A Esposa do Magnata
A Esposa do Magnata
por Isabela Santos
A Esposa do Magnata
Capítulo 6 — O Encontro Inesperado
O ar da noite em São Paulo, outrora vibrante e carregado de promessas, agora pesava sobre os ombros de Sofia como um manto de chumbo. O barulho distante do trânsito, que normalmente a embalava em uma espécie de melancolia urbana, soava agora como um grito de alarme. Estava atrasada. Pior que isso, estava completamente fora de si. A imagem do rosto de Ricardo, tão sereno quanto cruel, se repetia em sua mente, turvando sua visão e turvando seu raciocínio. O acordo. A humilhação. As palavras de sua mãe, ecoando como profecias sombrias.
Ela dirigia sem rumo, as mãos apertando o volante com uma força que deixava os nós dos dedos brancos. Cada semáforo que se tornava vermelho era um espelho para a sua própria estagnação. Onde estava indo? Para o abismo? Aquele jantar, que deveria ser um passo para a reconstrução, parecia agora a porta de entrada para o inferno. Ela havia sonhado com ele, com a chance de, finalmente, ter um vislumbre de um futuro mais leve, longe das sombras que a perseguiam. Mas Ricardo parecia ter um talento especial para transformar qualquer luz em escuridão.
As luzes da cidade, que antes pareciam diamantes espalhados pelo veludo negro, agora se misturavam em borrões de dor. Sofia tentou respirar fundo, mas o ar parecia rarefeito. Sentiu os olhos arderem, mas se recusou a chorar. Chorar seria ceder. E ela não cederia. Não para ele. Não para as circunstâncias.
De repente, um clarão intenso a cegou por um instante. Um caminhão desgovernado, com os faróis em chamas, desviava bruscamente de um buraco na pista. Sofia virou o volante instintivamente, o coração disparado. Os pneus cantaram em um grito agonizante, e o carro rodopiou, derrapando na pista molhada pela garoa que começara a cair. O impacto não foi forte, um raspão na lateral, mas o susto foi avassalador. O carro parou inclinado, com um dos eixos fora da estrada. Sofia, em choque, soltou um suspiro trêmulo. Estava bem. Apenas assustada. E agora, mais presa do que nunca.
O motor do carro tossiu e morreu. O silêncio que se seguiu era ainda mais assustador que o barulho da colisão. Ela tentou dar a partida novamente, sem sucesso. Estava no meio do nada, em uma estrada secundária que levava a lugar nenhum, com o carro inutilizado. O pânico começou a rastejar por sua pele.
Foi então que as luzes de outro veículo surgiram na escuridão. Um carro de luxo, preto e imponente, parou a poucos metros dela. A porta se abriu e uma figura alta e elegante saiu. Sofia apertou os olhos, tentando distinguir o rosto sob a luz fraca.
"Posso ajudar?" A voz, profunda e melodiosa, soou como um bálsamo em meio ao seu desespero.
Quando a figura se aproximou, o coração de Sofia deu um salto. Era ele. O homem que povoava seus sonhos e seus pesadelos. Ricardo.
Ele a olhou, os olhos azuis penetrantes como sempre, mas com uma expressão de surpresa genuína. "Sofia? O que você está fazendo aqui? E com o carro nessa situação?"
Ela sentiu um misto de alívio e apreensão. Alívio por não estar sozinha, apreensão por estar à mercê dele novamente. "Ricardo... eu... tive um pequeno... imprevisto." Ela tentou soar calma, mas sua voz tremia.
Ricardo circulou o carro, avaliando os danos. Um sorriso irônico brincou em seus lábios. "Pequeno imprevisto? Parece mais um grande desastre." Ele a olhou nos olhos. "Você está machucada?"
"Não, estou bem. Apenas... assustada."
"É compreensível." Ele suspirou, o olhar varrendo a paisagem desolada. "Você está indo para algum lugar?"
Sofia hesitou. "Eu ia encontrar... alguém." Ela não conseguia dizer o nome dele.
Ricardo assentiu, como se já soubesse. O silêncio se instalou entre eles, pesado com a história não contada, com os sentimentos reprimidos. O vento frio chicoteava seus cabelos, e a garoa engrossava.
"Minha casa é perto daqui. Você pode vir comigo, se quiser. Podemos chamar um guincho pela manhã." A oferta, dita com uma neutralidade quase fria, era tentadora. O abrigo, o calor, a segurança. Mas a proximidade dele...
Sofia olhou para o carro destruído, para a escuridão que a cercava. O que ela faria ali? Esperar um socorro que talvez demorasse horas?
"Eu... eu não quero incomodar."
"Não é incômodo", Ricardo disse, sua voz um pouco mais suave. Ele estendeu a mão. "Vamos, Sofia. Você não pode ficar aqui."
Por um momento, Sofia hesitou. A mão dele, forte e segura, estendida em direção a ela. Uma mão que um dia a acolheu, que um dia a fez se sentir a mulher mais amada do mundo. Agora, estendida em um gesto de aparente cavalheirismo, mas que ela sabia que escondia tantas outras coisas. Ela olhou para a mão dele, depois para o rosto dele, e sentiu o turbilhão de emoções em seu peito.
Ela não tinha escolha.
Com um suspiro quase inaudível, Sofia aceitou a mão de Ricardo. Ele a puxou gentilmente para fora do carro, e o contato de seus corpos, mesmo que breve, enviou um choque elétrico por sua espinha. Ele a conduziu até seu carro, abrindo a porta do passageiro.
Ao entrar no carro, Sofia se deparou com um interior luxuoso, cheirando a couro e a um perfume amadeirado. As luzes suaves do painel iluminavam o rosto de Ricardo enquanto ele dirigia. Ele parecia mais velho, mais experiente, mas os mesmos traços marcantes que a haviam encantado anos atrás ainda estavam ali.
Enquanto o carro se afastava, Sofia olhou para trás, para o seu carro destruído, um símbolo de tudo o que ela sentia que estava perdendo. A estrada escura se estendia à frente, levando-a para um destino incerto, para os braços de um homem que representava o seu passado e, talvez, o seu futuro sombrio. A noite, que já era difícil, acabara de se tornar infinitamente mais complicada. Ela estava voltando para a toca do leão, sem saber se sairia ilesa.