silencioso de Eduardo, havia dado o primeiro passo para se libertar. A dança das sombras havia começado, e ninguém sabia quem sairia vitorioso.