O Homem Perfeito III

Capítulo 13 — O Bunker da Verdade e o Jogo de Espelhos

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 13 — O Bunker da Verdade e o Jogo de Espelhos

O caos irrompeu na mansão Bastos como um raio que fende o céu, espalhando fragmentos de pânico e desespero. A festa beneficente, um espetáculo de faixada para a alta sociedade carioca, transformou-se em um palco de terror. Helena, com o coração martelando contra as costelas, sentia o peso de cada revelação esmagadoramente. A biblioteca, antes seu santuário, agora era o epicentro de uma teia de mentiras que se desvendava em tempo real. Marco, com seus olhos que oscilavam entre a devoção e o perigo, era o centro daquele enigma, um homem que ela temia e desejava em igual medida.

A entrada repentina de Dona Glória, com sua fúria contida transbordando, adicionou uma nova camada de drama à já tensa cena. As palavras dela, afiadas como navalhas, golpeavam Helena, mas a força que ela encontrou em si mesma era maior do que o medo. A confissão de Sofia, a confirmação das suspeitas, havia acendido nela uma chama que Glória e Marco não conseguiriam apagar. A guerreira interior, adormecida por tantos anos, finalmente despertara.

Quando o alarme soou, cortando o ar com seu som agudo e urgente, o choque paralisou a todos por um instante. A notícia da invasão, de homens armados circulando a propriedade, jogou um balde de água fria sobre a adrenalina. A fragilidade da segurança da mansão, antes impensável, tornava-se uma realidade aterradora.

“Todos para o bunker! Rápido!”, a voz de Glória, embora tensa, mantinha um tom de comando inabalável. Era a matriarca, a estrategista, que mesmo diante do perigo iminente, buscava controlar a situação.

Marco, com uma rapidez surpreendente, agarrou Helena pelo braço, seus dedos apertando sua pele com uma força que beirava a dor. “Precisamos sair daqui. Agora.”

Ricardo se posicionou imediatamente entre eles, um escudo humano formado por lealdade e preocupação. “Eu não vou deixar que você a leve a lugar nenhum, Marco. Ela precisa de segurança, não de mais perigo.”

A disputa velada entre os dois homens se intensificava, cada um lutando por Helena, por sua segurança, por seu futuro. Mas naquele momento, a prioridade era a fuga.

Guiados pelos seguranças tensos, o grupo – Helena, Marco, Ricardo, Sofia e uma Dona Glória ainda exalando autoridade – desceu por um corredor secreto escondido atrás de uma estante na biblioteca. O caminho levava às entranhas da mansão, a um refúgio subterrâneo construído para tempos de crise. A porta de aço maciço se fechou atrás deles com um estrondo pesado, isolando-os do mundo exterior e do pandemônio que certamente se instaurara lá em cima.

O bunker era funcional, austero. Paredes de concreto aparente, iluminação fria e um ar condicionado que zumbia baixinho, criando uma atmosfera de isolamento total. Havia suprimentos básicos, um sistema de comunicação rudimentar e um sofá confortável que parecia fora de lugar em meio àquela estrutura de sobrevivência.

Helena sentou-se no sofá, o corpo tremendo, não mais de medo, mas de uma exaustão emocional profunda. A adrenalina da fuga começava a diminuir, deixando para trás uma sensação de vertigem. Ela olhou para Marco, que a observava atentamente, seus olhos escuros tentando decifrar seus pensamentos.

“Eles não vão nos encontrar aqui”, Marco disse, sua voz baixa, tentando transmitir segurança. “Este lugar é impenetrável.”

“E o que você quer que façamos, Marco?”, Helena perguntou, a voz rouca. “Esperar que o mundo lá em cima desmorone? Ou esperar que você me conte a verdade inteira?”

Dona Glória, que se servia de um copo d’água com mãos firmes, encarou Helena. “A verdade, querida Helena, é que você se colocou em perigo. E agora, todos nós estamos em perigo por sua causa.”

Ricardo, que se mantinha perto de Helena, interveio. “Senhora Bastos, se a invasão tem a ver com os negócios do seu falecido marido, talvez possamos negociar. Mas Helena não pode ficar presa aqui, sem saber o que está acontecendo.”

Marco se aproximou de Helena, sentando-se ao seu lado no sofá. Ele pegou a mão dela, e desta vez, o toque era mais suave, quase hesitante. “Helena, eu te devo explicações. Muitas. Mas nem tudo é como parece. E a verdade… a verdade é um jogo de espelhos, onde cada reflexo distorce a realidade.”

Ele respirou fundo. “Meu pai e o seu pai eram sócios. Mas não eram apenas sócios. Eles eram amigos, quase irmãos. Quando o seu pai morreu, foi um golpe devastador para todos. Mas o que ele deixou para trás não era apenas a empresa. Eram dívidas. Dívidas enormes, ligadas a pessoas perigosas. Pessoas que não perdoam. O meu pai, para proteger a nossa família, e para honrar a memória do amigo, assumiu essas dívidas. Ele fez acordos… acordos escusos para manter tudo sob controle.”

Helena ouvia atentamente, a mente tentando processar a torrente de informações. O pai de Marco, o homem que ela idolatrava em sua infância, também estava envolvido na teia de segredos.

“E o doutor Vianna?”, Helena perguntou, lembrando-se das palavras de Sofia. “A marca no pescoço do meu pai. Isso não foi um acidente, Marco.”

Marco fechou os olhos por um instante, um tremor percorrendo seu corpo. “Vianna… ele era corrupto. Ele estava envolvido em tudo. A morte do seu pai… foi um acidente trágico que se tornou uma oportunidade para alguns. E o meu pai, desesperado para apagar os rastros e evitar um escândalo maior, permitiu que Vianna criasse uma história. Ele me envolveu nisso. Eu era um garoto, Helena. Assustado. Eu só queria que tudo acabasse.”

Sofia, que ouvira tudo em silêncio, acrescentou com a voz embargada: “O seu pai, senhorita Helena, ele descobriu um esquema de lavagem de dinheiro dentro da empresa. Ele ia expor tudo. Eles não podiam permitir isso.”

A revelação atingiu Helena como um golpe físico. Seu pai, o homem que ela idealizava como um empresário íntegro, era um herói que lutava contra a corrupção. E sua morte não foi um acidente, nem uma fatalidade do destino, mas um assassinato brutal.

“E Glória?”, Helena questionou, virando-se para a matriarca, que observava a tudo com uma expressão gélida. “Ela sabia de tudo isso?”

“Eu sabia o suficiente para proteger os meus filhos”, Glória respondeu, sem rodeios. “Seu pai era um idealista, Helena. Um bom homem, sim. Mas imprudente. Ele se meteu em um mar revolto. E nós, os Bastos, sempre soubemos nadar em águas perigosas. Meu marido fez o que precisava ser feito. E eu fiz o que era preciso para manter a família unida. Você, com sua sede por vingança, está colocando tudo a perder.”

“Vingança?”, Helena se levantou, a exaustão dando lugar a uma força renovada. “Eu não quero vingança, Dona Glória. Eu quero justiça. Eu quero que a verdade seja conhecida. Meu pai merece isso. E eu mereço saber quem ele realmente era.”

Ricardo aproveitou o momento de tensão para se dirigir a Marco. “Marco, quem são essas pessoas que invadiram a mansão? Elas têm a ver com as dívidas do seu pai, com o esquema que o pai de Helena descobriu?”

Marco hesitou, olhando para Glória, que lhe lançou um olhar de advertência. “Talvez. São… credores. E pessoas que não gostam que seus segredos sejam expostos.”

“Então eles estão aqui atrás de provas, ou de quem possa falar sobre elas”, Ricardo deduziu. “Precisamos sair daqui. E precisamos de um plano.”

A atmosfera no bunker tornou-se um jogo de espelhos, onde cada um tentava projetar uma imagem de controle enquanto o caos reinava do lado de fora. Helena percebeu que Marco não era apenas um cúmplice do encobrimento, mas também uma vítima, preso nas teias de sua própria família e nos crimes do passado. A atração que sentia por ele era complexa, tingida pela dor e pela compreensão.

“Eu preciso ir atrás do que meu pai deixou”, Helena disse, sua voz firme. “Ele guardava documentos. Na minha antiga casa. Se eles estiverem lá, é para lá que os invasores vão. Eu preciso pegá-los antes deles.”

Glória zombou. “Você é louca? Ir para lá agora? É uma armadilha!”

“Talvez seja uma armadilha”, Helena concordou, olhando para Marco. “Mas é a única chance que temos de encontrar as provas que podem limpar o nome do meu pai e expor a verdade.”

Marco olhou para Helena, um conflito visível em seu rosto. Ele sabia dos riscos. Ele sabia que Glória não hesitaria em sacrificá-la para proteger os segredos da família. Mas ele também viu nos olhos de Helena a mesma força e determinação que ele admirava, e que agora o atraíam irremediavelmente.

“Eu vou com você”, Marco disse, sua voz ecoando no bunker.

Glória soltou um suspiro de exasperação. “Você é um tolo, Marco. Mas se é isso que você quer…”

Ricardo interveio. “Eu também vou. Não deixarei Helena sozinha.”

Sofia, a fiel governanta, que havia sido a faísca que acendeu a chama da verdade em Helena, também se levantou. “Eu também vou. Onde a senhorita Helena for, eu vou.”

O bunker da verdade, que deveria ser um refúgio, transformou-se em ponto de partida para uma missão perigosa. A rede de traições se estendia para além das paredes da mansão, e Helena, a outrora doce e ingênua herdeira, emergia como uma guerreira, pronta para enfrentar o perigo em nome da verdade e da justiça. O jogo de espelhos estava prestes a se tornar uma batalha real.

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