Cap. 11 / 21

O Último Beijo

O Último Beijo

por Camila Costa

O Último Beijo

Por Camila Costa

Capítulo 11 — O Segredo Revelado e a Tempestade que Se Forma

O sol da manhã, tímido ainda, espreitava por entre as cortinas de seda do quarto, pintando listras douradas no tapete persa. Aurora abriu os olhos devagar, a lembrança da noite anterior ainda um turbilhão de emoções em sua mente. O abraço de Rafael, as palavras de perdão sussurradas ao pé do ouvido, o beijo que selou a reconciliação – tudo parecia um sonho doce e ao mesmo tempo carregado de uma urgência que a inquietava. Sentou-se na cama, o tecido macio deslizando em sua pele nua, e olhou para o lado. Rafael dormia serenamente, o rosto relaxado, os láus cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro. Um suspiro escapou de seus lábios. Estava de volta à sua vida, ao seu amor, mas a sombra do segredo de sua origem pairava, pesada e sombria.

Na noite anterior, após a intensa conversa que os uniu novamente, Rafael havia lhe contado sobre a fortuna herdada, sobre os planos para o futuro que incluíam um casamento e filhos, sobre a casa na serra que seria o refúgio perfeito para os dois. Cada palavra era um bálsamo para a alma ferida de Aurora, uma promessa de um futuro que ela temia nunca ter. Mas algo o incomodava. Havia uma hesitação em seus olhos quando falava sobre o passado de sua família, um silêncio que ela não conseguia decifrar.

Ela se levantou, vestiu um roupão de seda e caminhou até a janela. A vista da cidade ainda adormecida era um convite à reflexão. A vida que ela levava até então, fugindo, escondendo-se, parecia cada vez mais distante. Agora, com Rafael ao seu lado, ela sentia a força para enfrentar qualquer coisa. Mas o medo ainda roía suas entranhas. Se Rafael descobrisse a verdade sobre quem ela era, sobre o sangue que corria em suas veias, sobre o que seus pais representavam… Seria o amor dele forte o suficiente para superar tudo isso? Ou a verdade a separaria para sempre?

Desceu as escadas em silêncio, o perfume de café fresco pairando no ar. Na cozinha, Dona Clara, com seu sorriso acolhedor, preparava o café da manhã.

“Bom dia, meu amor”, disse Dona Clara, os olhos brilhando de ternura. “Durmiu bem?”

Aurora sorriu, um sorriso um tanto forçado. “Sim, Dona Clara. Obrigada.”

Sentou-se à mesa, o aroma do pão quente e do café invadindo seus sentidos. Mas sua mente estava em outro lugar. Ela sabia que precisava contar a Rafael. Não podia mais guardar aquele segredo. Era uma bomba-relógio, e quanto mais tempo esperasse, maior seria a explosão.

Rafael apareceu na cozinha minutos depois, o semblante ainda sonolento, mas com um brilho nos olhos que só ela sabia despertar. Ele a abraçou por trás, depositando um beijo em seu pescoço.

“Bom dia, meu amor”, murmurou, a voz rouca de sono. “Que bom acordar ao seu lado.”

Aurora se virou em seus braços, o coração batendo descompassado. “Bom dia, Rafael.”

Ele a puxou para um abraço apertado, e por um momento, ela se permitiu esquecer de tudo. Mas a urgência ainda estava ali, pulsando em seu peito.

“Rafael”, ela começou, a voz trêmula. Ele a olhou, a preocupação estampada em seu rosto. “Precisamos conversar.”

Ele a conduziu até a sala de estar, sentando-se no sofá de veludo e puxando-a para seu colo.

“O que aconteceu, Aurora? Você parece preocupada.”

Ela respirou fundo, as mãos apertando as dele. “Eu… eu tenho algo para te contar. Algo muito importante. Algo que eu deveria ter te contado desde o início.”

Rafael a olhou nos olhos, a serenidade que emanava dele transmitindo confiança. “Pode me contar tudo, Aurora. Eu estou aqui para você.”

E assim, sob o olhar atento do sol que agora brilhava com mais intensidade, Aurora começou a desdobrar o véu de seu passado. Contou sobre a família que a criou, sobre a educação que recebeu, sobre o medo que sempre a acompanhou. E então, com a voz embargada pelas lágrimas, revelou a verdade sobre seus pais biológicos.

“Meus pais… eles eram… eles eram envolvidos com coisas muito perigosas, Rafael. Coisas ilegais. Eles morreram quando eu era muito pequena, e eu fui dada para uma família que me criou em segredo, com medo que alguém viesse me buscar. Eu nunca soube detalhes, apenas que era perigoso demais para eu me lembrar ou para qualquer um saber.”

Rafael ouviu em silêncio, o rosto impassível. Aurora sentiu o sangue gelar em suas veias. O medo de sua reação a consumia.

“Eu sei que isso pode mudar tudo, Rafael. Eu entendo se você não quiser mais…”

Ele a interrompeu, levantando o rosto dela com os dedos. Seus olhos, antes calmos, agora continham uma profundidade de dor e algo mais… um reconhecimento sombrio.

“Aurora”, ele disse, a voz grave e tensa. “Você acha que eu sou um tolo? Acha que eu não sabia que havia algo em seu passado? A forma como você se escondia, o medo em seus olhos quando falávamos sobre família…” Ele fez uma pausa, o olhar perdido em algum ponto distante. “Eu sempre senti que havia mais do que você me contava.”

Ele se levantou de repente, o corpo tenso como um arco. Começou a andar pela sala, as mãos nos cabelos, a testa franzida. Aurora o observava, o coração batendo em um ritmo frenético.

“Mas você… você não me contou a parte mais importante. Você não me contou sobre quem eram seus pais.” Ele parou de andar e a encarou, os olhos faiscando de uma fúria contida. “Quem eram eles, Aurora? Diga-me!”

Aurora recuou, assustada com a intensidade de sua reação. “Eu… eu não sei os nomes exatos, Rafael. Apenas que eram… pessoas influentes, mas do lado errado. Eu fui criada para esquecer, para não saber de nada.”

Rafael deu uma risada amarga. “Pessoas influentes do lado errado? Aurora, você acha que isso é um conto de fadas? Que se pode simplesmente apagar o passado de alguém?” Ele se aproximou dela, a voz baixa e perigosa. “Eu conheço esse mundo, Aurora. Eu vivo nele. E o seu passado, por mais que você tente fugir dele, ele pode vir te buscar a qualquer momento.”

O clima na sala mudou drasticamente. A ternura da manhã se dissipou, dando lugar a uma tensão palpável. Aurora sentiu um nó na garganta, o medo se intensificando. Aquele não era o Rafael que a abraçava e prometia um futuro. Era um estranho, com um olhar que ela nunca tinha visto antes.

“Rafael, por favor… eu não sei de nada. Eu juro!”

“Você tem que saber de alguma coisa!”, ele sibilou, a voz saindo rouca. “Essa história de que foi ‘dada’ para uma família… quem a levou? Quem a escondeu? Quem pagou por isso?”

“Eu não sei!”, Aurora exclamou, as lágrimas começando a rolar por seu rosto. “Eu era apenas uma criança!”

Rafael afastou-se bruscamente, indo até a janela e olhando para a cidade com o semblante sombrio. O silêncio na sala era ensurdecedor, apenas quebrado pelos soluços contidos de Aurora. Ela se sentiu completamente perdida. O amor que ela acreditava ter sido reavivado parecia agora frágil, ameaçado por uma verdade que ela não conseguia controlar.

Ele se virou novamente, o olhar mais controlado, mas ainda carregado de uma urgência que a assustava. “Aurora, se o que você diz é verdade, e você realmente não sabe nada sobre seus pais, então estamos em um perigo maior do que imaginávamos. Esse tipo de gente… eles não deixam pontas soltas. Se você é filha deles, pode haver pessoas procurando por você. Pessoas que não te querem ver viva, ou que querem algo que venha de você.”

Ele caminhou até ela e a segurou pelos ombros, o toque firme, mas não violento. “Eu te amo, Aurora. E farei tudo para te proteger. Mas você precisa confiar em mim e me contar tudo o que sabe, mesmo que pareça insignificante. Precisamos entender quem eram seus pais e por que eles te deixaram para trás. Porque, meu amor, a sua vida está em perigo. E, com isso, a minha também.”

Aurora olhou para ele, o amor em seus olhos misturado com um medo profundo. A tempestade havia chegado, não lá fora, mas dentro de sua própria casa, dentro de seu próprio coração. A revelação de seu passado não trouxe alívio, mas sim o prenúncio de perigos que ela jamais imaginara. O último beijo havia selado uma promessa de futuro, mas agora, esse futuro estava obscurecido pelas sombras de um passado que se recusava a ser esquecido. A encruzilhada que ela pensava ter atravessado a levava a um caminho ainda mais sombrio e incerto.

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