O CEO e a Secretária II
Capítulo 8 — A Farsa e o Suspeito Inesperado
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 8 — A Farsa e o Suspeito Inesperado
Os dias na casa do campo passaram em uma cadência suave, pontuada por conversas profundas, trabalho concentrado e momentos de crescente intimidade entre Helena e Ricardo. O projeto avançava, e as reuniões virtuais com a equipe em São Paulo eram realizadas na sala de estudos da casa, que se transformara em um escritório improvisado. A tensão da ameaça de Sr. Andrade pairava, mas era contida pela atmosfera de paz e pela parceria cada vez mais sólida entre eles. Helena se sentia mais perto de Ricardo do que jamais imaginara ser possível, e a atração que sentiam um pelo outro crescia a cada dia, como uma flor desabrochando em solo fértil.
Naquela tarde, enquanto Ricardo participava de uma videochamada tensa com o conselho, Helena revisava documentos em seu laptop, sentada em uma poltrona confortável na varanda. O sol dourado aquecia a pele, e a brisa suave trazia consigo o aroma das flores. De repente, ela ouviu o som de um carro se aproximando. Um carro luxuoso, que não se encaixava na paisagem rústica da região. Ela franziu a testa, curiosa. Quem poderia estar vindo para cá sem avisar?
Ricardo encerrou a ligação com um suspiro, o rosto marcado pela frustração. “Eles não cedem, Helena. O Andrade está manipulando tudo, plantando discórdia.” Ele se aproximou dela, o olhar preocupado. “Você ouviu o carro?”
Antes que Helena pudesse responder, um carro preto com vidros escuros parou no gramado, e um homem alto, bem vestido, saiu dele. Era Rodrigo, o antigo sócio de Ricardo e, por um breve período, seu amigo próximo. Helena o reconheceu pelas fotos que Ricardo tinha em seu escritório. Sua aparição era tão inesperada quanto perturbadora.
Rodrigo sorriu, um sorriso largo e forçado que não alcançou seus olhos. “Ricardo! Que surpresa te encontrar aqui, neste retiro de paz. Eu estava na região e pensei em te fazer uma visita surpresa.” Ele olhou para Helena, um brilho de reconhecimento nos olhos, seguido por um leve franzir de testa. “E quem é essa bela companhia?”
Ricardo se levantou, a postura defensiva. “Rodrigo. Não estava esperando você.” Ele fez uma pausa, o tom de voz frio. “Esta é Helena, minha assistente executiva. Ela está me auxiliando em um projeto aqui.”
A palavra “assistente” pareceu incomodar Helena. A intimidade que ela e Ricardo haviam construído nos últimos dias parecia ter desaparecido com a chegada de Rodrigo. Ela sentiu uma pontada de decepção, mas logo a reprimiu. Ele estava certo. Para o mundo exterior, ela ainda era apenas a secretária.
Rodrigo estendeu a mão para Ricardo, que a apertou relutantemente. “Assistente, é? Vejo que seus gostos não mudaram muito, Ricardo. Sempre atraído por mulheres eficientes e discretas.” Ele lançou um olhar rápido e sugestivo para Helena, que se sentiu desconfortável sob seu escrutínio.
“O que você quer, Rodrigo?”, perguntou Ricardo, direto ao ponto. Ele não era de rodeios, e a presença de Rodrigo parecia irritá-lo profundamente.
Rodrigo riu, um som seco. “Calma, meu amigo. Só vim ver como você estava. E, quem sabe, te convencer a voltar para São Paulo. O projeto está em um momento crucial, e a sua ausência está sendo sentida.” Ele olhou para Helena novamente. “E, francamente, a sua assistente parece estar te distraindo um pouco demais.”
Helena sentiu o sangue ferver. A audácia de Rodrigo era inacreditável. Ela era sua assistente, sim, mas também era uma profissional dedicada, e não toleraria ser tratada como um empecilho ou uma distração. Ela se levantou, a voz firme. “Com licença, Sr. Rodrigo, mas eu estou trabalhando em estreita colaboração com o Sr. Ricardo, e nossa eficiência não tem sido comprometida. Pelo contrário.”
Rodrigo ergueu uma sobrancelha, surpreso com a reação dela. Ele não esperava que a “assistente discreta” se defendesse com tanta veemência. “Oh, vejo que você tem garras, senhorita. Interessante.” Ele se virou para Ricardo. “Ricardo, precisamos conversar a sós. Sobre o projeto, sobre o Andrade… e sobre algumas coisas que eu descobri.”
Ricardo olhou para Helena, um conflito visível em seus olhos. Ele confiava nela, mas também sabia que Rodrigo poderia ter informações importantes. “Helena, por favor, prepare um café. E talvez alguns petiscos. Rodrigo e eu precisamos conversar.”
Helena assentiu, a decepção misturada à curiosidade. O que Rodrigo poderia ter descoberto? Ela se retirou para a cozinha, mas não conseguia se concentrar. Deixou a cafeteira funcionar e, em vez de preparar petiscos, foi até a janela da sala, de onde podia observar a dupla sentada na varanda.
Ela viu Ricardo e Rodrigo conversando animadamente. Em alguns momentos, Ricardo parecia mais relaxado, mas em outros, sua expressão era tensa. Rodrigo gesticulava com frequência, e em um determinado momento, tirou um envelope de dentro do paletó e o entregou a Ricardo. Ricardo pegou o envelope, o abriu e começou a ler o conteúdo, sua expressão se tornando cada vez mais sombria.
Helena sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Algo estava errado. Muito errado. Ela observou a cena com apreensão crescente. Rodrigo parecia estar contando uma história, e Ricardo a ouvia com uma mistura de choque e raiva.
De repente, Ricardo se levantou abruptamente, o rosto pálido. Ele olhou para Rodrigo com uma fúria contida. “Como você soube disso?”, perguntou ele, a voz baixa, mas carregada de emoção. “Quem te contou?”
Rodrigo deu de ombros, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. “Digamos que eu tenho meus informantes. E que algumas pessoas, como o Sr. Andrade, não são tão discretas quanto pensam. Eles estão armando algo, Ricardo. Algo sujo. E eu, como seu amigo, achei que você deveria saber.”
Helena se aproximou da porta da varanda, escondida pela cortina. Ela não conseguia ouvir as palavras exatas, mas a linguagem corporal dos dois homens era clara: era uma discussão séria, cheia de segredos e desconfiança.
Ricardo voltou para dentro da casa, o semblante sombrio. Ele passou por Helena sem sequer notá-la, como se estivesse em outro mundo. Pegou uma garrafa de whisky na adega e serviu um copo generoso, bebendo-o de um só gole.
“Ricardo?”, chamou Helena, hesitante.
Ele se virou para ela, os olhos arregalados, a expressão perturbada. “Helena… o Rodrigo… ele tem informações. Informações sobre o Sr. Andrade. Parece que Andrade está tentando sabotar o projeto de uma forma… muito mais profunda do que imaginávamos.”
“O quê? O que ele está fazendo?”, perguntou Helena, o coração batendo forte.
“Ele descobriu sobre o seu passado. Sobre a dívida que seu pai tinha. E ele está usando isso. Está manipulando o seu pai, Helena. Forçando-o a te pressionar, a te fazer desistir do projeto. Ele quer te afastar de mim, te desacreditar. Ele está armando uma cilada.”
Helena ficou chocada. Seu pai? O Sr. Andrade estava usando seu pai contra ela? Isso era cruel e manipulador. Ela sentiu uma onda de raiva e impotência. “Meu pai… ele não faria isso comigo.”
“Ele está sendo coagido, Helena. E você sabe como o seu pai é. Ele tem medo de problemas. E Andrade está explorando isso ao máximo. Ele quer te tirar do meu lado, e se não conseguir, ele vai te usar para me atingir.” Ricardo a olhou nos olhos, a preocupação evidente. “Rodrigo me deu provas. Cartas, e-mails… É tudo verdade. Andrade está te manipulando e quer usar você como arma contra mim.”
Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. A farsa estava se tornando realidade, e ela, sem saber, estava sendo usada. A gentileza e o apoio que ela sentia em relação ao projeto e a Ricardo agora eram tingidos por um medo real. Ela não era apenas uma secretária; ela era um peão em um jogo perigoso.
“O que vamos fazer?”, perguntou ela, a voz embargada.
Ricardo respirou fundo, a determinação voltando aos seus olhos. “Vamos lutar. Vamos mostrar a Andrade que ele não vai nos vencer. E vamos proteger você e seu pai dessa manipulação.” Ele pegou as mãos dela, as palmas suando. “Rodrigo me deu algo mais. A prova de que Andrade está desviando fundos da empresa para financiar seus planos. Temos as armas para derrubá-lo.”
Ele olhou para ela, um brilho de esperança misturado à dor. “Mas isso significa que a sua posição ao meu lado se torna ainda mais… visível. E perigosa. Andrade vai te ver como uma ameaça direta.”
Helena apertou as mãos dele com força. Ela não era mais a secretária que se escondia nas sombras. Ela era uma guerreira, lutando ao lado do homem que estava começando a amar, contra um inimigo que não media esforços para vencer. A casa sob o sol, que prometia paz, agora era o palco de uma batalha iminente. E ela estava pronta para lutar.