Seduzida pelo Inimigo II
Capítulo 7 — A Armadilha do Passado
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — A Armadilha do Passado
O dia seguinte amanheceu cinzento em São Paulo, como se o próprio céu chorasse as incertezas que pairavam sobre Helena. Ela se arrastava pela casa, a energia drenada pela noite de insônia e pelo peso das revelações. Cada objeto, cada canto, parecia sussurrar as palavras de Rafael, as provas que ele havia apresentado.
Ela sabia que precisava agir, que precisava confrontar a verdade, por mais dolorosa que fosse. Mas o medo a paralisava. O medo de perder tudo o que havia construído, o medo de que Miguel, de alguma forma, estivesse envolvido na teia de mentiras.
Decidiu que precisava de um momento de clareza, um respiro antes de mergulhar de cabeça na batalha. Pegou o carro e dirigiu em direção a um pequeno café que frequentava nos seus dias de estudante, um refúgio de paz em meio ao caos da metrópole. O aroma de café fresco e pão de queijo a envolveu, trazendo uma sensação de familiaridade reconfortante.
Sentou-se em uma mesa no canto, observando o movimento matinal. A xícara quente em suas mãos era um bálsamo para a alma inquieta. Ela tentou organizar seus pensamentos, traçar um plano. Se Rafael tinha provas, ela precisava de mais. Precisava desenterrar a verdade, por baixo das camadas de manipulação.
No entanto, o passado parecia ter planos próprios para ela. De repente, seus olhos pousaram em uma figura sentada em uma mesa próxima, um homem com quem ela não falava há anos, mas cuja imagem estava gravada em sua memória: Fernando.
Fernando era o ex-namorado de Helena, o primeiro amor que terminou de forma amarga e dolorosa. Ele era ambicioso, charmoso, e possuía uma frieza que Helena só viria a reconhecer anos depois. Ele também tinha um histórico de trabalhar com o Sr. Almeida em alguns negócios obscuros, antes de desaparecer misteriosamente do radar.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A presença dele ali, naquele exato momento, não podia ser coincidência. Rafael, com sua rede de informações, estaria por trás disso? Seria uma armadilha?
Ela observou Fernando discretamente. Ele parecia mais velho, os traços mais marcados, mas o brilho nos olhos, a forma como ele analisava o ambiente, eram os mesmos. Ele ainda exalava aquela aura de poder contido, de perigo latente.
Decidida a não fugir, Helena respirou fundo e se levantou. Caminhou lentamente até a mesa de Fernando, o coração batendo descompassado.
“Fernando?” A voz dela saiu um pouco trêmula.
Ele ergueu os olhos, e por um instante, um lampejo de surpresa cruzou seu rosto. Em seguida, um sorriso lento e calculista se abriu.
“Helena. Que surpresa agradável.” Ele gesticulou para a cadeira à sua frente. “Sente-se. Imagino que não seja um encontro casual.”
Helena sentou-se, o corpo tenso. “Eu estava apenas tomando um café. E você?”
“Eu sou um homem de negócios, Helena. Sempre estou em busca de novas oportunidades.” Seus olhos a percorreram com uma intensidade desconcertante. “E você, ainda é a mesma ambiciosa e determinada Helena de sempre?”
“Eu… tenho meus objetivos.” Ela respondeu, tentando manter a compostura. “Por que você está em São Paulo? E como sabia que eu estaria aqui?”
Fernando riu, um som baixo e rouco. “Digamos que eu tenho bons informantes. E quanto a São Paulo, estou de volta para resolver alguns assuntos pendentes. Assuntos que envolvem pessoas que você conhece.”
O nó em sua garganta apertou. “Pessoas como quem?”
Ele inclinou-se para frente, a voz baixando para um tom conspiratório. “Como o Sr. Almeida. E o filho dele, Rafael. Tenho acompanhado os movimentos deles de longe. E parece que você se tornou uma peça importante no jogo deles.”
Helena sentiu a raiva e o medo se misturarem. “Eu não sou uma peça no jogo de ninguém, Fernando.”
“Ah, é mesmo? Então me explique essa aliança improvável com o Miguel. Ou melhor, me explique como você acabou se envolvendo com Rafael Almeida.” As palavras dele eram afiadas, penetrantes.
“Eu não estou envolvida com Rafael.” A resposta saiu automática, mas a dúvida a corroía.
Fernando sorriu novamente, um sorriso que não chegava aos olhos. “Tem certeza? Porque as informações que chegam até mim dizem o contrário. Dizem que você tem se aproximado dele, que ele te mostrou algo que te abalou. Algo sobre o passado da empresa. Algo sobre uma fraude.”
Helena gelou. Como ele sabia disso? A informação era muito específica. Rafael não havia contado aquilo para mais ninguém. Ou ele havia? Ou Fernando estava apenas jogando com suas inseguranças?
“Quem te contou isso?”
“Como eu disse, tenho bons informantes. E alguns deles têm um interesse particular em expor a verdade sobre os Almeida. E sobre você também, Helena.”
A ameaça velada não passou despercebida. “Sobre mim? O que você quer, Fernando?”
“Eu quero o que é meu por direito. E sei que você, com sua inteligência e sua determinação, pode me ajudar a conseguir. Rafael está prestes a cometer um erro grave. Um erro que pode custar caro para ele e para o pai. E eu posso te ajudar a se livrar dessa situação, a provar sua inocência… ou sua culpa, se for o caso.”
Inocência? Culpa? As palavras ecoavam em sua mente. Ela estava se sentindo cada vez mais encurralada.
“Eu não sei do que você está falando.” Helena tentou se levantar, mas Fernando segurou seu pulso.
“Não vá ainda, Helena. Estamos apenas começando a conversa. O passado tem uma maneira de nos alcançar, não é mesmo? E você, mais do que ninguém, sabe o quanto o passado pode ser implacável.” Ele soltou o pulso dela, mas o olhar continuou fixo em seus olhos. “Pense bem. Eu sou a sua única chance de sair ilesa dessa. Rafael te usará, e depois te descartará. Assim como eu fiz, anos atrás.”
A lembrança daquele término, da forma como Fernando a manipulou e a deixou ferida, a atingiu como um soco. Ele era um mestre em desenterrar as fraquezas alheias.
“Eu não preciso da sua ajuda, Fernando.” Helena finalmente conseguiu se levantar, a voz firme, apesar do tremor interno. “E eu não tenho nada para provar para você.”
Ela saiu do café apressadamente, deixando Fernando para trás, o sorriso calculista estampado em seu rosto. A armadilha estava armada, e ela havia caído nela. A presença de Fernando, a forma como ele sabia detalhes íntimos sobre a conversa com Rafael, tudo indicava que ela estava sendo manipulada, que seus inimigos estavam mais perto do que ela imaginava.
Ao chegar ao escritório, encontrou Miguel. Ele parecia preocupado, a notícia da sua ausência não autorizada já havia chegado.
“Helena! Onde você estava? Fiquei preocupado.”
Ela o olhou, a mente ainda girando com as palavras de Fernando. “Eu… precisava de um tempo. Precisava pensar.”
“Pensar sobre o quê?” A pergunta era direta, mas carregada de uma esperança silenciosa.
Helena hesitou. Contar sobre Fernando seria admitir que estava sendo caçada, que estava em perigo. Mas esconder a verdade significava se isolar ainda mais.
“Eu encontrei alguém do meu passado. Alguém que conhece o Sr. Almeida e o Rafael. E que sabe sobre a fraude.” A voz dela era baixa, quase um murmúrio.
Miguel empalideceu. “Quem?”
“Fernando. O meu ex-namorado. Ele disse que sabia de tudo. Que queria me ajudar. Mas eu não sei se posso confiar nele.”
Miguel suspirou, a tensão em seus ombros visível. “Fernando… Aquele manipulador. Eu me lembro dele. Ele sempre foi um parasita, vivendo nas sombras dos outros.”
“Ele me disse que Rafael me usaria e me descartaria. Que ele era a minha única chance.” As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Helena.
Miguel a abraçou, com força. “Não, Helena. Não acredite nele. Ele está tentando te manipular. Assim como o pai dele. A única pessoa em quem você pode confiar aqui sou eu. E nós vamos enfrentar isso juntos. De verdade.”
O abraço de Miguel era um porto seguro, mas as palavras de Fernando ecoavam em sua mente, como um prenúncio sombrio. A armadilha do passado havia se fechado, e Helena se sentia cada vez mais presa em uma teia de segredos e mentiras.