O Homem que Amei II
O Homem que Amei II
por Ana Clara Ferreira
O Homem que Amei II
Autor: Ana Clara Ferreira
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Capítulo 1 — O Eco de um Adeus
O sol poente lançava longas sombras sobre a Praça da Sé, tingindo de um dourado melancólico as pedras centenárias que guardavam tantas histórias. Maria Eduarda, a Duda que o mundo conhecia, sentia o peso de cada raio de luz como um fardo em sua alma. Fazia um ano. Um ano desde o dia em que Ricardo, o homem que a roubara o fôlego e a razão, partiu. Partiu sem um beijo de despedida, sem uma palavra que pudesse mitigar a dor lancinante que se instalou em seu peito como um parasita. Apenas um bilhete, esquecido sobre a mesinha de cabeceira, com a sua caligrafia elegante, mas fria: "Preciso de espaço, Duda. Espero que entenda."
Espaço. A palavra ecoava em sua mente como um grito mudo. Espaço para quê? Para ele, para ela, para a saudade que se agigantava a cada dia? Duda sentou-se no banco de madeira, as mãos entrelaçando-se em seu colo, os nós dos dedos brancos de tensão. A brisa leve que soprava da Baía de Guanabara trazia consigo o perfume adocicado das acácias em flor e o cheiro salgado do mar, mas para ela, tudo o que sentia era o vazio deixado por ele.
Olhou para o Mosteiro de São Bento, a imponência de sua arquitetura um contraste com a fragilidade que sentia. Tinha vindo ali tantas vezes, na esperança de que a paz que emanava daquele lugar sagrado pudesse de alguma forma curar as feridas que Ricardo deixara. Mas o eco de seu adeus parecia ressoar nas abóbadas, nas preces sussurradas, nas melodias dos cantos gregorianos.
Lembrou-se do dia em que o conhecera. Uma tarde chuvosa no Museu de Arte Moderna, ela, uma jovem artista sonhadora, ele, um arquiteto renomado, com um sorriso que desarmava e um olhar que prometia mundos. A paixão fora avassaladora, um furacão que a arrebatou e a fez acreditar em um amor para sempre. Construíram um ninho em um apartamento com vista para o Pão de Açúcar, repleto de telas, livros e risadas. E, agora, o ninho estava vazio.
"Duda?"
A voz a fez sobressaltar. Era Clara, sua melhor amiga desde a adolescência, com seu habitual sorriso acolhedor e os olhos preocupados. Clara sabia tudo, cada detalhe da sua história com Ricardo, cada lágrima derramada.
"Clara! Que surpresa!", exclamou Duda, tentando disfarçar a comoção.
"Surpresa? Você que está sempre aqui, contemplando a vida com essa cara de quem perdeu o último ônibus para o paraíso", brincou Clara, sentando-se ao seu lado. "Mas hoje, a contemplação parece mais sombria que o normal."
Duda suspirou. "É só mais um dia, amiga. A saudade não escolhe dia para aparecer."
"Um ano, Duda. Um ano desde que aquele homem te deixou com o coração em pedaços e um futuro incerto. E você ainda está aqui, presa nesse passado." Clara apertou sua mão. "Você precisa seguir em frente, meu amor."
"Fácil falar. Você não sabe o que é amar alguém com essa intensidade, Clara. Ricardo não era só um amor, era o meu mundo. A minha inspiração. A minha paz." A voz de Duda embargou. "E agora, ele se foi. Levou tudo com ele."
"Ele não levou você, Duda. Você ainda está aqui. Forte. Talentosa. E linda. Essa arte que você cria… é a prova viva disso." Clara apontou para a bolsa de couro que Duda carregava, um acessório customizado por ela, com traços delicados de tinta acrílica retratando uma paisagem marinha.
"É só… um hobby, Clara. Uma forma de afogar as mágoas."
"Um hobby que pode te levar para o mundo, se você quiser. A galeria do centro está organizando uma nova exposição. Eu vi o anúncio. É sobre novos talentos. E eu, como sua amiga e fã número um, acho que você deveria mostrar o que sabe fazer."
Duda balançou a cabeça. "Não estou pronta, Clara. A inspiração… sumiu. O mundo parece cinza sem ele."
"O mundo não está cinza, Duda. Ele só precisa que você reative as cores. E a sua arte, meu bem, é o seu pincel." Clara levantou-se. "Pense nisso. Amanhã é a reunião para os interessados. Não diga não antes de pensar."
Clara se despediu com um abraço apertado, deixando Duda novamente sozinha com seus pensamentos. A praça começava a se esvaziar à medida que o crepúsculo avançava. Os últimos raios de sol desapareceram, dando lugar a um céu pontilhado de estrelas tímidas. Duda olhou para o horizonte, onde a silhueta do Cristo Redentor se destacava contra o firmamento. Uma lágrima solitária rolou por seu rosto. Era hora de ir para casa. Para o apartamento silencioso, onde cada objeto parecia gritar o nome de Ricardo.
Ao chegar em casa, o silêncio a envolveu como um manto pesado. A luz fraca do abajur projetava sombras dançantes pelas paredes. O sofá onde tantas vezes se aconchegaram, agora parecia imenso e vazio. O cheiro residual de seu perfume, misturado ao dele, ainda pairava no ar, uma tortura constante.
Duda dirigiu-se ao seu ateliê, um dos cômodos que mais amava em seu lar. As telas em branco a fitavam, desafiadoras. Pegou um pincel, o peso familiar em sua mão, mas a tela permaneceu intocada. O que pintar? O quê expressar? A dor? A saudade? O amor que ainda sentia?
Lembrou-se das palavras de Clara. "Novos talentos." Seria essa a sua chance de renascer? De transformar a dor em arte, o luto em inspiração? Respirou fundo, o ar parecendo rarefeito.
Naquela noite, Duda não dormiu. Ficou sentada em sua poltrona, olhando para a cidade iluminada lá fora, o coração apertado, mas uma pequena faísca de esperança acendendo em seu peito. O eco do adeus de Ricardo ainda a assombrava, mas talvez, apenas talvez, fosse hora de começar a compor uma nova melodia. Uma melodia que não fosse apenas de perda, mas de resiliência. De coragem. De um amor que, mesmo ferido, persistia em existir. A exposição. A galeria. A arte.
A decisão estava tomada. Ela iria. Ela mostraria ao mundo, e a si mesma, que Maria Eduarda era muito mais do que a mulher que amou Ricardo. Era uma artista. E sua arte falaria por ela, em cores vibrantes e traços inconfundíveis. A noite avançava, e com ela, a promessa de um novo amanhecer.