O Homem Perfeito III
Capítulo 17 — O Fantasma do Passado e a Sombra do Medo
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 17 — O Fantasma do Passado e a Sombra do Medo
Os dias no sítio se desdobravam com uma calma tensa. Ana Paula passava horas caminhando pelos arredores, revivendo a infância, as brincadeiras no riacho, as tardes de leitura sob a mangueira. Cada memória, antes tingida de uma inocência que agora parecia distante, servia como um contraponto à escuridão que a cercava. Marco Antonio, com sua presença discreta e atenta, tornara-se a âncora que a impedia de afundar na desesperança. Ele cuidava das tarefas da casa, preparava as refeições com a simplicidade que o lugar pedia, e, acima de tudo, estava ali, um guardião silencioso.
Uma tarde, enquanto arrumava um velho baú no sótão empoeirado, Ana Paula encontrou um álbum de fotografias. As imagens desbotadas trouxeram de volta o rosto de seus pais, sorrindo em momentos felizes. Havia também fotos de Rafael, em épocas em que ele parecia ser o homem que ela acreditava que fosse. Uma foto em particular a fez parar: ela e Rafael, jovens, em uma festa de aniversário. Ele a abraçava com um carinho que, agora, parecia estudado, ensaiado. A lembrança dela, a ingenuidade em seus olhos, provocou uma pontada de raiva. Como ela pôde ser tão cega?
Marco Antonio a encontrou ali, sentada no chão, cercada pelas memórias de um passado que se desfazia. Ele se ajoelhou ao seu lado. “Você está bem?”, perguntou, a voz suave.
Ana Paula suspirou, fechando o álbum. “Estou bem. Apenas… relembrando.” Ela olhou para ele. “Você acha que ele já sabia, desde o início? Que planejava tudo isso desde quando éramos… felizes?” A palavra “felizes” soou oca, irônica.
Marco Antonio hesitou antes de responder. “Não sei, Ana Paula. O que sei é que o que ele fez, ou o que planejou fazer, é cruel. Mas não define quem você é. Sua força, sua bondade, isso é real.”
“Mas eu me sinto tão… suja. Tão usada. Como se tudo o que eu construí fosse uma mentira.” As lágrimas ameaçaram voltar, mas ela as segurou com firmeza. Precisava ser forte.
“Não se sinta assim. A culpa não é sua. A culpa é de quem te enganou”, ele disse, a voz firme. “E essa culpa ele vai carregar para sempre. Você só precisa se dar tempo para curar.”
Naquela noite, enquanto a chuva caía forte sobre o telhado, Ana Paula não conseguia dormir. As imagens de Rafael, seu sorriso, seus olhos… pareciam segui-la. O medo, que ela vinha reprimindo com todas as suas forças, começou a se instalar. O medo de que ele a encontrasse, de que ele se vingasse por ela ter descoberto a verdade, por ter se aliado a Marco Antonio.
Ela se levantou e foi até a janela. A escuridão lá fora era quase palpável. O vento uivava, e os galhos das árvores batiam contra o vidro, como se fossem mãos fantasmagóricas querendo entrar. Um barulho distante, um farfalhar de folhas que soou diferente, a fez prender a respiração. Seria o vento? Ou…
Marco Antonio surgiu na porta do quarto, sua silhueta imponente contra a luz fraca do corredor. Ele a observou por um momento. “Não consegue dormir?”, perguntou, aproximando-se.
Ana Paula se virou para ele, o medo evidente em seus olhos. “Ouvi um barulho lá fora. Acho que… acho que estou ficando paranoica.”
Marco Antonio se aproximou da janela, observando a escuridão. “O sítio é isolado. Qualquer barulho pode soar mais alto aqui. Mas vou verificar.” Ele pegou uma lanterna potente na mesinha de cabeceira. “Fique aqui. Tranque a porta.”
Ele saiu, e Ana Paula ouviu seus passos firmes se afastando pela casa. Ela trancou a porta, o coração batendo descompassado. Cada sombra parecia ganhar vida, cada rangido da madeira antiga soava como um aviso. Ela se sentou na cama, os joelhos abraçados contra o peito, tentando controlar a respiração. O fantasma do passado, as mentiras de Rafael, pareciam ter voltado para assombrá-la de forma concreta, manifestando-se em sua própria mente e, talvez, na realidade.
Minutos que pareceram horas se passaram. Então, ela ouviu os passos de Marco Antonio retornando. Ele bateu suavemente na porta. “Ana Paula, sou eu.”
Ela destrancou a porta rapidamente. Ele entrou, o rosto sério. “Era apenas um animal na mata. Um gambá, talvez. Nada para se preocupar.” Ele sabia que não era apenas isso. Havia uma tensão em seus ombros, uma vigilância em seus olhos que não estava ali antes.
Ele se sentou na beira da cama. “Você está com medo, não é?”
Ana Paula assentiu, a voz embargada. “Sim. Não quero que ele me encontre. Não quero que ele me machuque. Ou machuque você.”
Marco Antonio segurou a mão dela, seus dedos entrelaçando os dela. O calor e a força de seu toque a acalmaram um pouco. “Eu não vou deixar que ele te machuque, Ana Paula. E eu sou capaz de me defender. O que mais me preocupa é que ele possa tentar usar alguém para chegar até nós. Ou usar você contra mim.”
A ideia a gelou. Rafael era mestre em manipulação. Ele não hesitaria em usar pessoas inocentes, ou até mesmo seus próprios aliados, para atingir seus objetivos. “O senhor Armando… ele disse que Rafael tinha aliados influentes. Pessoas que se beneficiam do esquema dele.”
“Exatamente”, Marco Antonio concordou. “Precisamos ter cuidado. Não podemos confiar em ninguém que tenha qualquer ligação com ele. E precisamos acelerar o processo. Quanto mais rápido entregarmos as provas ao delegado, mais seguro estaremos.”
Ele então pegou o celular. “Vou ligar para o delegado agora. Preciso avisá-lo que estamos aqui e que a situação pode se tornar mais perigosa. Quero que ele agilize o processo de investigação e a nossa proteção.”
Enquanto Marco Antonio falava ao telefone em voz baixa, Ana Paula observava seu rosto. A serenidade que ele projetava era um escudo para ela. Ela sabia que ele estava fazendo tudo o que podia para protegê-la, para garantir que a justiça fosse feita. Mas a sombra do medo ainda pairava, um lembrete constante de que Rafael, o homem que ela um dia amou, era agora uma ameaça real, um fantasma do passado que se recusava a desaparecer. A luta seria longa, e eles precisariam de toda a coragem e cautela para sobreviver a ela.