Rendida a ele II
Capítulo 14 — O Jogo de Vingança de Isabella
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 14 — O Jogo de Vingança de Isabella
O burburinho do café não alcançava Isabella. Ela observava Rafael se afastar, um misto de satisfação e escárnio em seu olhar. O que ela mais gostava era ver as pessoas se debatendo em suas próprias teias de mentiras, e Rafael, com sua candura recém-descoberta, era um prato cheio.
Ela sabia que sua presença ali era um calculado risco, mas a oportunidade de semear a discórdia e assistir ao desmoronamento dos Vasconcelos era irresistível. Ricardo, o homem que a descartara com tamanha frieza, merecia ver tudo o que construíra ruir. E se Rafael, o filho secreto, pudesse ser a ferramenta para isso, melhor ainda.
Sofia, alheia ao turbilhão de pensamentos de Isabella, tentava entender a situação. "Isabella, você… você sabia que Rafael era o filho do Sr. Vasconcelos?"
Isabella sorriu para Sofia, um sorriso que não chegava aos olhos. "Digamos que eu sempre fui uma observadora atenta, querida. E a família Vasconcelos, com seus segredinhos, sempre foi um entretenimento de primeira."
"Mas… por que você não disse nada antes?"
"E estragar a diversão? Onde estaria a graça nisso?" Isabella se inclinou para frente, sua voz baixando para um tom confidencial. "Além disso, Ricardo sempre foi tão… arrogante. Achava que podia ter tudo e todos. Ele merecia um choque de realidade."
Sofia franziu a testa, um pressentimento sombrio se instalando em seu peito. A crueldade nos olhos de Isabella era palpável.
"Eu acho que você está se divertindo às custas da dor dos outros, Isabella."
Isabella riu, um som cristalino e falso. "Oh, Sofia, você é tão ingênua. A dor é apenas um tempero na vida. E os Vasconcelos sempre tiveram uma vida muito sem graça. Precisavam de um pouco de pimenta."
Ela se levantou, o vestido de seda esvoaçando ao seu redor. "Eu preciso ir. Tenho compromissos. Mas foi um prazer te ver, Sofia. E Rafael… espero que ele aprecie o espetáculo."
Ela deixou o café, a postura altiva, como se carregasse o peso de um segredo glorioso. Para ela, a verdade sobre os Vasconcelos não era uma tragédia, mas sim um palco para sua vingança pessoal.
Enquanto isso, Rafael caminhava pelas ruas, a mente em um turbilhão. A conversa com Sofia, a presença perturbadora de Isabella… tudo parecia se misturar em um emaranhado confuso. Ele precisava de clareza. Precisava entender o papel de Isabella em tudo aquilo.
Ele decidiu ir até a casa de Dona Celeste. Talvez confrontá-la diretamente pudesse trazer alguma luz à situação. Ele sabia que era perigoso, que ela poderia manipulá-lo, mas a necessidade de respostas era mais forte do que o medo.
Ao chegar à mansão Vasconcelos, foi recebido por um silêncio sepulcral. A atmosfera parecia ainda mais pesada do que de costume. Ele encontrou Dona Celeste em seu escritório, como sempre, cercada por seus papéis e pela aura de poder que emanava dela.
Ela o olhou com surpresa, mas sem demonstrar alarme. "Rafael. O que faz aqui?"
"Eu preciso de respostas, Dona Celeste. Respostas sobre tudo isso."
Dona Celeste o observou por um longo momento, seus olhos frios e calculistas. "Você já sabe o suficiente, Rafael. A verdade está diante de você."
"A verdade que você me escondeu por tantos anos? A verdade que você usou para manipular a todos nós?"
"Eu fiz o que era necessário", ela disse, a voz firme. "Para proteger o nome da família. E para garantir o futuro que eu desejava."
"O seu futuro, você quer dizer. E o que você fez com o meu pai? Com a minha mãe?"
Uma sombra de dor cruzou o rosto de Dona Celeste, mas ela a reprimiu rapidamente. "Seu pai era um homem… complicado. E sua mãe… ela não era adequada para a nossa família."
Rafael sentiu a raiva borbulhar em seu interior. A frieza com que ela falava de seus pais, como se fossem meros peões em um jogo, era insuportável.
"Você não tem o direito de falar deles assim!"
"Eu tenho o direito de fazer o que for preciso para manter a ordem", ela disse, sua voz voltando ao tom de matriarca implacável. "E você, Rafael, é um elemento de desordem. Um que precisa ser contido."
Rafael sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A determinação em seus olhos era assustadora. Ele percebeu que Dona Celeste não seria a fonte de suas respostas. Ela era a fonte de seus problemas.
De repente, a porta do escritório se abriu, e Isabella entrou, um sorriso triunfante em seu rosto. Ela parecia ter sido convidada.
"Ora, ora. O que temos aqui? Rafael e Dona Celeste. Uma reunião familiar, por acaso?"
Dona Celeste a encarou com desprezo. "O que você faz aqui, Isabella? Como ousa entrar em minha casa sem ser convidada?"
Isabella riu. "Oh, minha querida Dona Celeste, você sabe que eu sempre encontro um jeito de entrar onde quero. Especialmente quando há um bom espetáculo acontecendo." Ela se virou para Rafael. "Então, Rafael. Já descobriu que sua querida matriarca não é tão flor quanto parece?"
Rafael sentiu um nó na garganta. Ele estava sendo encurralado.
"Você veio para se divertir, não foi, Isabella?", ele disse, a voz tensa.
"Claro que sim. E para garantir que você entenda quem realmente está no controle. Dona Celeste pensou que poderia te usar, mas você é apenas mais um peão em seu jogo. E eu estou aqui para te mostrar a verdade."
Dona Celeste se levantou, furiosa. "Você não tem o direito de falar com ele assim! Saia daqui agora!"
"Oh, eu acho que vou ficar", Isabella disse, um brilho perigoso em seus olhos. "Temos muito a conversar, não é, Rafael? Sobre segredos. Sobre mentiras. E sobre vingança."
Rafael sentiu o chão sumir sob seus pés. A manipulação de Dona Celeste era uma coisa, mas a crueldade calculada de Isabella era algo completamente diferente. Ele estava no meio de um jogo perigoso, e as regras estavam mudando a cada instante. A tempestade interior de Rafael se transformou em um furacão de incerteza e desconfiança. Ele sabia que precisava sair dali, mas sentia-se preso em uma teia de intrigas, onde cada passo em falso poderia ser fatal.