Amor Impossível III

Amor Impossível III

por Ana Clara Ferreira

Amor Impossível III

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 1 — O Sussurro do Passado na Bruma da Manhã

O sol da manhã, tímido e hesitante, tentava romper a densa bruma que abraçava as montanhas de Campos do Jordão. As árvores, emolduradas por um véu esbranquiçado, pareciam fantasmas silenciosos de um tempo esquecido. Maria Eduarda, ou Duda, como todos a chamavam, apertou o casaco de lã contra o corpo, o ar gélido mordiscando suas bochechas rosadas. Estava ali, no mirante da Pedra do Baú, um lugar que guardava tantas memórias quanto os recantos de seu próprio coração.

A paisagem, de uma beleza crua e imponente, ecoava a tempestade que se formava dentro dela. Fazia cinco anos desde a última vez que viera a este lugar, cinco anos desde que o mundo dela desmoronara em um turbilhão de dor e incompreensão. Cinco anos desde que ele havia partido.

Seus dedos, gélidos, tamborilavam um ritmo ansioso na barra do casaco. A boutique que herdara de sua mãe, a “Flores de Lótus”, em São Paulo, prosperava. Sua vida, para o mundo exterior, era um retrato de sucesso e independência. Mas, por dentro, Duda sentia um vazio persistente, um eco de um amor que, mesmo silenciado, jamais deixara de pulsar.

O som de um carro se aproximando quebrou a quietude melancólica. Era o jipe preto, robusto e impecável, que ela reconheceria em qualquer lugar. Seu coração deu um salto doloroso, uma mistura de pânico e uma esperança tola que ela tentava desesperadamente reprimir. O motor parou, e a porta se abriu.

Ele desceu. Alto, com os cabelos escuros ligeiramente desalinhados pelo vento úmido, e o olhar penetrante que um dia a hipnotizara. Miguel. Aquele que foi seu primeiro amor, seu grande amor, e, ironicamente, seu maior tormento. O tempo apenas o aprimorara, esculpindo seu rosto em traços ainda mais marcantes, a barba por fazer adicionando um toque de selvageria que a fez prender a respiração.

Seus olhos se encontraram através da névoa. Um choque elétrico percorreu o corpo de Duda, como se os anos tivessem desaparecido em um piscar de olhos. Aquele olhar… ainda carregava a intensidade que a fizera se apaixonar perdidamente. Mas havia algo mais agora, uma sombra de tristeza, uma distância que ela não soube decifrar.

“Duda?” A voz dele. Profunda, rouca. Exatamente como ela se lembrava, mas com um timbre que parecia vir de muito longe.

Ela engoliu em seco, tentando encontrar as palavras certas, mas elas pareciam ter se perdido na bruma. “Miguel. O que… o que você está fazendo aqui?” Sua voz saiu mais trêmula do que ela desejava.

Ele deu um passo hesitante em sua direção, os ombros largos tensos. “Eu… eu ouvi dizer que você voltaria para a casa da serra. Pensei que seria… apropriado dar um oi.” A ironia em suas palavras era palpável, um veneno doce que ela conhecia bem.

“Apropriado?” Ela riu, um som seco e sem humor. “Depois de tudo, você acha que um ‘oi’ é apropriado, Miguel?”

Ele suspirou, passando uma mão pelos cabelos. “Duda, por favor. Não vamos começar assim.”

“Como você quer que eu comece, Miguel? Como você quer que eu reaja ao homem que destruiu meu mundo e agora aparece como se nada tivesse acontecido?” A raiva borbulhava em suas veias, uma força contida que ameaçava explodir.

“Eu não destruí o seu mundo, Duda. Eu… eu fiz o que tinha que fazer.” A defensiva em sua voz era clara.

“O que você tinha que fazer? E me diga, o que era essa obrigação tão grandiosa que te levou a me deixar, a me humilhar, a me apagar da sua vida como se eu fosse um erro que você precisava corrigir?” As lágrimas começaram a marejar seus olhos, traiçoeiras.

Miguel deu mais um passo, a distância entre eles diminuindo. Ele parou a poucos metros dela, o olhar fixo no dela. “Você não entende, Duda. Nunca entendeu.”

“E você acha que me explicou alguma coisa? Você sumiu! Sem uma palavra, sem um adeus. Nada! Apenas o vazio.” Sua voz embargada pela emoção.

Ele estendeu a mão, como se quisesse tocá-la, mas parou no ar. “Eu não podia. Se eu tivesse ficado, as coisas teriam sido ainda piores.”

“Piores para quem, Miguel? Para você? Para a sua reputação? Para o seu futuro?” A acusação era amarga.

Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse se recompondo. Quando os abriu, o olhar era de uma dor profunda, quase insuportável. “Para você, Duda. Sempre para você.”

Ela balançou a cabeça, incrédula. “Isso não faz sentido. Nada do que você diz faz sentido. Você sempre foi um mestre em se fazer de vítima, em justificar suas próprias falhas com desculpas esfarrapadas.”

“Você não me conhece mais, Duda.” A voz dele era baixa, mas carregada de uma resignação que a feriu.

“E quem é você agora, Miguel? O homem que se escondeu, o homem que fugiu? Porque o homem que eu amei, o homem em quem eu confiei, ele jamais teria me abandonado.” A mágoa era um nó apertado em sua garganta.

A névoa começou a se dissipar lentamente, revelando a vastidão da paisagem montanhosa. O sol, agora mais ousado, banhava as copas das árvores em um dourado pálido. A beleza ao redor parecia zombar da feiura da discussão.

Miguel deu um passo para trás, a mão caindo ao lado do corpo. “Eu não vim para discutir, Duda. Eu só queria te ver. Saber que você estava bem.”

“Bem? Você acha que eu estou bem, Miguel? Depois de cinco anos carregando essa dor, esse abandono? Bem é uma palavra que não existe mais no meu vocabulário quando se trata de você.”

Ele a olhou por um longo instante, um silêncio pesado pairando entre eles. “Eu sinto muito, Duda. Por tudo.”

A sinceridade em sua voz, embora tardia, atingiu-a de forma inesperada. Ela desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade de seus olhos. “Sentir muito não apaga o passado, Miguel.”

“Eu sei.” Ele se virou, as costas largas curvadas. “Eu… preciso ir.”

Ela o observou se afastar, cada passo uma agonia para ela. A porta do jipe bateu com um som seco e definitivo. O motor roncou, e o carro desapareceu na estrada sinuosa, deixando para trás apenas o silêncio e a bruma que voltava a se adensar.

Duda ficou parada no mirante, as mãos frias, o coração em pedaços. O sussurro do passado havia retornado, e com ele, a certeza de que o amor impossível ainda ardia, teimoso e cruel, em seu peito. A bruma da manhã, que antes parecia um convite à introspecção, agora se tornara um véu sobre um futuro incerto, onde as sombras de Miguel teimavam em permanecer. Ela sabia, com uma certeza aterradora, que aquele encontro não seria o fim, mas apenas um prenúncio de novas tempestades.

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