O Homem que Amei II

Capítulo 4 — A Sombra do Passado

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 4 — A Sombra do Passado

Os dias que se seguiram à festa na galeria foram marcados por uma indecisão palpável na vida de Duda. O cartão de Ricardo jazia sobre sua mesa de trabalho, um lembrete constante da proposta de reconciliação, ou, no mínimo, de um diálogo aberto. Clara, percebendo sua apreensão, tentava aconselhá-la, mas a decisão era unicamente de Duda.

"Ele se desculpou, Duda. Ele admitiu os erros. Não é o que você sempre quis?", perguntou Clara, enquanto tomavam um sorvete na orla de Copacabana, o mar azul e calmo refletindo o céu límpido.

"Sim, Clara. Mas o perdão não apaga a dor. E a confiança… a confiança se quebra com uma facilidade assustadora, não é mesmo?" Duda olhava para as ondas quebrando na areia, buscando em sua imensidão a clareza que lhe faltava. "E se for apenas uma tática dele? Uma forma de se reaproximar, de me manipular de novo?"

"E se não for? E se ele realmente mudou? E se essa conversa puder trazer um fechamento para você, seja ele qual for? Talvez você precise ouvir o que ele tem a dizer para, finalmente, soltar as amarras do passado." Clara suspirou. "Eu sei que é arriscado. Mas você já está se arriscando ao se manter presa a essa mágoa. E se, ao contrário, essa conversa for o empurrão que você precisa para se libertar de vez?"

A argumentação de Clara, embora lógica, não apaziguava o turbilhão de emoções dentro de Duda. Ela pensava em Ricardo, no homem que ela amou com toda a sua alma, mas também no homem que a deixou sem explicação, que desapareceu como fumaça. A artista em Duda, acostumada a transformar sentimentos em cores, agora se sentia paralisada, incapaz de escolher a tonalidade certa para esse novo capítulo.

Finalmente, após dias de reflexão e algumas noites em claro, Duda tomou uma decisão. Ela decidiu que precisava confrontar o passado para poder viver plenamente o futuro. Não para reatar o relacionamento, mas para encontrar a paz. E, talvez, para entender o que havia levado Ricardo a agir daquela forma.

Ela enviou um e-mail curto e direto: "Ricardo, aceito sua proposta de conversarmos. Amanhã, às 15h, no Café Paris, em Copacabana. Espero que seja um encontro produtivo."

No dia marcado, o sol brilhava intensamente sobre a Cidade Maravilhosa. Duda chegou ao Café Paris com alguns minutos de antecedência, o coração martelando no peito. O local, um refúgio charmoso com mesas ao ar livre e vista para o mar, parecia um cenário adequado para um diálogo delicado. Ela pediu um café e se sentou em uma mesa mais afastada, observando o movimento.

Quando Ricardo chegou, Duda sentiu um nó na garganta. Ele estava ainda mais elegante do que ela se lembrava, mas havia algo em seu olhar que denotava cansaço, talvez até apreensão. Ele a cumprimentou com um sorriso contido e se sentou à sua frente.

"Obrigado por vir, Duda", disse ele, a voz embargada.

"Eu precisava entender, Ricardo. E precisava tentar colocar um ponto final nessa história." Duda o encarou, buscando firmeza em seu olhar.

O silêncio se estendeu por alguns instantes, preenchido apenas pelo som das ondas e das conversas alheias. Ricardo parecia reunir coragem para falar.

"Duda, eu sei que não há desculpas para o que eu fiz. Fugir, desaparecer… foi o pior erro da minha vida. Eu fui um covarde. E uma pessoa egoísta." Ele fez uma pausa, os olhos marejados. "Na época, eu estava em um momento muito complicado da minha carreira. A pressão era enorme, os prazos absurdos. E eu senti que não estava dando conta. E você… você era a luz na minha vida, a minha paz. E eu tive medo. Medo de te decepcionar, medo de estragar tudo. Eu pensei que um tempo, um espaço, me ajudaria a clarear as ideias. Mas acabei piorando tudo."

Duda ouvia atentamente, o peito apertado. Era a primeira vez que ele admitia o medo como motivo.

"Eu nunca deixei de te amar, Duda. Mesmo quando fui embora. A sua imagem, o seu sorriso, as nossas conversas… tudo isso me acompanhou. E me fez perceber o quanto eu fui estúpido ao te perder." Ele olhou para o mar, a melancolia em seus olhos era palpável. "Eu vi sua exposição. Fiquei impressionado, Duda. Você é uma artista incrível. Eu sempre soube disso, mas ver o seu trabalho ganhando o mundo… me fez ter orgulho de ter feito parte da sua história, mesmo que por pouco tempo."

As palavras dele soavam sinceras, mas a sombra do passado ainda era muito forte. Duda sentia um conflito interno. A mágoa ainda existia, mas a admiração pelo seu progresso como artista e a confissão dele começavam a abrir espaço para uma outra emoção: a compaixão.

"Ricardo, o que você fez me machucou profundamente. Levou muito tempo para eu conseguir me reerguer, para encontrar a minha própria força, a minha inspiração. A sua partida quase me destruiu." A voz de Duda tremia, mas ela continuou. "Eu construí uma vida nova, uma carreira sólida. E, sinceramente, não sei se tenho espaço para o passado em meu presente."

"Eu entendo", disse Ricardo, a voz baixa. "Eu não espero que você me perdoe do dia para a noite. Nem que voltemos a ser o que éramos. Eu só precisava que você soubesse a verdade. E que eu sinto muito. Muito mesmo." Ele estendeu a mão sobre a mesa, um convite silencioso.

Duda hesitou por um instante. Olhou para a mão dele, depois para seus olhos. E, com um suspiro profundo, estendeu a sua. O toque foi breve, um contato fugaz que, no entanto, pareceu selar um momento crucial.

"Eu aceito suas desculpas, Ricardo. Mas o que aconteceu, aconteceu. E não podemos voltar atrás." Duda sentiu um alívio imenso ao proferir aquelas palavras. Era como se um peso tivesse sido retirado de seus ombros.

"Eu sei. E eu te desejo toda a felicidade do mundo, Duda. De verdade." Ricardo sorriu, um sorriso genuíno, desprovido de qualquer artifício. "Você merece tudo isso e muito mais."

Eles continuaram conversando por mais um tempo, sobre arte, sobre a vida, sobre as mudanças que o tempo trouxe. A conversa não foi fácil, mas foi libertadora. A sombra do passado, que por tanto tempo pairou sobre Duda, começou a se dissipar, dando lugar a uma nova luz.

Ao se despedirem, Duda sentiu uma leveza que não experimentava há um ano. Aquele encontro, embora carregado de emoções, havia sido o ponto final que ela tanto buscava. Ela sabia que as cicatrizes ainda estariam ali, mas a ferida aberta, aquela que a impedia de seguir em frente, parecia finalmente ter começado a cicatrizar.

Ao caminhar pela orla, o sol poente pintava o céu com tons alaranjados e rosados, um espetáculo de cores que espelhava a serenidade que começava a florescer em seu coração. A obra de arte mais importante que ela estava criando, naquele momento, era a sua própria vida. E as cores que ela escolhia para pintá-la eram as da esperança, da resiliência e de um futuro que, finalmente, parecia promissor. A sombra do passado havia sido confrontada, e a luz do presente guiava seus passos.

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