A Esposa do Magnata
Capítulo 12 — O Eco das Memórias
por Isabela Santos
Capítulo 12 — O Eco das Memórias
O aroma de café fresco e pão quente preenchia a cozinha espaçosa, um contraste reconfortante com as turbulências internas de Helena. Ela estava sentada à mesa de mármore, observando a governanta, Dona Lurdes, movimentar-se com agilidade, organizando os talheres e arrumando as flores em um vaso. A vida na mansão de Ricardo era uma sucessão de luxos e cuidados, uma rotina que, para qualquer outra mulher, seria um sonho. Mas para Helena, cada detalhe parecia um lembrete constante da sua situação precária, da sua dependência.
Após a conversa com Ricardo na varanda, uma nova camada de complexidade se adicionara ao seu já confuso estado de espírito. A promessa de proteção dele, por um lado, trazia um alívio genuíno. A ideia de ver aqueles que a haviam humilhado e arruinado sofrerem, de alguma forma, trazia uma satisfação sombria. Mas por outro lado, a frieza com que ele falava de vingança a assustava. Ricardo não era um homem de meio-termo; ele era tudo ou nada. E ela temia ser consumida por essa intensidade dele.
Ricardo não apareceu para o café da manhã. Ele já havia saído para seus compromissos, deixando-a novamente sozinha com seus pensamentos. Ela sabia que ele estava trabalhando em algo grande, algo que envolvia seus negócios e, possivelmente, a questão de quem a prejudicara. A ansiedade roía suas entranhas. Ela queria confiar nele, queria acreditar que ele a protegeria, mas a sombra de seu passado, a lembrança do seu ex-marido, Miguel, a atormentava.
Miguel. O nome era um veneno em sua boca. Ele a tirara de tudo, a deixara sem nada, e a humilhara publicamente. A confiança que ela depositara nele se transformara em um poço de dor e decepção. E agora, Helena se via envolta em uma nova teia, tecida por outro homem poderoso e enigmático. Seria Ricardo apenas uma versão mais perigosa de Miguel?
"Senhorita Helena," Dona Lurdes chamou suavemente, trazendo uma travessa fumegante de ovos mexidos. "O senhor Ricardo disse que a senhora gosta deles bem cremosos."
Helena forçou um sorriso. "Obrigada, Dona Lurdes. Você é muito gentil."
A governanta sorriu de volta, um sorriso caloroso e genuíno que parecia vir de outra época, de um tempo mais simples. "É uma honra servir a senhora, minha querida. O senhor Ricardo sempre foi um homem de palavra. Quando ele decide algo, ele cumpre."
As palavras de Dona Lurdes eram como um bálsamo, mas também como uma faísca que acendia um novo medo. Se Ricardo era tão decidido, tão implacável, o que aconteceria se ele descobrisse que ela estava se apegando a ele de uma forma que não deveria? E se ele a visse não como uma aliada, mas como um obstáculo?
Enquanto comia, Helena decidiu que precisava fazer algo. Não podia ficar ali, esperando que o passado a alcançasse ou que Ricardo decidisse seu destino. Ela precisava de suas próprias respostas. Ela precisava entender o que havia acontecido com seus negócios, com sua família. Ela precisava de justiça, mas não da forma calculista de Ricardo. Ela precisava de um encerramento, um recomeço de verdade.
Após o café da manhã, Helena subiu para o escritório de Ricardo, um cômodo imponente com paredes revestidas de madeira escura e uma vista panorâmica da propriedade. Era o centro do império dele, o lugar onde as decisões que moldavam o mundo dos negócios eram tomadas. Ela se sentou na poltrona macia de couro, sentindo a aura de poder que emanava do lugar.
Ela sabia que não deveria mexer nas coisas dele, mas a necessidade de saber era mais forte. Com as mãos trêmulas, ela abriu a gaveta da mesa de mogno. Havia papéis, contratos, e uma pasta com a inscrição "Projeto Fênix". A curiosidade a dominou. O que seria o Projeto Fênix?
Ao abrir a pasta, Helena se deparou com documentos relacionados à recuperação de empresas falidas. Havia fotos antigas de prédios industriais, relatórios financeiros detalhados e, para sua surpresa, fotos de sua própria antiga fábrica, a "Estrela Cadente". Um arrepio a percorreu. Ricardo estava envolvido em algo relacionado à sua antiga empresa?
Ela folheou os documentos com avidez, seu coração acelerando a cada nova descoberta. Havia indícios de uma manobra financeira complexa, de uma aquisição hostil que levara a Estrela Cadente à ruína. E, em meio a tudo aquilo, um nome se repetia com frequência: Miguel Alencar.
Miguel havia planejado tudo. Ele não apenas a traíra, mas também orquestrara a destruição do seu legado. E Ricardo, de alguma forma, estava investigando, talvez até planejando reverter o dano. Mas por quê? Por ela? Ou por seus próprios interesses?
De repente, a porta do escritório se abriu, e Ricardo entrou. Seus olhos escuros pousaram em Helena, sentada em sua cadeira, com a pasta aberta em seu colo. Um silêncio tenso pairou no ar.
"Helena," ele disse, a voz controlada, mas com uma corrente subterrânea de alerta. "O que você está fazendo?"
Ela sentiu o sangue gelar. Estava presa. "Eu… eu estava curiosa. Sobre o Projeto Fênix."
Ricardo se aproximou lentamente, o olhar fixo nela. Ele não parecia zangado, mas sim cauteloso. "Você não deveria ter mexido nas minhas coisas."
"Eu precisava saber, Ricardo," ela disse, a voz embargada. "Eu precisava entender. Você sabia sobre a Estrela Cadente? Sobre o Miguel?"
Ele parou em frente a ela, o olhar intenso. "Eu sabia que o Miguel te prejudicou. E sim, a Estrela Cadente está envolvida no meu projeto. Um projeto de restauração."
"Restauração? Ou vingança?" A pergunta escapou antes que ela pudesse contê-la.
Ricardo a observou por um longo momento, uma ruga se formando entre suas sobrancelhas. "Ambos, talvez. Mas, acima de tudo, justiça. E essa justiça, Helena, será para você."
Ele pegou a pasta de suas mãos com delicadeza e a colocou de volta na gaveta. "Eu não quero que você se preocupe com isso agora. Você está segura aqui. E seu passado… o meu tempo para cuidar dele está chegando."
Ele se ajoelhou diante dela, segurando suas mãos. "Eu sei que você tem medo. Medo de ser traída novamente. Mas eu não sou o Miguel. E eu não vou te decepcionar."
Helena olhou em seus olhos, buscando qualquer sinal de falsidade, mas encontrou apenas uma determinação inabalável. A verdade sobre o envolvimento dele com a sua antiga empresa, a confirmação de que Miguel era o arquiteto de sua ruína, tudo isso a abalou profundamente. As memórias do passado voltavam com força total, ecoando em sua mente como um lamento. Ela estava presa em um labirinto de segredos e planos, e cada passo que dava parecia levá-la mais fundo em um jogo que ela ainda não compreendia completamente. A segurança que Ricardo prometia era tentadora, mas o preço, ela temia, poderia ser a sua própria alma.