Seduzida pelo Inimigo II
Capítulo 2 — As Cinzas da Confiança
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 2 — As Cinzas da Confiança
A noite em Copacabana havia deixado em Isabella um rastro de inquietação que nem o sol forte do dia conseguia dissipar. De volta à sua modesta, mas charmosa, casa em Santa Teresa, ela observava o Rio de Janeiro se desdobrar aos seus pés da varanda. O azul vibrante da Baía de Guanabara, o verde exuberante do Corcovado, a agitação da cidade que nunca dormia. Era um cenário de tirar o fôlego, a beleza que sempre a ancorava. Mas hoje, essa beleza parecia emoldurar a lembrança persistente de Ricardo Almeida.
Cinco anos. Cinco anos de luta incansável para reconstruir o que ele havia destruído. A "Artesanias do Brasil", outrora um império de artesanato de luxo, agora era uma operação mais enxuta, focada em peças exclusivas, a maioria criada por ela mesma. Cada peça era um ato de resistência, um pedaço de sua alma injetado em cerâmica, madeira e tecidos. Ela havia aprendido a lidar com as finanças, a negociar com fornecedores, a gerenciar uma pequena equipe com a mesma paixão que dedicava à criação. Mas a sombra da falência, o escândalo, a humilhação pública que Ricardo orquestrara, ainda a assombravam.
Ricardo Almeida. O nome soava como um eco em sua mente. O homem que a seduzira, que jurara amor eterno, e que, com a mesma facilidade, a havia arruinado. Ele não era apenas um rival de negócios; ele era a personificação da traição. Ele sabia de seus sonhos, de seus medos, de suas vulnerabilidades. E ele usara tudo isso contra ela.
"Bom dia, chefe!", a voz animada de Clara, sua braço direito e amiga de longa data, a tirou de seus devaneios. Clara era um raio de sol em seu dia a dia, uma mulher prática e leal, que havia permanecido ao seu lado mesmo nos piores momentos. Seus cabelos cacheados e o sorriso fácil contrastavam com a seriedade de Isabella.
"Bom dia, Clara. Alguma novidade?", Isabella perguntou, virando-se para encarar a amiga.
Clara carregava uma xícara de café fumegante e um tablet. "Recebi o orçamento final para os novos tecidos da coleção de inverno. E temos aquela reunião com a loja de Ipanema amanhã. Ah, e o entregador daquela cerâmica artesanal de Minas Gerais já chegou."
Isabella sorriu. Clara era a organização em pessoa, a cola que mantinha tudo unido. "Ótimo. Mande trazer os tecidos para o ateliê. Quero ver as cores de perto. E quanto à loja de Ipanema, o que te preocupa?"
"O representante quer um desconto maior do que o usual. Diz que a concorrência está forte e que nossos preços estão… elevados." Clara fez uma careta. "Como se a qualidade pudesse ser barata."
"A qualidade nunca é barata, Clara. E a 'Artesanias do Brasil' não vende peças produzidas em massa. Vendemos história, vendemos alma." Isabella pegou o café. "Vamos conversar sobre isso depois do almoço. Quero rever a planilha de custos."
Enquanto Clara se afastava para organizar os tecidos, Isabella voltou a olhar para a cidade. O encontro com Ricardo na noite anterior havia abalado suas estruturas. Ele reaparecera, e com um convite. Um convite para um jantar de negócios, mas que ela sabia ser algo mais. Um teste. Um jogo.
"Chefe, o entregador da cerâmica chegou", anunciou Marcos, o ajudante de produção, um rapaz talentoso e dedicado.
Isabella assentiu. "Obrigada, Marcos. Mande trazer para cá."
As caixas de cerâmica, cuidadosamente embaladas, foram dispostas no ateliê. Isabella abriu uma delas com cuidado. Vasos, pratos, esculturas pequenas. Cada peça era única, com cores terrosas e texturas rústicas. Ela pegou um pequeno pássaro de barro, com detalhes delicados. A arte de verdade, a que vinha do coração e das mãos, era o que a movia.
"É lindo, não é?", disse Clara, aproximando-se. "A Mestra Joana tem um dom especial."
"Sim. É a paixão pelo que faz que a diferencia." Isabella acariciou o pássaro. "Ricardo Almeida nunca entenderia isso."
Clara suspirou. "Não fale dele, Isa. Você já sofreu demais por causa dele."
"Eu sei. Mas ele voltou, Clara. E isso não pode ser coincidência." Isabella sentou-se em um banquinho, olhando para as peças de cerâmica. "A sensação que tive ontem… ele não era o mesmo homem frio e calculista de antes. Havia algo nos olhos dele."
"Ou você está projetando seus próprios medos", Clara sugeriu gentilmente. "Cinco anos é tempo suficiente para criar fantasmas."
"Talvez. Mas aquele convite para o jantar… é uma armadilha."
"Um jantar de negócios, você disse. Talvez ele queira fazer uma proposta para comprar a 'Artesanias do Brasil' de novo. Agora que você a reconstruiu."
"Ele nunca a teria de volta. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse." Isabella sentiu a raiva subir. "Ele achou que eu seria apenas mais uma vítima, um troféu em sua coleção. Mas ele se enganou."
"Eu sei, Isa. E é por isso que eu estou aqui. Nós estamos aqui." Clara colocou a mão em seu ombro. "Vamos focar no trabalho. É o que você faz de melhor. É o que o irrita."
O almoço foi tenso. Isabella tentou se concentrar na conversa sobre os novos tecidos, os prazos de produção, as próximas feiras. Mas a imagem de Ricardo, com aquele sorriso enigmático, pairava em sua mente. Ela se lembrou do dia em que ele a havia enganado, da falsidade em seus olhos, das promessas quebradas.
Ela havia sido jovem, ingênua, e completamente apaixonada. A confiança que depositara nele era cega, absoluta. Ele se apresentara como um homem de negócios visionário, um amor ardente. E ela, em sua inexperiência, acreditou em cada palavra. Quando a proposta de fusão surgiu, ela, com a anuência do pai, viu a chance de expandir os negócios, de unir forças com um homem que parecia compartilhar seus ideais. O que ela não sabia era que ele a via apenas como um meio para um fim. Ele usara as informações privilegiadas que ela lhe dera, as fragilidades da empresa de seu pai, para dilacerá-la por dentro. O resultado fora a falência, a perda de tudo.
"A culpa não é sua, Isa", Clara disse, como se lesse seus pensamentos. "Você era muito jovem. Ele era um manipulador experiente."
"Mas eu deveria ter visto, Clara. Deveria ter desconfiado." A voz de Isabella estava embargada. "Aquele olhar de predador que ele tinha às vezes… eu o ignorei. Preferi acreditar no conto de fadas que ele pintou."
"Os contos de fadas são perigosos quando se misturam com negócios", Clara ponderou. "Mas agora você é diferente. Você é forte."
Isabella assentiu, determinada. A dor da traição ainda existia, mas ela a transformara em força. A raiva, em combustível. A "Artesanias do Brasil" era a sua vingança silenciosa, a prova de que ele não a havia destruído completamente.
O jantar de negócios em São Conrado. A oferta era tentadora, por mais que ela tentasse ignorar. Era uma oportunidade de confrontá-lo, de mostrar que ela havia superado a dor e a ruína. Era uma chance de observar de perto o seu inimigo. Mas era também um risco imenso. Cada vez que ela se aproximava dele, sentia uma atração perigosa, um eco do passado que a fazia tremer.
"Eu vou", Isabella disse de repente, a decisão firme em sua voz.
Clara a olhou, surpresa. "Tem certeza, Isa? É arriscado."
"Eu preciso ir, Clara. Não por ele. Por mim. Para provar que eu não tenho mais medo." Isabella levantou-se, a postura ereta. "E para entender o que ele quer. Se ele está realmente jogando um novo jogo, eu preciso saber as regras."
Ela se aproximou da janela, olhando para o sol que começava a se pôr, pintando o céu de tons alaranjados e rosados. O Rio de Janeiro, sua cidade, sua casa. Ela havia lutado para protegê-la, para honrar a memória de seu pai. E agora, o homem que tentou roubar tudo isso estava de volta.
"Prepare o meu melhor vestido, Clara", ela disse, um sorriso desafiador surgindo em seus lábios. "E o meu olhar mais frio. Vou jantar com o meu inimigo."
A guerra havia recomeçado. E Isabella estava pronta para lutar.