O Desejo Proibido II
O Desejo Proibido II
por Camila Costa
O Desejo Proibido II
Capítulo 6 — O Segredo em Meio à Tempestade
O vento uivava lá fora, as rajadas sacudindo as janelas da mansão como punhos furiosos. A chuva caía em cortinas densas, transformando o jardim em um espelho borrado do céu sombrio. Dentro da casa, porém, a tempestade era ainda mais violenta, um furacão de emoções e verdades devastadoras que ameaçava engolir a todos. Helena, pálida como um fantasma, sentia o coração martelar contra as costelas, cada batida ecoando o medo que a consumia. As palavras de Ricardo, ditas em um sussurro carregado de dor e arrependimento, ainda pairavam no ar pesado da sala de estar, um veneno que se espalhava por suas veias.
"Eu sinto muito, Helena. Mais do que você pode imaginar."
As lágrimas rolavam livremente pelo rosto de Ricardo, trilhando caminhos salgados em meio à barba por fazer. Ele se ajoelhara diante dela, as mãos estendidas, mas sem tocá-la, como se temesse a própria audácia. Helena apenas o encarava, a mente um turbilhão de pensamentos contraditórios. A raiva borbulhava, um fogo que a consumia por dentro, mas por baixo dela, uma corrente subterrânea de compaixão e uma dor profunda começavam a emergir. Ela via o homem à sua frente, não o traidor, mas o Ricardo que amara um dia, que a fizera sorrir, que a fizera sentir-se a mulher mais completa do mundo. E essa imagem, em meio à devastação, era ainda mais cruel.
"Por quê?", a voz de Helena saiu embargada, um fio tênue que mal se sustentava. "Por que, Ricardo? Por que você fez isso comigo? Com a gente?"
Ricardo engoliu em seco, seus olhos azuis marejados fixos nos dela. "Não há desculpas, Helena. Nenhuma. Eu fui fraco. Eu fui um covarde." Ele apertou os punhos, a força contida em um gesto de autopunição. "Aquele tempo... foi um erro. Um erro terrível que eu carrego comigo todos os dias. Eu vi você com ele, com o Arthur, e algo em mim se quebrou. O ciúme, a insegurança... me cegaram."
O nome de Arthur, pronunciado por Ricardo, soou como um golpe. Arthur era o motivo, a desculpa, mas para Helena, ele era apenas uma peça em um jogo que ela não sabia que estava jogando. "E a sua família? A nossa família? Você pensou em mim? Nas crianças?" A voz de Helena subiu, um grito sufocado pela dor. "Você pensou em como isso nos destruiria?"
"Todos os dias, Helena. Todas as noites." Ricardo levantou o rosto, a angústia estampada em cada linha. "Eu não conseguia dormir. Eu não conseguia comer. Viver sabendo que eu te machuquei, que eu destruí a confiança que você depositava em mim... era um inferno. Eu tentei te esquecer, tentei me afogar nesse trabalho, em viagens, em qualquer coisa para não sentir essa culpa." Ele fez uma pausa, a voz tremendo. "Mas eu nunca deixei de te amar, Helena. Nunca. Esse sentimento... ele é mais forte do que eu."
A confissão de amor, dita em meio à ruína de seu casamento, era quase um insulto. Helena se levantou abruptamente, a cadeira rangendo no chão de madeira. "Amor?", ela riu, um som amargo e sem alegria. "Isso não é amor, Ricardo. Isso é egoísmo. É a sua incapacidade de lidar com as suas próprias falhas que te levou a isso. Você não pensou em mim, você pensou em você. Em como você se sentia. E agora você vem com essa história de 'nunca deixou de me amar'?"
Ela andou pela sala, o corpo tenso, os punhos cerrados. "Eu confiei em você. Eu te entreguei a minha vida, a minha alma. E você a jogou no chão. Você a pisoteou com o seu 'erro'." Helena parou diante da janela, observando a chuva implacável. "Eu não sei o que você espera de mim agora. Que eu te perdoe? Que eu te abrace e diga que tudo vai ficar bem? Que a gente vai esquecer tudo isso e voltar a ser feliz?"
"Eu não espero nada", Ricardo respondeu, a voz baixa, quase inaudível. "Eu só precisava que você soubesse. Que você soubesse que eu me arrependo. Que eu daria tudo para voltar no tempo."
"Mas você não pode voltar no tempo, Ricardo", Helena disse, virando-se para encará-lo. A fúria em seus olhos se misturava com uma tristeza profunda, a dor de um amor que se esfacelava em suas mãos. "E eu não posso apagar o que você fez. O que você nos fez." Ela sentiu uma náusea subir pela garganta. "Eu preciso de tempo. Eu preciso pensar. Eu preciso de ar."
Helena caminhou em direção à porta, sem olhar para trás. A tempestade lá fora parecia um reflexo perfeito do caos que a consumia. Ao abrir a porta, o vento gelado e a chuva a atingiram em cheio, um abraço frio e implacável. Ela saiu para a noite, sem rumo, sem saber para onde ir, apenas impulsionada pela necessidade urgente de fugir daquela casa, daquela verdade insuportável, daquele homem que havia sido seu mundo e agora era sua maior desilusão. Ricardo permaneceu na sala, o silêncio quebrado apenas pelo som da chuva e pelo eco das palavras não ditas, o peso do seu erro esmagando-o.