O Amor Verdadeiro III
Capítulo 5 — As Cicatrizes da Desilusão
por Isabela Santos
Capítulo 5 — As Cicatrizes da Desilusão
A noite da vernissage foi um divisor de águas para Helena. O reencontro com Ricardo, a frieza de Isabella, a crueldade de Victor, tudo se somou em um golpe devastador. A dor da traição, que ela pensava ter superado, ressurgiu com uma intensidade renovada, deixando-a sem ar, sem forças.
Na manhã seguinte, Helena se olhou no espelho e mal se reconheceu. Os olhos fundos, as olheiras profundas, o semblante cansado. A artista vibrante e apaixonada parecia ter desaparecido, substituída por uma sombra de si mesma.
Miguel a encontrou sentada na beira da cama, o olhar perdido no vazio. Ele se aproximou com cautela.
"Helena?", ele chamou suavemente.
Ela se virou, os olhos marejados. "Eu não aguento mais, Miguel. Eu não aguento mais essa dor."
Miguel se ajoelhou ao lado dela, segurando suas mãos. "Eu sei que é difícil. Mas você não está sozinha. Eu estou aqui com você."
"Mas você não entende", Helena sussurrou, a voz embargada. "Ele me viu. Ele me viu e não fez nada. Ele me deixou ali, humilhada, enquanto Isabella me chamava de passatempo."
"Ele estava preso, Helena", Miguel tentou argumentar. "Você viu a dor nos olhos dele. Ele te ama, mas não pode ter você. A situação dele é complicada."
"Complicada?", Helena repetiu, a voz tingida de amargura. "Complicado é viver sem o amor da sua vida, Miguel. Complicado é saber que a pessoa que você amou com todo o seu coração te trocou por poder e responsabilidade." Ela se levantou abruptamente, andando de um lado para o outro no quarto. "Eu não quero mais me importar. Eu não quero mais sentir essa dor. Eu quero esquecê-lo. Completamente."
"E você vai conseguir, Helena", Miguel disse com firmeza. "Mas para isso, você precisa se permitir seguir em frente. Precisa se libertar desse amor que te consome."
Helena parou e olhou para Miguel, uma nova determinação em seus olhos. "Você tem razão. Eu não vou mais ser a vítima. Eu vou lutar. Por mim." Ela se virou para a janela, observando a luz do sol que tentava romper as nuvens. "Eu vou criar algo novo. Algo que expresse a minha força, a minha resiliência."
Enquanto Helena buscava forças para se reerguer, Ricardo vivia sua própria agonia. A visão de Helena na vernissage o havia abalado profundamente. Ele a amava, e a dor que ele via em seus olhos era um espelho de sua própria culpa.
Victor o encontrou em seu escritório, o rosto pensativo.
"Você parece perturbado, irmão", Victor disse, sentando-se em uma poltrona.
Ricardo se virou para ele, os olhos cheios de desespero. "Eu a machuquei, Victor. Eu a vi, e eu a machuquei ainda mais."
"Isso é o preço da grandeza, Ricardo", Victor disse, com a frieza de sempre. "Você precisou fazer uma escolha. E você fez. Agora, aceite as consequências."
"Mas eu a amo, Victor!", Ricardo exclamou, a voz embargada.
"Amor é um luxo que não podemos nos dar", Victor retrucou. "Você é um homem de negócios, não um poeta. Você tem responsabilidades. E elas vêm antes de qualquer sentimento."
Ricardo se sentiu aprisionado. Ele amava Helena, mas sabia que não podia tê-la. A culpa o corroía, a sensação de ter traído não apenas ela, mas a si mesmo.
Naquela tarde, Helena decidiu que precisava de uma mudança. Ela sabia que ficar ali, cercada pelas lembranças de Ricardo, apenas a manteria presa ao passado. Ela ligou para Miguel.
"Miguel, eu preciso sair daqui. Preciso de um lugar novo. Um lugar onde eu possa recomeçar."
Miguel sorriu, aliviado. "Eu sabia que você encontraria a sua força, Helena. Para onde você quer ir?"
Helena pensou por um momento. "Eu quero ir para o interior. Para um lugar tranquilo, longe de tudo. Onde eu possa me reconectar comigo mesma."
Miguel concordou imediatamente. "Eu te ajudo a organizar tudo. Você não está sozinha nessa jornada."
E assim, Helena começou a planejar sua fuga do passado. Ela embalou suas obras de arte, seus materiais de trabalho, e os poucos pertences que a ligavam à sua vida anterior. A decisão de partir foi difícil, mas necessária. Ela precisava se curar, e para isso, precisava se afastar de tudo que a lembrava de Ricardo e da dor que ele lhe causara.
Enquanto Helena se preparava para sua nova jornada, Ricardo se casava com Isabella em uma cerimônia suntuosa, mas vazia. Ele se sentia como um fantasma, cumprindo um papel em uma peça que não queria encenar. Seus olhos, em busca de algum conforto, vagaram pela multidão, esperando, em vão, por um vislumbre de Helena. Mas ela não estava lá. Ela havia seguido em frente, como Victor a aconselhara. E ele, preso em seu luxo, era um prisioneiro de seu próprio destino.
O adeus de Helena à cidade onde viveu seus dias de amor e desilusão foi silencioso. Ela não procurou Ricardo. Não se despediu. Apenas partiu, levando consigo as cicatrizes da traição, mas também a esperança de um novo começo. O amor verdadeiro, ela percebera, não era apenas sobre sentir, mas também sobre se reerguer, sobre encontrar a força dentro de si, mesmo quando o mundo ao redor desmorona. E essa era uma lição que ela estava determinada a aprender, longe das sombras do passado que a assombravam.