O Amor Verdadeiro III

Capítulo 2 — A Sombra do Passado

por Isabela Santos

Capítulo 2 — A Sombra do Passado

O dia seguinte amanheceu cinzento, um reflexo perfeito do estado de espírito de Helena. A chuva fina e persistente parecia lavar o mundo, mas não a dor que a consumia. Ela estava sentada à mesa da cozinha, um café amargo em suas mãos, os olhos fixos em um ponto indefinido na parede. A casa, que antes transbordava de alegria e de planos futuros, agora parecia estranhamente silenciosa, pesada.

Miguel entrou na cozinha, o cheiro de café fresco o acompanhando. Ele a observou por um momento, a figura dela encolhida em si mesma.

"Você precisa comer alguma coisa, Helena", ele disse suavemente, sentando-se à sua frente.

Helena deu um sorriso fraco, sem desviar o olhar da parede. "Não tenho fome."

"Você não pode continuar assim. Precisa se cuidar." A preocupação na voz de Miguel era genuína, um conforto que ela não conseguia mais aceitar completamente.

"Cuidar de quê, Miguel? De um coração partido? De um amor que se foi?" Ela finalmente o olhou, os olhos cansados, mas ainda com um brilho de desafio. "Eu não quero viver de lembranças."

"Mas as lembranças são tudo que você tem agora", ele disse, a voz baixa. "E você precisa aprender a viver com elas, não a se deixar ser consumida por elas."

Helena bufou, desviando o olhar novamente. "Fácil falar, você que nunca amou alguém assim."

Miguel suspirou. Ele sabia que ela estava errada, mas também sabia que não era o momento de discutir. "Eu amei, Helena. E aprendi que o amor verdadeiro não morre com a distância. Mas ele pode ser sufocado por outras coisas."

O que ele quis dizer com aquilo? Helena se perguntou, mas não fez a pergunta. Ela já se cansara de analisar cada palavra, cada gesto de Ricardo, em busca de um sentido que parecia ter desaparecido.

De repente, um som na porta. A campainha tocou, um som estridente que a fez sobressaltar. Quem poderia ser? Não esperava ninguém.

Miguel se levantou. "Vou ver."

Ele abriu a porta e um homem alto, com um terno impecável e uma expressão de urgência no rosto, estava parado ali. Seus olhos azuis eram penetrantes, e havia uma aura de autoridade em sua postura. Helena o reconheceu imediatamente. Era o irmão mais velho de Ricardo, Victor. Ele era o que sempre esteve nas sombras, o que supervisionava os negócios da família, enquanto Ricardo, o rebelde, tentava fugir de seu destino.

Victor a encarou por um momento, seus olhos percorrendo-a com uma frieza calculista. Ele não parecia surpreso em vê-la ali.

"Helena", ele disse, a voz grave e sem emoção. "Podemos conversar?"

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A presença de Victor era sempre perturbadora. Ele representava tudo o que Ricardo abominava, tudo o que ele fugira.

"Victor", ela respondeu, levantando-se lentamente. "Miguel, pode nos deixar a sós?"

Miguel assentiu, lançando um olhar de preocupação para Helena, antes de sair da cozinha.

Victor entrou, e Helena fechou a porta. Eles ficaram em um silêncio carregado, cada um medindo o outro.

"Eu vim porque Ricardo não pode", Victor disse, finalmente. "Ele está... ocupado."

"Ocupado demais para falar com a mulher que ele disse amar?", Helena retrucou, a voz soando mais áspera do que pretendia.

Victor deu um leve sorriso, que não alcançou seus olhos. "Ricardo sempre teve dificuldade em lidar com suas responsabilidades. Você sabe disso."

"Eu sei que ele é uma pessoa boa", Helena disse, defensivamente.

"Bons e responsáveis são conceitos diferentes, Helena", Victor a corrigiu, o tom condescendente. "Ele foi chamado para assumir a empresa. É um império, você sabe. Um legado. Ele não pode simplesmente ignorá-lo."

Helena sentiu uma pontada de raiva. Ele estava repetindo as mesmas desculpas que Ricardo usara em sua última carta. "E você acha que eu não entendo responsabilidades? Eu trabalhei duro minha vida inteira para construir meu pequeno ateliê."

"Seu ateliê é... encantador", Victor disse, o desprezo velado em sua voz. "Mas não se compara ao que Ricardo deixou para trás. São mundos diferentes, Helena."

"Mundos diferentes que ele escolheu", Helena disse, a voz trêmula. "Ele escolheu estar comigo. Ele me amou."

Victor deu um passo à frente, aproximando-se dela. "Amor é um sentimento efêmero, Helena. Poder e responsabilidade são eternos. Ricardo precisou fazer uma escolha. E ele fez. Ele escolheu o seu futuro. O futuro da família."

O estômago de Helena se revirou. "Você está dizendo que ele me trocou?"

"Estou dizendo que ele fez o que precisava ser feito", Victor disse, os olhos azuis fixos nos dela, um olhar frio e implacável. "Ele se casará em breve. Com uma mulher de sua classe. Alguém que pode ajudá-lo a consolidar sua posição."

A notícia caiu sobre Helena como um raio. Ela sentiu o chão sumir sob seus pés. Casar? Ricardo? Ela cambaleou para trás, apoiando-se na bancada da cozinha.

"Isso é mentira", ela sussurrou, a voz embargada.

Victor deu de ombros. "A verdade nem sempre é agradável, Helena. Mas é a verdade. Ricardo não voltará para você. Ele está seguindo em frente. E você também deveria. É o melhor para todos."

Ele a encarou por mais um momento, como se avaliasse o impacto de suas palavras. Então, com um aceno de cabeça, ele se virou e saiu da casa, deixando Helena sozinha em meio ao silêncio, o corpo tremendo, o coração em pedaços.

"Casar...", ela repetiu, as palavras ecoando em sua mente. Era como se um punhal tivesse sido cravado em seu peito. A paixão que ela sentia por Ricardo era real, era a base de sua existência. E agora, ela descobria que para ele, talvez, não tivesse sido mais do que um interlúdio.

Ela caiu em uma cadeira, as lágrimas rolando sem controle. Victor a tinha destruído com sua frieza calculista, com a crueldade de suas palavras. Ela se sentiu traída, humilhada. A promessa de Ricardo, o amor que ela acreditara ser eterno, tudo se desmoronou em um instante.

Miguel voltou para a cozinha, o rosto preocupado. Ele viu Helena encolhida na cadeira, o corpo tremendo.

"Helena?", ele perguntou, aproximando-se. "O que aconteceu?"

Helena levantou a cabeça, o rosto marcado pela dor. "Ele... ele vai casar, Miguel. Ricardo vai casar."

Miguel a olhou, o choque evidente em seu rosto. Ele sabia que algo estava errado, mas não imaginava que seria tão devastador.

"Eu não acredito", ele disse, a voz embargada.

"Victor veio me contar", Helena sussurrou, a voz quebrada. "Ele disse que Ricardo escolheu seu futuro. Que está seguindo em frente."

Miguel sentou-se ao lado dela, colocando um braço em volta de seus ombros. Ela se aconchegou nele, buscando um conforto que ele oferecia com toda a sua alma.

"Eu sinto muito, Helena", ele disse, a voz embargada. "Eu sinto muito mesmo."

Helena soluçou, as lágrimas molhando a camisa de Miguel. A dor era insuportável. O homem que ela amava, que ela acreditava amar, a tinha destruído com a mesma facilidade com que se destrói um castelo de areia.

"Eu não sei o que vou fazer, Miguel", ela disse, a voz abafada. "Eu não sei como vou sobreviver a isso."

"Você vai sobreviver, Helena", Miguel disse, apertando-a. "Você é forte. E eu estarei aqui com você. Sempre."

Naquele momento, em meio à dor lancinante, Helena sentiu um fio de esperança. Não do amor de Ricardo, que parecia ter se perdido para sempre, mas do apoio inabalável de Miguel.

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