Cap. 16 / 21

O Último Beijo

O Último Beijo

por Camila Costa

O Último Beijo

Capítulo 16 — O Silêncio Que Grita e a Promessa Quebrada

O ar no quarto de hospital era pesado, denso com o cheiro de antisséptico e um pesar que parecia impregnado nas próprias paredes. Helena, com os olhos fundos e marcados pela insônia, observava o corpo inerte de Ricardo na cama. Cada respiração dele, um leve movimento do peito sob os lençóis brancos, era um alívio tênue que se misturava a um medo ancestral. Depois de tudo o que haviam passado, da descoberta chocante de que o homem que ela amava era um dos executores do plano que arruinou sua família, e do confronto brutal que se seguiu no Ninho, a fragilidade dele era um espelho da dela. O Ninho, que deveria ser um símbolo de poder, se tornara um mausoléu de segredos expostos e traições inimagináveis.

O silêncio era ensurdecedor. Helena sentia-se afogada nele. Parecia que o mundo, lá fora, continuava a girar – carros buzinavam, pessoas riam, a vida insistia em seguir em frente – mas ali, naquele quarto, o tempo parecia ter parado, suspenso em um fio tênue de esperança e desespero. As palavras de Ricardo, ditas em um sussurro rouco, ainda ecoavam em sua mente: "Eu nunca quis isso, Helena. Nunca… foi um erro… um erro terrível." Mas como acreditar? Como apagar as imagens das provas que Daniel lhe mostrara? As contas bancárias secretas, os acordos macabros, a forma fria como ele descrevera a ruína dos pais dela como um "dano colateral necessário".

Uma enfermeira entrou silenciosamente, sorriu de leve para Helena e checou os sinais vitais de Ricardo. O beep constante do monitor cardíaco era a única trilha sonora naquele momento. Helena se levantou, sentindo as pernas tremerem. Precisava de ar, de um espaço onde pudesse respirar sem sentir o peso de tantas mentiras e de um amor tão dilacerado.

Caminhou pelos corredores frios do hospital, a mente em um turbilhão. A revelação do legado de seu pai, a verdade sobre o Ninho, a sua própria identidade como herdeira involuntária de uma fortuna construída sobre desgraças alheias… tudo isso a atingira como um vendaval. E Ricardo, o centro de sua obsessão, o homem que ela acreditava conhecer, era a peça chave naquele quebra-cabeça sombrio.

Ao sair para o pequeno jardim do hospital, a brisa fresca da noite a atingiu, um alívio bem-vindo. Sentou-se em um banco de metal frio, observando as estrelas que pontilhavam o céu escuro. Lembrava-se de tantas noites assim, debaixo de um céu estrelado com Ricardo, quando tudo parecia simples, puro. Eram aqueles momentos que a faziam questionar tudo o que Daniel lhe apresentara. A possibilidade de estar sendo manipulada, de ter sido levada a acreditar em uma versão distorcida da realidade, era tão assustadora quanto a própria traição.

Daniel. O nome dela vibrava em sua mente. Ele era a prova, a razão, a voz da verdade. Mas a voz de Ricardo, rouca e carregada de angústia, também a assombrava. "Eu te amei mais do que a mim mesmo, Helena." Uma mentira? Ou a verdade desesperada de um homem preso em uma teia que ele mesmo ajudou a tecer?

Uma sombra se aproximou. Helena ergueu os olhos, o coração disparado. Era Daniel. Ele a observava de pé, a poucos metros de distância, com um semblante grave e uma aura de determinação implacável.

"Você não deveria estar aqui sozinha", disse ele, a voz baixa e controlada. "Ele é perigoso, Helena. E as pessoas que ele representa ainda mais."

Helena se encolheu um pouco, mas sua voz saiu firme. "Eu o amo, Daniel. E ele… ele disse que foi um erro."

Daniel deu um passo à frente, o rosto contraído em uma mistura de compaixão e impaciência. "Um erro? Ele destruiu sua família, Helena. Ele permitiu que o fizessem. E você quer acreditar em um 'erro' agora que ele está indefeso?"

"E você? Você me mostrou provas, me contou histórias. Mas qual a sua verdade, Daniel? O que você ganha com tudo isso?" As palavras saíram com uma amargura que surpreendeu até a si mesma.

Daniel suspirou, passou a mão pelos cabelos. "Eu ganho a chance de ver a justiça ser feita. Ganho a esperança de que você possa ter uma vida livre das sombras que eles criaram. E, sim, Helena, ganho a chance de… de estar perto de você. De te proteger."

Helena riu, um riso seco e sem alegria. "Proteger? Você me trouxe para um mundo de mentiras e perigo. E agora quer se apresentar como meu guardião?"

"Eu estou tentando te salvar", insistiu Daniel, a voz mais intensa. "Salvando você dele. Salvando você desse legado tóxico."

"Você fala de legado tóxico como se o seu fosse puro. E o que sobre o Ninho? O que você queria lá? O que você buscava além da minha proteção?"

Daniel hesitou por um instante. "O controle. O controle sobre o que foi tirado de mim, sobre o que foi roubado de todos nós. E sobre você."

A confissão inesperada a desarmou por um momento. "Sobre mim?"

"Sim, sobre você", disse ele, os olhos fixos nos dela. "Sempre foi sobre você, Helena. Desde o primeiro dia."

O peso daquelas palavras a atingiu de forma diferente. Não era o veneno da traição, mas algo mais complexo, uma mistura de obsessão, desejo e… talvez, um amor distorcido.

"Ricardo está ferido, Daniel. Ele pode morrer. E se ele morrer, eu nunca saberei a verdade completa. Nunca saberei se ele realmente me amou."

"Ele te usou, Helena. Para chegar a algo. Para se proteger. Para continuar o jogo dele."

Helena se levantou, sentindo uma força renovada, nascida da confusão e da necessidade de entender. "Eu preciso ver, Daniel. Preciso ir. Preciso saber."

"Saber o quê? Se ele te amou? Ou se você foi apenas um peão? Não se engane, Helena. O jogo acabou. E você está no lado errado."

Ela o encarou, os olhos brilhando com uma determinação recém-descoberta. "Eu não sei de qual lado estou, Daniel. Mas sei que não posso ficar parada, esperando que as verdades caiam do céu. Eu preciso encontrá-las. E se for preciso enfrentar Ricardo de novo, mesmo assim… eu vou."

Ela deu as costas a Daniel e voltou para dentro do hospital. A imagem dele, parado no jardim sob a luz fraca, a observando com um misto de desespero e anseio, ficou gravada em sua mente. A promessa de Ricardo, se é que fora uma promessa, estava quebrada. A promessa de amor, de sinceridade, de um futuro juntos. E agora, ela se via diante de um novo dilema, um labirinto de verdades e mentiras, onde cada passo poderia levá-la ainda mais fundo no abismo.

O silêncio no quarto de Ricardo parecia gritar agora. E Helena, no centro desse grito, sentia a promessa quebrada de seu coração ecoar mais alto que qualquer outra coisa. Ela olhou para ele, para o rosto pálido e imóvel, e soube que a jornada para descobrir a verdade, para reconstruir a si mesma, estava apenas começando. E seria uma jornada solitária, pelo menos por enquanto.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%