O Último Beijo
Capítulo 5 — A Semente da Dívida e a Sombra de Rodrigo
por Camila Costa
Capítulo 5 — A Semente da Dívida e a Sombra de Rodrigo
O romance entre Clara e Gabriel floresceu na Fazenda Vale Verde com a mesma intensidade com que as plantas de café brotavam em busca do sol. Os dias eram preenchidos pelo trabalho árduo, pela troca de ideias visionárias e por momentos de intimidade que aqueciam seus corações. As fotografias de Gabriel ganhavam vida nas redes sociais e nos primeiros folhetos promocionais, atraindo a atenção de um público curioso e sedento por experiências autênticas. A fazenda, antes um símbolo de estagnação, pulsava com uma nova energia.
A casa sede, outrora em ruínas, ganhava contornos de um charmoso refúgio rural, com Clara supervisionando cada detalhe da reforma. As paredes ganhavam cores suaves, os móveis antigos eram restaurados com carinho, e os quartos, modestos, mas aconchegantes, prometiam noites tranquilas sob o céu estrelado. A área de degustação, com vista para os cafezais, tornava-se um convite irresistível para apreciar o fruto do trabalho.
"Imagine, Gabriel, quando os primeiros hóspedes chegarem. Eles poderão caminhar pelos cafezais ao amanhecer, aprender sobre o processo de cultivo, e, claro, saborear o nosso café especial. Um café com história, com alma", Clara dizia, os olhos brilhando de entusiasmo enquanto folheava um catálogo de decoração.
Gabriel, que estava sentado em um canto da sala, registrando com sua câmera a transformação daquele espaço, sorriu. "E suas fotos contarão essa história, Clara. Cada clique será uma porta para o mundo que você está criando aqui. Um mundo de paz, de beleza e de autenticidade."
A parceria entre eles, tanto profissional quanto pessoal, parecia inabalável. No entanto, a sombra da dívida, que eles tentavam afastar com tanto afinco, pairava como uma nuvem escura em um dia ensolarado. Os primeiros lucros da linha de cafés especiais eram promissores, mas insuficientes para cobrir os custos da reforma e os juros acumulados.
"Seu Antônio, o banco ligou novamente. Eles querem uma reunião para discutir o plano de pagamento. Parece que as projeções que apresentei não foram suficientes para convencê-los", Clara disse, a voz tensa, enquanto atendia o telefone.
Seu Antônio suspirou, o semblante preocupado. "Dona Clara, eu sei que o senhor Rodrigo garantiu que ajudaria com essa questão. Não tivemos notícias dele há semanas."
A menção a Rodrigo fez Clara sentir um aperto no peito. Ela sabia que a ajuda dele era essencial, mas a relutância em buscá-la a consumia. Rodrigo, com seu jeito calculista e sua aparente indiferença ao legado familiar, sempre fora um ponto de atrito.
"Eu vou falar com ele, Seu Antônio. Precisamos resolver isso. Talvez… talvez ele tenha uma ideia, ou pelo menos possa nos dar um respiro com os pagamentos", Clara disse, embora sem muita convicção.
Naquela noite, Clara ligou para Rodrigo. A conversa foi curta e fria.
"Rodrigo, preciso falar com você sobre a fazenda. O banco está pressionando e…", Clara começou.
"Clara, você sabe que estou ocupado com meus negócios em São Paulo. E você sabe o que eu disse: o melhor a fazer é vender. A fazenda está afundando, e vocês estão gastando dinheiro em reformas desnecessárias. Não posso ajudar em nada que não envolva uma liquidação rápida", a voz de Rodrigo era fria e distante.
"Mas nós estamos fazendo o café especial, Rodrigo! As vendas estão crescendo, as pessoas estão interessadas! Estamos mudando a história da fazenda!", Clara insistiu, a voz embargada pela frustração.
"História não paga dívidas, Clara. E, francamente, eu já recebi a minha parte. O que acontecerá com a fazenda agora não é mais problema meu", ele disse, com uma finalidade que a deixou sem palavras.
Desligou o telefone, sentindo um nó na garganta. O peso da responsabilidade, antes compartilhado com a esperança de um futuro, agora parecia esmagador. Gabriel a encontrou sentada na varanda da casa sede, observando a lua prateada que banhava os cafezais.
"O que aconteceu?", ele perguntou, sentando-se ao lado dela e envolvendo-a em seus braços.
Clara contou sobre a conversa com Rodrigo, as palavras duras e a indiferença dele. Gabriel a ouviu com atenção, acariciando seus cabelos.
"Não se culpe, Clara", ele disse. "Você está fazendo tudo o que pode. E o seu trabalho aqui já é uma vitória. A fazenda está renascendo graças a você. Rodrigo é que não consegue ver o valor disso."
"Mas e as dívidas, Gabriel? E os juros? Não podemos continuar assim para sempre", Clara sussurrou, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
"Eu sei. E eu tenho uma ideia", Gabriel disse, afastando-se um pouco para olhá-la nos olhos. "As minhas fotos estão ganhando destaque. Um grande editor de Nova York se interessou pela série sobre a Fazenda Vale Verde. Ele quer fazer uma exposição. E… ele mencionou que está interessado em investir em projetos que ele acha que têm potencial. Talvez, se mostrarmos a ele o nosso trabalho, a nossa visão… ele possa se interessar em investir na fazenda, em troca de uma participação ou de um acordo que nos dê fôlego."
A proposta de Gabriel era audaciosa, mas Clara sentiu um fio de esperança se reacender. A visão de Gabriel, a sua capacidade de enxergar o potencial onde outros viam apenas problemas, era um presente.
"Você acha que daria certo?", Clara perguntou, a voz hesitante.
"Não sei. Mas é uma chance. Uma chance de mostrar ao mundo a beleza e o valor da Vale Verde. E, quem sabe, de dar um basta nas ameaças do banco e na ganância do seu irmão", Gabriel respondeu, sua voz firme e cheia de convicção.
Naquela noite, eles trabalharam juntos, selecionando as melhores fotografias, escrevendo a história da fazenda, traçando um plano de negócios detalhado para apresentar ao editor. A paixão que os unia se refletia no empenho que dedicavam àquele projeto.
No dia seguinte, o ar na fazenda estava carregado de uma tensão diferente. Não era mais a apreensão da dívida, mas a expectativa de um novo capítulo. Um capítulo que poderia selar o destino da Fazenda Vale Verde, e, quem sabe, o futuro de Clara e Gabriel. A semente da dívida ainda estava ali, mas a esperança, plantada e regada com paixão e trabalho, começava a brotar, forte e resiliente, sob o olhar atento do homem que, como um pássaro migratório, encontrara nas terras da Vale Verde um lar e um amor.
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