Seduzida pelo Inimigo II
Capítulo 4 — Segredos em São Paulo
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 4 — Segredos em São Paulo
O voo de São Paulo para o Rio de Janeiro foi turbulento, não apenas pelas turbulências aéreas, mas pela turbulência interna de Ricardo Almeida. Aquele breve encontro com Isabella em Copacabana, e depois o jantar no Majestic, haviam agitado algo dentro dele. Ele a vira diferente. Não a garota ingênua e apaixonada que ele conhecera, mas uma mulher forte, resiliente, e, para seu fascínio, ainda deslumbrante. A "Artesanias do Brasil", sob sua gestão, estava florescendo. E ele sabia que ela não seria uma presa fácil desta vez.
Em São Paulo, ele participara de uma série de reuniões de negócios, a maioria focada na expansão de seus empreendimentos no setor imobiliário. Helena Bastos, sua sócia e confidente, estava ao seu lado, impecável e calculista como sempre. Ela sabia de sua volta ao Rio e daquela conversa casual com Isabella.
"Você parece distraído hoje, Ricardo", Helena comentou, enquanto tomavam um café em um elegante lounge de hotel na Avenida Paulista. A cidade pulsava ao redor deles, um turbilhão de negócios e ambição.
Ricardo deu um leve sorriso. "Apenas pensando em algumas estratégias para o Rio de Janeiro."
"E Isabella Dantas faz parte dessas estratégias?", Helena perguntou, o tom de sua voz revelando um interesse que ia além da mera curiosidade profissional.
Ricardo a encarou. Helena era astuta. Sabia que ela desconfiava de sua relação passada com Isabella. "Ela é uma concorrente. É natural que eu a observe."
"Concorrente… ou algo mais?", Helena insistiu, seus olhos azuis penetrantes fixos nos dele. "Eu vi o seu olhar para ela no jantar. Não era apenas de um empresário para outro."
Ricardo suspirou. Era inútil mentir para Helena. Ela sempre sabia. "Ela me pegou de surpresa. A forma como ela se reergueu… é impressionante."
"Impressionante, sim. Mas ela ainda guarda rancor, Ricardo. E você sabe disso. Ela nunca vai te perdoar por ter destruído a empresa do pai dela."
"Eu não destruí a empresa do pai dela, Helena. Eu a comprei. E a 'Artesanias do Brasil' que ela tem agora… é apenas uma sombra do que era."
"Uma sombra que está crescendo. E que pode se tornar um problema sério. Especialmente se ela decidir te expor. Se ela tiver provas de que você agiu de má-fé no passado."
Ricardo sentiu um arrepio. Ele sabia que havia deixado algumas pontas soltas, alguns detalhes que poderiam comprometer seus negócios se viessem à tona. "Ela não tem nada. Tudo foi feito dentro da lei."
"A lei nem sempre é justa, Ricardo. E a memória de Isabella é longa. Ela é uma Dantas. Elas guardam ressentimentos." Helena tomou um gole de café. "A proposta que você tem para a área de Ipanema. Precisa ser fechada logo. E você sabe que a 'Artesanias do Brasil' tem um contrato de exclusividade com algumas das lojas de lá."
Ricardo assentiu. O projeto imobiliário em Ipanema era ambicioso e lucrativo, mas a presença da "Artesanias do Brasil" no local poderia ser um obstáculo. Era mais uma razão para ele precisar lidar com Isabella.
"Precisamos ter certeza de que ela não vai criar problemas. Talvez uma oferta generosa para comprar a participação dela nas lojas", Ricardo ponderou.
Helena sorriu, um sorriso frio e calculista. "Ou talvez possamos oferecer algo ainda mais interessante. Algo que a tire do caminho permanentemente."
Ricardo a encarou, intrigado. "O que você tem em mente, Helena?"
"Ela quer vingança, não é? E você, aparentemente, está mais interessado nela do que em seus negócios. Talvez possamos usar isso a nosso favor."
"Explique."
"E se você demonstrasse interesse em 'salvá-la' de novo? Oferecer apoio, parceria… e, aos poucos, ir minando a confiança dela. Deixá-la acreditar que você mudou. E quando ela estiver completamente vulnerável… você dá o golpe final."
Ricardo riu. "Você é cruel, Helena."
"Eu sou pragmática, Ricardo. E você sabe que é exatamente assim que gostamos de trabalhar." Helena se inclinou para frente. "Ela ainda sente algo por você, não é? Eu vi. Você tem uma chance de usá-la. De conquistá-la novamente. E depois… usá-la contra ela mesma."
Ricardo ficou pensativo. A ideia era perigosa, mas tentadora. Isabella era um desafio, um enigma. Conquistá-la novamente seria a maior vitória de sua vida. Uma vitória que, ele sabia, seria doce e amarga ao mesmo tempo.
"Precisamos ter certeza de que ela não é uma ameaça. E que não há provas contra mim", Ricardo disse, a voz séria.
"Eu cuidei disso. Os contratos foram bem feitos. Os advogados dela não encontraram nada. E os que poderiam ter algo… estão fora do jogo há muito tempo." Helena sorriu. "Você está seguro, Ricardo. Agora é hora de jogar o seu jogo."
Ricardo olhou pela janela, para a paisagem urbana de São Paulo. O Rio de Janeiro o esperava. E Isabella Dantas, a mulher que o intrigava e o desafiava, era o centro de seu interesse. Ele sabia que a batalha pela "Artesanias do Brasil" e pela alma de Isabella estava apenas começando. E ele estava pronto para jogar.
Enquanto o avião cruzava o céu de volta para o Rio, Ricardo revivia os momentos do jantar. O olhar desafiador de Isabella, a forma como ela segurava a taça de champanhe, o brilho de inteligência em seus olhos. Ele a havia seduzido uma vez, a levara à ruína. Agora, ele estava considerando seduzi-la novamente. Mas por quê? Era apenas um jogo de poder? Ou havia algo mais, algo que ele não conseguia explicar, que o atraía de volta a ela?
Ele sabia que Helena estava certa. Isabella era uma ameaça em potencial. Mas, ao mesmo tempo, ela era um prêmio. A prova de que ele poderia ter tudo o que quisesse. E ele queria Isabella. Ele queria a vitória, a vingança disfarçada de amor.
Ele pegou o celular e discou o número de Isabella. Hesitou por um instante antes de apertar o botão de ligar.
"Alô?", a voz dela soou do outro lado, firme e decidida.
"Isabella. Sou eu, Ricardo."
Houve um silêncio. Isabella estava processando a ligação inesperada.
"O que você quer, Ricardo?", ela perguntou, a voz fria.
"Eu estava pensando sobre a nossa conversa no jantar. E eu acho que podemos ser mais do que apenas concorrentes." A voz dele era suave, persuasiva. "Eu tenho um novo projeto imobiliário em Ipanema. Um empreendimento de luxo. E pensei que a 'Artesanias do Brasil' seria a parceira perfeita para a decoração."
Isabella ficou em silêncio por um momento, absorvendo as palavras dele. Era uma oferta tentadora, e ela sabia disso. Mas ela também sabia que era uma armadilha.
"Um projeto em Ipanema?", ela finalmente respondeu, a voz controlada. "Interessante."
"Sim. E eu estaria disposto a fazer uma oferta generosa para garantir a sua participação. Uma participação que garantiria o futuro da 'Artesanias do Brasil' e nos colocaria em uma posição de vantagem."
"Generosa como, Ricardo?", ela perguntou, o tom de desafio em sua voz.
"Podemos conversar sobre isso. Pessoalmente. O que você acha de um almoço amanhã? Para discutir os detalhes."
Isabella hesitou. Era a oportunidade que ela esperava. A chance de se aproximar dele, de descobrir suas intenções. Mas o risco era enorme.
"Tudo bem, Ricardo. Eu aceito", ela disse, a decisão tomada. "Amanhã. Ao meio-dia. No La Brasserie, em Ipanema."
"Excelente. Até lá, Isabella."
Ele desligou. Ricardo sorriu. O jogo estava em andamento. Ele estava pronto para jogar. E Isabella, sem saber, estava prestes a dar o primeiro passo em direção a uma armadilha cuidadosamente elaborada.