O Homem que Amei II
Capítulo 2 — As Cores do Recomeço
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 2 — As Cores do Recomeço
O aroma de café fresco e pão de queijo pairava no ar acolhedor da "Aquarela Brasileira", a galeria de arte que se tornara o epicentro da vida artística da cidade. Duda adentrou o espaço, o coração batendo em um ritmo acelerado, uma mistura de ansiedade e excitação. Clara, radiante em um vestido azul royal que realçava seus olhos, a esperava com um sorriso largo.
"Você veio! Eu sabia!", exclamou Clara, abraçando-a com força. "Estou tão orgulhosa de você!"
"Medo de perder essa oportunidade única de expor ao lado de tantos talentos incríveis", respondeu Duda, um leve tremor em sua voz. A galeria estava repleta de pessoas, artistas, colecionadores e amantes da arte, todos conversando animadamente, admirando as obras expostas nas paredes brancas e iluminadas.
"Você vai brilhar, Duda. Tenho certeza. Suas obras têm uma alma, uma força que poucos conseguem capturar." Clara a conduziu por entre os corredores, apresentando-a a alguns dos organizadores e artistas. Duda tentava absorver tudo, mas sua mente estava em um turbilhão. A cada olhar, a cada elogio, ela se sentia um pouco mais confiante, mas a sombra de Ricardo ainda pairava, questionando se ela seria capaz de superar a falta de sua inspiração.
"E então, Duda, o que você decidiu?" A voz grave e familiar a fez congelar. Virou-se lentamente, o sangue parecendo ter sumido de suas veias. Ali estava ele. Ricardo. Não como ela o vira pela última vez, com a urgência de um adeus silencioso, mas impecável em um terno escuro, com aquele sorriso que antes a derretia, agora parecendo um mero convite à ilusão.
"Ricardo… O que você está fazendo aqui?", conseguiu articular Duda, a voz um sussurro embargado.
"Eu recebi um convite especial", respondeu ele, os olhos fixos nos dela, um misto de surpresa e algo que ela não soube decifrar. "Ouvi dizer que a galeria estava promovendo uma exposição de novos talentos. E eu, como um apreciador de arte, não poderia perder a oportunidade de prestigiar. Especialmente se houver algo… inesperado."
A palavra "inesperado" a atingiu como um golpe. Seria ela o inesperado? Ou ele estaria falando de outro artista? Clara, percebendo a tensão no ar, interveio discretamente.
"Ricardo, que surpresa te ver por aqui. Você conhece a Duda, claro. Ela é uma das expositoras deste ano."
Ricardo a olhou com uma expressão que Duda não soube interpretar. Era culpa? Arrependimento? Ou apenas a curiosidade de quem reencontra um fantasma do passado?
"Maria Eduarda", disse ele, o nome dela soando diferente em seus lábios. "É… impressionante vê-la aqui. Lembro-me de suas telas em nosso apartamento. Elas sempre tiveram uma energia… vibrante."
Duda sentiu um nó na garganta. As lembranças invadiram sua mente com a força de um tsunami. O apartamento, as telas, as risadas compartilhadas. E o adeus abrupto.
"Obrigada, Ricardo. A arte, para mim, sempre foi uma forma de expressar o que sinto." A resposta soou mais controlada do que ela esperava.
"E o que você sente agora, Duda?", perguntou ele, a voz suave, mas carregada de uma curiosidade que a desarmava.
"Sinto que a vida nos dá novas oportunidades. E que devemos sempre buscar as cores em meio ao cinza", respondeu ela, a frase de Clara ecoando em sua mente.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Ricardo. "Uma bela filosofia. E suas obras… elas seguem essa filosofia?"
"Eu espero que sim", disse Duda, sentindo a necessidade de se afastar. "Com licença, preciso verificar alguns detalhes com a curadoria."
Ela se afastou rapidamente, deixando Ricardo parado no meio da galeria, um enigma em sua elegância. Clara a seguiu, a expressão de preocupação estampada em seu rosto.
"Isso foi… intenso", sussurrou Clara. "Ele não deveria saber que você estaria aqui, não é?"
"Não. De jeito nenhum", respondeu Duda, respirando fundo para se recompor. "Ainda não sei como ele descobriu. Mas preciso me concentrar na exposição."
Os dias que se seguiram foram de correria e ansiedade. Duda dedicou-se a preparar suas telas, a escolher as melhores obras, a pensar na disposição e iluminação. A presença de Ricardo a perturbava, mas também a impulsionava. Era como se a necessidade de provar a si mesma, de mostrar que ela era forte o suficiente para seguir em frente sem ele, tivesse se tornado um motor para sua arte.
Ela selecionou cinco telas. Uma paisagem urbana vibrante, com cores intensas e traços enérgicos, retratando o ritmo acelerado do Rio de Janeiro. Outra, um retrato sutil de uma mulher pensativa, com o olhar perdido no horizonte, a solidão pintada em tons de azul e cinza. Havia também uma natureza morta com flores exóticas, cheia de vida e exuberância. E duas telas abstratas, uma explodindo em tons de vermelho e amarelo, a outra em tons de verde e azul, representando a paixão e a serenidade.
Na noite da inauguração, a galeria estava ainda mais movimentada. As obras de Duda atraíram a atenção de muitos. Os elogios eram genuínos, as perguntas sobre sua inspiração e técnica, perspicazes. Ela sentia o reconhecimento, a validação que tanto almejava.
E então, ela o viu novamente. Ricardo, parado em frente à sua tela abstrata em tons de vermelho e amarelo. Seus olhos percorriam cada pincelada, cada textura. Ele parecia absorto, como se estivesse decifrando um código secreto.
Quando Duda se aproximou, ele se virou, um leve sorriso nos lábios. "Esta… esta é sua obra mais forte, Duda."
"É a paixão", disse ela, a voz um pouco trêmula. "A força que reside em nós, mesmo quando tudo parece perdido."
Ricardo a olhou nos olhos, e pela primeira vez, Duda viu algo além da elegância e da indiferença. Viu uma admiração sincera, talvez até um toque de surpresa.
"Você realmente encontrou suas cores, Maria Eduarda", disse ele, e havia uma verdade em suas palavras que a tocou profundamente.
Naquela noite, Duda sentiu que havia dado um passo importante. A exposição não era apenas uma vitrine para sua arte, mas um palco para sua cura. E, pela primeira vez em um ano, o eco do adeus de Ricardo começou a ser abafado pelo som vibrante e esperançoso das cores do recomeço. Ela ainda sentia a dor, mas agora, ela também sentia a força. A força que emanava de suas mãos, de seus pincéis, de sua alma. A força de Maria Eduarda.