O Homem que Amei II
Capítulo 3 — Fantasmas e Sussurros
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — Fantasmas e Sussurros
A exposição na "Aquarela Brasileira" se tornou um sucesso estrondoso para Maria Eduarda. Suas obras, carregadas de emoção e técnica apurada, atraíram não apenas o público em geral, mas também críticas influentes e colecionadores de arte que até então não a conheciam. As vendas foram expressivas, e os convites para novas exposições começaram a chegar, vindos de galerias em São Paulo, em Belo Horizonte, e até mesmo em Nova York.
Duda sentia uma euforia que não experimentava há muito tempo. Era como se a criatividade, antes represada pelo luto, tivesse transbordado, inundando sua vida com novas perspectivas e energias. A presença de Ricardo, embora ainda um fator de instabilidade em seu peito, também a impulsionava de uma forma estranha. Aquele reencontro inesperado, os olhares trocados, as poucas palavras ditas, tudo criava um clima de suspense, um fio tênue que a ligava a um passado que ela lutava para superar, mas que, ironicamente, a motivava a construir um futuro.
No entanto, nem tudo eram flores. A vida de Duda, que parecia ter encontrado um novo rumo, começou a ser assombrada por sussurros. Pequenos boatos, comentários maldosos que chegavam a seus ouvidos através de Clara e de outros amigos do meio artístico. Diziam que ela só havia conseguido o destaque por influência de Ricardo, que ele teria usado seus contatos para impulsionar a carreira dela, uma forma de redenção ou talvez, como alguns insinúveis sugeriam, de manipulação.
"É ridículo, Clara! Não é possível que as pessoas pensem isso", desabafou Duda, enquanto tomavam um café em uma charmosa cafeteria no Leblon. "Eu trabalhei duro. Chorei, sofri, passei noites em claro com essas telas. E agora, porque Ricardo apareceu na inauguração, me chamam de artista 'protegida'?"
Clara apertou sua mão, os olhos cheios de compaixão. "Eu sei, Duda. E você sabe. Mas infelizmente, a inveja tem muitas faces. E a verdade, às vezes, se perde no meio de tantas fofocas."
"Mas ele não me ajudou em nada, Clara! Na verdade, ele… ele nem sabia que eu estaria expondo ali. Aquele reencontro foi tão inesperado para mim quanto para ele, eu acho." Duda franziu a testa, a lembrança ainda fresca. Aquele olhar de surpresa, mas também de… algo mais.
"Eu acredito em você, Duda. Sempre acreditei. E o seu talento fala por si só. As vendas, os elogios da crítica… nada disso é obra de Ricardo." Clara tomou um gole de café. "Mas isso me faz pensar. Por que ele apareceu? E por que ele pareceu tão interessado em sua arte? Ele está arrependido, Duda? Ou há algo mais?"
Essa pergunta pairava no ar como uma nuvem escura. Duda não sabia responder. Ricardo se tornara um enigma. O homem que ela amou, o homem que a abandonou, agora era um estranho com olhares que pareciam sondar sua alma.
Nos dias seguintes, Ricardo começou a aparecer em eventos artísticos que Duda frequentava. Não de forma ostensiva, mas discreta, observando de longe, às vezes trocando um cumprimento rápido e formal. Duda sentia sua presença, uma corrente elétrica que percorria seu corpo, misturando desconforto e uma curiosidade insistente.
Uma noite, em um coquetel em uma galeria de arte em Ipanema, Ricardo se aproximou novamente. A música suave, as luzes baixas, o burburinho das conversas criavam um ambiente propício para um reencontro mais íntimo.
"Duda", disse ele, a voz um pouco mais baixa do que o usual. "Parabéns novamente. O seu trabalho está cada vez mais impressionante."
"Obrigada, Ricardo. E você, como tem passado?" Duda tentava manter a compostura, mas sentia o rubor subir por seu pescoço.
"Tenho estado ocupado. Projetos novos. Mas confesso que meus pensamentos têm vagado para o passado. Para o nosso passado." Ele a olhou nos olhos, e Duda sentiu um arrepio. "Eu sinto falta da nossa… conexão. Da forma como nos entendíamos sem precisar dizer uma palavra."
O coração de Duda deu um salto. Era uma armadilha? Uma tentativa de reabrir feridas antigas? Ou ele estaria, finalmente, expressando algum tipo de remorso?
"Ricardo, o passado é passado. Eu estou focada no meu presente. Na minha arte. No meu futuro." A resposta saiu firme, quase dura, mas era a verdade que ela precisava afirmar.
"Eu sei. E admiro isso. Sua força. Sua capacidade de se reinventar. Mas… e se houvesse uma forma de resgatar algo do nosso passado? Sem apagar o que você construiu agora." Havia uma melancolia em sua voz que a intrigou.
"Não sei se entendo o que você quer dizer", disse Duda, o ceticismo predominando.
"Eu cometi erros, Duda. Erros imperdoáveis. A forma como eu saí da sua vida… foi covarde. Eu sei disso. Na época, eu estava perdido. Confuso. Assustado com a intensidade do que sentia por você. E fugi." Ele respirou fundo, como se estivesse confessando um pecado. "Mas nunca deixei de pensar em você. Em nós. E ver o seu sucesso, a sua evolução como artista… me fez perceber o quanto eu perdi."
As palavras dele a atingiram em cheio. A confissão de culpa, a admissão de seus erros. Era o que ela esperava ouvir por tanto tempo, mas agora, parecia diferente. Havia uma maturidade em sua voz, um arrependimento genuíno que a fazia questionar tudo o que ela havia construído em sua mente sobre ele.
"Ricardo, eu… eu não sei o que dizer." Duda estava desnorteada. A raiva que ela guardara por tanto tempo parecia se dissipar, dando lugar a uma confusão de sentimentos.
"Não diga nada agora. Apenas… pense nisso. Eu gostaria de ter uma chance de conversar com você. De verdade. Sem pressa. Sem expectativas. Apenas para que você entenda o que se passou. E para que eu possa, quem sabe, pedir o seu perdão." Ele pegou um cartão de visitas de seu bolso. "Aqui está o meu número. E o meu e-mail. Quando você se sentir pronta, Duda."
Ele depositou o cartão em sua mão e se afastou, deixando Duda com o coração acelerado e uma sensação de vertigem. Os sussurros da galeria, os olhares curiosos dos outros convidados, tudo parecia distante. Em sua mão, o cartão com o nome de Ricardo, um convite para revisitar o passado, um fantasma que parecia querer se tornar presente novamente.
De volta ao seu ateliê, Duda olhou para as telas que a haviam levado até ali. A paixão, a serenidade, a força. Ela havia pintado suas emoções, suas dores, suas esperanças. E agora, diante da possibilidade de um reencontro com o homem que a machucara profundamente, ela se perguntava: o que ela pintaria? O perdão? A cautela? Ou a chama que, apesar de tudo, ainda parecia arder em algum lugar em seu coração? Os sussurros do passado e os fantasmas de um amor antigo pairavam em seu ateliê, mas Duda sentia, em meio a essa turbulência, um novo impulso criativo. A necessidade de pintar a verdade, qualquer que fosse ela.