Seduzida pelo Inimigo II
Capítulo 3 — O Palco da Rivalidade
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — O Palco da Rivalidade
O Hotel Majestic, em São Conrado, ostentava um luxo discreto, mas imponente. Uma obra-prima arquitetônica com vista para o mar, onde negócios de alta envergadura eram fechados e a elite carioca se reunia. Isabella, sentindo o peso do seu vestido preto de seda, que parecia uma segunda pele, ajustou o decote discreto com um toque de nervosismo. O colar de prata com um pingente em formato de tucano, uma peça antiga de sua coleção, era um lembrete de suas raízes, de sua essência. Seus cabelos estavam presos em um coque elegante, revelando a linha perfeita de seu pescoço. Os olhos castanhos, intensos e decididos, refletiam a luz ambiente, mas escondiam a tempestade de emoções que a assolava.
Chegara cedo, para ter tempo de se ambientar, de absorver a atmosfera. A sinfonia de vozes, o tilintar de taças, o aroma de comida refinada. Tudo conspirava para criar um clima de poder e influência. E no centro de tudo isso, ela sabia, estaria Ricardo Almeida.
Ele apareceu como um raio de sol em um dia nublado, ou talvez como uma sombra traiçoeira. Alto, impecavelmente vestido em um terno azul marinho que realçava seus olhos claros, ele exalava uma aura de comando. Seu sorriso, aquele que já a desarmara tantas vezes, agora parecia um gesto calculado. Ele circulava entre os convidados, apertando mãos, trocando palavras, mas seus olhos buscavam algo. Ou alguém.
E então, seus olhares se cruzaram. Um instante de reconhecimento, um flash de algo indescritível em suas feições. Ele se desvencilhou da conversa em que estava e caminhou em sua direção, o passo firme, a postura altiva. A cada passo que ele dava, Isabella sentia o coração bater mais forte, um misto de apreensão e uma estranha excitação.
"Isabella", ele disse, a voz grave ecoando em seu ouvido. Ele parou a poucos centímetros dela, o olhar percorrendo-a de cima a baixo, sem ser vulgar, mas com uma intensidade que a fez corar. "Você veio. Fico lisonjeado."
Ela ergueu o queixo, um leve sorriso de escárnio brincando em seus lábios. "Não perderia uma oportunidade de ver o grande Ricardo Almeida em seu habitat natural."
Ele riu, um som baixo e rouco. "E qual seria o meu habitat natural, Isabella?"
"O topo. Onde você gosta de esmagar quem está embaixo."
Ele a encarou, o sorriso desaparecendo lentamente, substituído por uma expressão mais séria. "Ainda com essa visão, não é? Pensei que você tivesse mudado."
"Mudado? Talvez eu tenha aprendido a não ser tão ingênua, Ricardo. E você, mudou muito. Parece mais… completo." A observação escapou antes que ela pudesse contê-la.
Seus olhos escuros brilharam com uma faísca de surpresa, talvez até de algo que se assemelhava a um interesse genuíno. "Completo? O que você quer dizer com isso?"
"Você sempre teve tudo: dinheiro, poder, influência. Mas agora… parece que há algo mais. Uma certa… introspecção." Ela o observou atentamente. Era a verdade. Havia uma profundidade em seu olhar que ela não se lembrava.
Ele deu um passo para o lado, como se a convidasse a acompanhá-lo em direção a uma mesa afastada, onde um garçom servia canapés. "Talvez a vida me ensinou algumas lições, Isabella. Coisas que o dinheiro não compra."
"E você acha que me ensinou algo?", ela retrucou, aceitando um copo de champanhe que o garçom ofereceu.
"Talvez. Talvez eu tenha aprendido que algumas batalhas não valem a pena. Ou que algumas perdas podem levar a ganhos inesperados." Ele pegou um canapé. "A 'Artesanias do Brasil', por exemplo. Você a reconstruiu. E com maestria."
Isabella sentiu uma pontada de surpresa. Ele sabia? Ele se importava? "Você anda me observando, Ricardo?"
"Um bom empresário sempre observa a concorrência. E você, Isabella, é uma concorrência formidável." Ele a encarou, o olhar penetrante. "Mas não vim aqui para falar de negócios. Vim para falar… de nós."
O estômago de Isabella deu um nó. A palavra "nós" dita por ele soava como um veneno doce. "Não há 'nós', Ricardo. Há você, o homem que destruiu minha família. E há eu, a mulher que sobreviveu a isso."
"E que prosperou", ele acrescentou, um leve sorriso retornando. "Isso é o que mais me intriga. Você, que um dia parecia tão frágil, agora se ergue das cinzas com tanta força."
"A força vem quando você não tem mais nada a perder, Ricardo. E quando você tem algo pelo qual lutar." Ela se aproximou dele, a voz baixa, mas firme. "Você me tirou tudo, mas me deu algo em troca: a determinação de nunca mais ser humilhada."
Ele a observou por um longo momento, seus olhos fixos nos dela. Havia uma tensão palpável entre eles, uma energia crua que parecia eletrizar o ar. "Você acha que eu vim aqui para te humilhar de novo, Isabella?"
"Não sei o que você veio fazer aqui, Ricardo. Mas eu sei o que eu vim fazer. Vim para mostrar que a 'Artesanias do Brasil' não é mais uma presa fácil. E que Isabella Dantas não é mais a garota ingênua que você conheceu."
A conversa foi interrompida por um homem corpulento, de terno risca de giz, que se aproximou deles com um sorriso forçado. "Ricardo, meu caro! Que bom vê-lo. E quem é essa bela dama?"
Ricardo se virou para o homem, um brilho de desagrado em seus olhos que ele rapidamente disfarçou. "Senhor Valença, permita-me apresentar Isabella Dantas, uma antiga conhecida. Isabella, este é Antônio Valença, um parceiro de negócios."
Valença estendeu a mão para Isabella, que a apertou com firmeza. "Prazer, senhorita Dantas. Ouvi falar muito da 'Artesanias do Brasil'. Uma empresa promissora."
"Obrigada", Isabella respondeu, sentindo o olhar de Ricardo sobre ela. Era um jogo de aparências, uma demonstração de poder.
"Precisamos conversar sobre aquela licitação, Ricardo", Valença insistiu, ignorando a presença de Isabella.
Ricardo assentiu, mas seus olhos permaneceram fixos em Isabella. "Claro, Antônio. Mais tarde." Ele se virou para Isabella. "Preciso ir, mas não antes de… um brinde."
Ele pegou duas taças de champanhe e ofereceu uma a ela. "A você, Isabella. Pela sua resiliência. E talvez… por tudo o que ainda está por vir."
Isabella pegou a taça, seus dedos roçando os dele. Um arrepio percorreu sua espinha. Ela bebeu um gole, sentindo o líquido borbulhante descer pela garganta. Era uma bebida cara, sofisticada, mas ela sentia o gosto amargo da rivalidade.
"Ao que está por vir, então", ela respondeu, o olhar desafiador.
Ele sorriu, um sorriso que parecia conter segredos antigos. "Exato. O futuro é um campo de batalha, Isabella. E você sempre foi uma guerreira."
Ele se afastou, deixando-a sozinha com seus pensamentos e o peso do champanhe em sua taça. A noite ainda era longa. A rivalidade entre suas famílias era antiga, um legado de desconfiança e disputa. Ricardo, com sua ambição desmedida, a havia usado como um peão em seu jogo de poder. Agora, ele retornava, e Isabella sentia que aquele jantar era apenas o prelúdio de uma nova e perigosa partida.
Enquanto observava Ricardo interagir com outros convidados, Isabella notou a forma como ele comandava a atenção, como seus gestos e palavras pareciam ter um peso extraordinário. Ele era um predador em seu ambiente natural, confiante e calculista. Mas ela não era mais a presa. Ela era a sobrevivente.
Seus olhos percorreram a sala, fixando-se em um grupo de pessoas reunidas em um canto, conversando animadamente. Um homem mais velho, com cabelos grisalhos e um olhar penetrante, parecia ser o centro das atenções. Era o Dr. Armando Costa, um dos maiores investidores do país, conhecido por sua visão estratégica e por seu apoio a empresas inovadoras. Ao seu lado, uma mulher elegante, de cabelos loiros presos em um coque impecável, sorria e interagia com o grupo. Era Helena Bastos, a sócia de Ricardo Almeida nos negócios.
Isabella sentiu um frio na espinha. Helena. A mulher que, segundo rumores, havia ajudado Ricardo em sua ascensão, e que era conhecida por sua frieza e eficiência implacável. A presença dela ali, ao lado de Armando Costa, era significativa.
Ela voltou seu olhar para Ricardo, que agora estava mais perto do grupo. Ele sorriu para Helena, um sorriso diferente, mais… íntimo. Isabella sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Ciúmes? Inveja? Ela rapidamente afastou esses pensamentos. O que importava era o jogo.
De repente, Ricardo se virou e seus olhos encontraram os dela. Ele sorriu, um sorriso lento e provocador, e fez um leve gesto com a cabeça, como um convite tácito. Isabella sentiu um arrepio. Aquele homem era um perigo constante. Mas ela não ia fugir. Ela ia enfrentá-lo.
Ela se dirigiu à mesa de bebidas, pegou mais uma taça de champanhe e caminhou em direção a Ricardo e seu grupo. A tensão no ar era quase palpável.
"Ricardo", ela disse, a voz calma, mas firme, quando chegou perto deles. "Que coincidência encontrá-lo aqui de novo."
Ricardo se virou, um brilho de diversão em seus olhos. "Isabella! Que surpresa maravilhosa. Permita-me apresentar você a duas pessoas importantes. Isabella Dantas, a genial empresária por trás da 'Artesanias do Brasil'. Isabella, este é o Dr. Armando Costa, e a elegante Helena Bastos."
Os olhares de Armando Costa e Helena Bastos se voltaram para Isabella. Havia curiosidade em seus olhos. Helena, em particular, a analisou de cima a baixo com um olhar perspicaz.
"Senhorita Dantas", disse Dr. Costa, com um sorriso acolhedor. "É um prazer. Tenho acompanhado o seu trabalho. Impressionante a forma como você resgatou a empresa de seu pai."
"Obrigada, Dr. Costa", Isabella respondeu, sentindo-se um pouco mais confiante. "É um legado que eu prezo muito."
Helena Bastos sorriu friamente. "É admirável sua determinação, senhorita Dantas. Mas nem todos têm a sorte de ter um pai com uma empresa para resgatar."
A indireta era clara, e Isabella sentiu a raiva subir. Ela encarou Helena, sem desviar o olhar. "A sorte é para quem busca, Sra. Bastos. Eu trabalho duro. E confio em meu próprio esforço."
Ricardo observou a troca de farpas com um leve divertimento. Parecia que ele gostava de ver as mulheres em seu círculo competindo.
"Precisamos ir, Ricardo", Helena disse, mudando de assunto abruptamente. "Temos o voo para São Paulo amanhã cedo."
"Claro", Ricardo respondeu, mas seus olhos ainda estavam fixos em Isabella. "Foi um prazer vê-la, Isabella. Talvez nossos caminhos se cruzem novamente em breve."
Ele se despediu com um aceno de cabeça e se afastou com Helena e Dr. Costa, deixando Isabella sozinha com a taça de champanhe e a certeza de que aquela noite era apenas o começo de um jogo perigoso. A rivalidade estava mais viva do que nunca, e ela se sentia no centro dela.