Rendida a ele II
Capítulo 12 — O Confronto de Ricardo e a Desconfiança Crescente
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 12 — O Confronto de Ricardo e a Desconfiança Crescente
Ricardo sentia uma angústia crescente se instalar em seu peito. Desde a conversa tensa com Rafael na noite anterior, as palavras do meio-irmão ressoavam em sua mente como um prenúncio de desgraça. "A verdade que você escondeu." O que ele escondia? A mentira sobre a paternidade, a revelação chocante de que ele não era o herdeiro legítimo, mas sim Rafael, filho do falecido patriarca, era um golpe duro demais para processar.
Ele estava em seu escritório, o ambiente imaculado refletindo sua necessidade de controle, mas a serenidade habitual havia desaparecido. As pilhas de documentos sobre sua mesa pareciam confusas, sem sentido. Ele tentou se concentrar em um relatório financeiro, mas seus olhos se fixavam em um ponto aleatório, a mente divagando em um turbilhão de incertezas.
A imagem de Helena, tão abalada quanto ele, mas com uma força que ele nunca vira nela antes, o incomodava. Ela parecia ter encontrado uma nova determinação, uma resolução que ele, por outro lado, lutava para alcançar.
A porta de seu escritório se abriu sem aviso, e Dona Celeste entrou, seu semblante austero. Ricardo levantou os olhos, uma ponta de apreensão misturada à sua frustração.
"Mãe. O que faz aqui?"
Dona Celeste sentou-se na poltrona em frente à mesa, cruzando as pernas com sua habitual pose de matriarca. Seus olhos, porém, estavam mais penetrantes do que o normal, como se estivessem sondando a alma dele.
"Eu vim conversar com você, Ricardo. Sobre Rafael."
O nome de Rafael o atingiu como um soco no estômago. Ele não estava pronto para essa conversa. Não ainda.
"O que você quer saber, mãe?" perguntou, tentando manter a voz neutra.
"Quero saber o que você sabe. O que você pretende fazer. Você acha que pode simplesmente ignorar a verdade, Ricardo?"
Ricardo se recostou na cadeira, fechando os olhos por um instante. O peso das mentiras que ele carregava era esmagador.
"Eu… eu não sei o que fazer, mãe. Tudo mudou. Minha vida inteira… é uma mentira."
"Não se deixe abalar por isso, Ricardo. Você é um Vasconcelos. Essa é a sua identidade. Rafael é apenas um… acidente. Um erro do passado."
As palavras de Dona Celeste o chocaram. Um acidente? Um erro? Para ela, Rafael era apenas um inconveniente, uma peça indesejada no tabuleiro de xadrez que ela tanto gostava de jogar.
"Ele é meu irmão, mãe. E ele tem tantos direitos quanto eu. Talvez até mais."
Dona Celeste soltou uma risada seca e fria.
"Direitos? Ele nunca teve, nunca terá. Você é o meu filho. O herdeiro legítimo. E eu farei de tudo para que as coisas permaneçam assim."
Ricardo a encarou, a desconfiança crescendo em seu peito. A determinação férrea de sua mãe, a maneira como ela parecia disposta a jogar com a vida das pessoas para manter o controle, o assustava.
"Mãe, isso não está certo. Helena sabe. Ela está abalada. E Rafael… ele merece ter o seu lugar."
"Helena é uma ingênua. Ela não entende as complexidades do mundo. E quanto a Rafael… ele terá o que eu decidir que ele terá. E nada mais."
Ricardo se levantou abruptamente, a raiva começando a tomar conta dele.
"Eu não posso acreditar no que estou ouvindo, mãe. Você está disposta a destruir a todos nós para manter a sua fachada?"
"Eu estou protegendo a nossa família, Ricardo. Algo que você, com sua sentimentalidade, não consegue compreender."
"Sentimentalidade? É isso que você chama de justiça? De decência?" Ricardo bateu a mão na mesa, fazendo os papéis saltarem. "Eu não sou você, mãe. Eu não vou ser cúmplice dessa crueldade."
Dona Celeste o observou com frieza, sem demonstrar qualquer emoção.
"Você é meu filho, Ricardo. E você fará o que eu mandar. Você não tem escolha."
Ricardo a encarou, sentindo uma aversão profunda por aquela mulher que sempre o moldara, que sempre ditara seus passos.
"Talvez eu não tenha escolha em relação a você, mãe. Mas em relação à minha consciência, eu tenho. E minha consciência me diz que essa mentira tem que acabar."
Ele se virou e caminhou em direção à porta, a decisão firmada em seu coração. Ele não seria mais um peão no jogo de Dona Celeste.
"Ricardo! Onde você pensa que vai?" A voz de Dona Celeste o atingiu como um chicote.
"Vou falar com Helena. E depois… vou procurar Rafael. Precisamos resolver isso. Juntos."
Ele saiu do escritório, deixando Dona Celeste sozinha em um silêncio carregado de ameaça. Ela sabia que Ricardo estava se tornando um problema. Um problema sério.
Enquanto caminhava pelos corredores da mansão, Ricardo sentia o peso da verdade sobre seus ombros. Sua relação com Helena, construída sobre uma base de confiança e amor, agora estava manchada por essa mentira. Ele precisava consertar isso. Precisava ser honesto com ela, mesmo que isso significasse perder tudo.
Ele encontrou Helena na sala de estar, olhando pela janela, o mesmo olhar perdido que ele sentira em seu próprio escritório. A chuva lá fora parecia ter diminuído, mas a tempestade interior de ambos ainda rugia.
"Helena", ele disse, a voz suave.
Ela se virou, um leve sobressalto em seus olhos ao vê-lo. Havia uma tristeza profunda em seu olhar, mas também uma força que o intrigava.
"Ricardo. Eu… eu estava pensando em você."
Ele se aproximou dela, sentindo a distância que se abrira entre eles, não apenas física, mas emocional.
"Eu também estava pensando em você. E em nós. E em tudo o que aconteceu."
Ele pegou a mão dela, sentindo a fragilidade de seus dedos.
"Eu sinto muito, Helena. Sinto muito por ter te enganado. Por ter te deixado viver nessa mentira por tanto tempo."
As lágrimas começaram a se formar nos olhos de Helena, mas ela as segurou.
"Eu também sinto muito, Ricardo. Por não ter percebido antes. Por ter confiado cegamente."
Ricardo apertou a mão dela.
"Não se culpe. Minha mãe é… ela é muito convincente em suas manipulações. Ela nos fez acreditar em tudo."
"E agora? O que faremos?" Helena perguntou, a voz trêmula.
"Eu… eu não sei. Mas eu não vou mais esconder nada. De você. De ninguém." Ele olhou nos olhos dela, buscando a mesma determinação que ele vira em seu olhar. "Vamos contar a verdade. A todos. E vamos enfrentar as consequências juntos."
Helena o observou, uma centelha de esperança se acendendo em seu peito. A ideia de compartilhar o fardo, de não estar sozinha nessa batalha, era reconfortante.
"E Rafael?"
Ricardo hesitou por um momento. A lembrança de seu confronto com o meio-irmão ainda o assombrava.
"Eu vou falar com ele. Vou tentar… tentar consertar as coisas. Pedir desculpas."
"E se ele não te perdoar?"
"Eu não sei. Mas eu preciso tentar. Por você. Por nós. E por ele."
Ele a puxou para um abraço, um abraço apertado, desesperado. Helena retribuiu, sentindo o calor e a fragilidade de Ricardo. O caminho à frente era incerto, repleto de desafios, mas pela primeira vez desde que a verdade viera à tona, Ricardo sentiu que não estava mais sozinho. A desconfiança em relação à sua mãe era palpável, mas a esperança de reconstruir algo sobre as ruínas da mentira começava a florescer.