Cap. 7 / 21

O Último Beijo

Capítulo 7 — O Eco do Passado e a Sombra na Porta

por Camila Costa

Capítulo 7 — O Eco do Passado e a Sombra na Porta

Os dias que se seguiram à festa da colheita foram marcados por uma leveza incomum na Fazenda das Acácias. Helena se sentia mais integrada, mais feliz. A rotina do campo, antes desconhecida, agora era um convite à descoberta. Ela se dedicava a aprender sobre o processo de secagem e beneficiamento do café, fascinada pela transformação dos grãos. Miguel, por sua vez, parecia mais leve também, mais aberto a compartilhar seus pensamentos e sentimentos. A cada dia, a relação entre eles se aprofundava, tecida com fios de cumplicidade, admiração e um romance incipiente, tingido pela beleza do cenário rural.

No entanto, a paz que pairava sobre a fazenda era frágil, como uma flor delicada exposta a uma ventania súbita. Na manhã de uma terça-feira ensolarada, enquanto Helena e Miguel inspecionavam um novo lote de grãos secos, um carro preto e reluzente, destoando completamente do ambiente rústico da fazenda, surgiu pela estrada de terra. O veículo parou em frente à sede, levantando uma nuvem de poeira que pairou no ar como um prenúncio.

Do carro, desceu uma figura que fez o estômago de Helena revirar. Rodrigo. Ele estava impecavelmente vestido, como sempre, mas seu semblante era sombrio, carregado de uma tensão que ele raramente demonstrava. Ao seu lado, uma mulher elegante, de cabelos escuros e um olhar penetrante, observava o cenário com uma frieza calculista. Helena não a reconheceu.

Miguel, ao lado de Helena, sentiu a atmosfera mudar. A leveza deu lugar a uma tensão palpável. Ele sabia que a paz poderia ser perturbada a qualquer momento, mas não esperava que fosse por Rodrigo. "O que ele está fazendo aqui?", Miguel murmurou, um tom de desconfiança em sua voz.

Rodrigo se aproximou, seus olhos fixos em Helena, ignorando completamente Miguel. "Helena. Finalmente te encontrei." Sua voz era fria, sem qualquer traço do desespero que ele apresentara na noite em que a encontrara na rua do Mucugê.

Helena deu um passo à frente, tentando manter a compostura. "Rodrigo. O que você quer?"

Ele deu um sorriso irônico, que não alcançava seus olhos. "Vim ver a minha noiva. Ou seria ex-noiva? As coisas estão um pouco confusas para mim ultimamente." Ele finalmente olhou para Miguel, um olhar de desprezo atravessando o rosto. "E quem é o seu novo… protetor, Helena?"

Antes que Helena pudesse responder, a mulher ao lado de Rodrigo deu um passo à frente. "Prazer, sou Isabella. Sócio de Rodrigo em alguns empreendimentos. E, aparentemente, uma nova… amiga de Helena." A forma como ela pronunciou "amiga" soou carregada de sarcasmo.

Helena sentiu um arrepio. Isabella era a personificação da sofisticação fria, e seus olhos pareciam vasculhar cada detalhe da fazenda, como se estivesse avaliando um investimento.

Miguel deu um passo à frente, posicionando-se sutilmente entre Helena e Rodrigo. "Eu sou Miguel, o proprietário desta fazenda. E Helena está sob a minha proteção."

Rodrigo riu, um som seco e desagradável. "Proteção? Que fofo. Mas Helena tem obrigações comigo, não é mesmo, querida?" Ele olhou para Helena, esperando uma resposta.

Helena sentiu uma onda de raiva subir. A arrogância dele, a forma como a tratava como um objeto, como se ainda tivesse algum direito sobre ela. "Eu não tenho mais obrigações com você, Rodrigo. E não sou mais sua noiva."

"Ah, mas é aqui que você se engana", Rodrigo disse, um brilho perigoso nos olhos. "Aquela dívida que eu mencionei? Ela não é só minha. Ela tem um garantidor. E adivinha quem é o garantidor, Helena?"

O sangue de Helena gelou. Ela sabia onde isso ia dar. "Não, Rodrigo. Você não pode estar falando sério."

"Eu estou falando muito sério. Para que você possa ter o seu 'recomeço' tranquilo, eu precisei dar algo em garantia. E você, minha querida, é a minha garantia."

Isabella sorriu, um sorriso vitorioso. "Rodrigo é um homem de palavra, Helena. Ele sempre cumpre o que promete. E ele prometeu quitar as suas dívidas. Ou, pelo menos, tentar."

Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. A sombra da dívida, que ela pensava ter deixado para trás, voltava com força total, ameaçando engolir a paz que ela tanto lutara para encontrar. Ela olhou para Miguel, vendo a preocupação em seus olhos, mas também uma determinação que a acalmou um pouco.

"Isso é chantagem, Rodrigo", Miguel disse, sua voz firme. "Você não pode obrigá-la a nada."

"Oh, posso sim", Rodrigo rebateu, com um tom de superioridade. "E a lei está do meu lado. A escritura da fazenda, por exemplo, que você herdou do seu pai, Miguel… está em risco, não está? Se a dívida não for paga, os credores podem tomar tudo. E eu não quero que isso aconteça com a sua amada fazenda, ou com você, Helena."

O golpe foi certeiro. Rodrigo sabia exatamente onde ferir. A Fazenda das Acácias, aquele refúgio que se tornara o lar de Helena, que Miguel amava com todo o seu ser.

Isabella observou a cena com um interesse quase doentio. "Rodrigo tem um plano, Helena. Um plano que pode nos beneficiar a todos. Você volta para ele, e a dívida é quitada. A fazenda fica segura. E todos vivem felizes para sempre. Ou quase."

Helena sentiu um nó na garganta. A ideia de voltar para Rodrigo, de se casar com ele, era insuportável. Mas a ameaça à fazenda, à fonte de sustento de tantas famílias, e à paz de Miguel, era ainda pior.

"Você está louco, Rodrigo!", Helena exclamou, a voz embargada pela emoção. "Você me destruiu uma vez, não vai destruir de novo!"

"Não estou louco, Helena. Estou apenas… calculista", Rodrigo disse, com um sorriso cruel. "Você tem 24 horas para me dar uma resposta. Pense bem. Sua liberdade, a paz de Miguel e o futuro desta fazenda estão em suas mãos. E eu não vou esperar para sempre."

Ele se virou, com Isabella a tiracolo, e retornou para o carro. A porta bateu com força, e o veículo partiu, deixando para trás uma trilha de poeira e um rastro de desespero.

Helena ficou parada, tremendo. A voz de Rodrigo, as palavras de Isabella, a ameaça à fazenda… tudo parecia ter congelado o tempo.

Miguel a abraçou, sentindo o corpo dela tremer. "Helena, não se preocupe. Vamos encontrar uma solução."

Ela se afastou, o desespero tomando conta. "Uma solução? Ele quer me forçar a casar com ele, Miguel! Ele está usando a sua fazenda como moeda de troca!"

"Ele não vai conseguir", Miguel disse, com uma determinação que fez Helena olhar para ele. "Eu não vou permitir."

Mas Helena via a preocupação nos olhos dele, a sombra de uma dúvida que ela conhecia bem. Ela sabia o quanto aquela fazenda significava para ele. E Rodrigo, com sua crueldade calculista, sabia exatamente como usar isso contra eles.

A paz que a Fazenda das Acácias oferecia havia sido brutalmente quebrada. O eco do passado, com suas dívidas e promessas quebradas, voltara para assombrá-la, e a sombra de Rodrigo pairava, ameaçadora, sobre a porta que um dia foi de esperança.

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