Amor Impossível III
Amor Impossível III
por Ana Clara Ferreira
Amor Impossível III
Capítulo 16 — A Sombra do Passado Cruza o Presente
A brisa fria da madrugada acariciava o rosto de Helena enquanto ela observava o mar revolto da varanda do quarto de hotel em Paraty. As ondas batiam nas pedras com uma fúria que parecia espelhar a tempestade que se formava em seu coração. Os dias que se seguiram àquele reencontro inesperado com Rafael haviam sido um turbilhão de emoções. Cada olhar trocado, cada palavra sussurrada, parecia reabrir feridas antigas, mas também acender uma chama que ela acreditava ter se extinguido para sempre.
Rafael, por sua vez, não parecia ter mudado muito. O mesmo sorriso torto que a desarmava, os olhos que guardavam segredos e uma intensidade que a atraía irremediavelmente. Ele a procurara sob o pretexto de resolver pendências de negócios da antiga empresa, mas Helena sentia, em cada gesto, em cada frase, que havia algo mais. Uma necessidade de reaproximação, uma tentativa de consertar o que fora quebrado.
E o pior, ela se pegava cedendo a essa proximidade. O amor que sentira por ele, um amor tão puro e avassalador na juventude, ressurgia com uma força assustadora. Mas como ela poderia sequer cogitar isso? A traição, a mentira, o peso das consequências... tudo isso a assombrava. Ela estava ali, longe de tudo e de todos, tentando encontrar a paz, e agora, o fantasma do passado pairava sobre ela, sedutor e perigoso.
"Você não devia ter vindo", sussurrou Helena para o vento, as lágrimas teimosamente refusing a cair. Ela fechou os olhos, tentando afastar a imagem de Rafael, daquele dia na praia, do beijo que quase aconteceu. Mas era inútil. A memória era vívida demais.
O som de uma porta se abrindo suavemente a fez sobressaltar. Rafael estava ali, parado no limiar, com um sorriso hesitante. Ele segurava duas xícaras de café fumegante.
"Pensei que pudesse estar acordada", disse ele, a voz baixa e rouca. "Trouxe um café."
Helena o observou, a armadura de orgulho que tentara construir se desintegrando diante da sua presença. Ela não disse nada, apenas acenou com a cabeça, indicando um lugar para ele sentar.
"É lindo aqui, não é?", comentou Rafael, olhando para o mar. "Lembra daquela vez que viemos para cá, ainda garotos? Prometemos que um dia voltaríamos."
Helena sentiu um aperto no peito. Sim, ela lembrava. Lembrava-se de cada detalhe daquela viagem, dos sonhos compartilhados, da promessa de um futuro juntos. Um futuro que se desfez em mil pedaços.
"Você sempre foi bom em promessas, Rafael", respondeu ela, a voz carregada de uma mágoa que ela tentava disfarçar.
Ele suspirou, o sorriso sumindo do rosto. "Eu sei. E eu fui péssimo em cumpri-las. Helena, eu… eu sei que te magoei profundamente." Ele fez uma pausa, buscando as palavras certas. "Nada do que eu diga pode apagar o passado. Mas eu preciso que você saiba que eu me arrependo. Todos os dias, eu me arrependo."
Helena bebeu um gole de café, o calor reconfortando-a ligeiramente. "Arrependimento não muda o que aconteceu, Rafael. Não apaga a dor. Não traz de volta os anos que perdi."
"Eu sei. E não espero que apague. Mas eu queria… eu queria ter a chance de te mostrar que mudei. Que a vida me ensinou lições duras. E a lição mais dura foi a perda de você." Ele a encarou, os olhos suplicantes. "Eu nunca deixei de pensar em você, Helena. Nunca. Nem por um dia."
O silêncio se instalou entre eles, preenchido apenas pelo som das ondas. Helena sentia a tentação de acreditar nele, de se deixar levar pela doidade que ainda ardia em seu peito. Mas a razão a alertava. Ele a havia destruído uma vez. Poderia fazer isso novamente?
"Por que agora, Rafael?", perguntou ela, a voz embargada. "Por que você reaparece na minha vida depois de tantos anos, justamente agora que eu estava tentando seguir em frente?"
"Eu não sabia que você estava seguindo em frente", confessou ele. "Eu te procurei. Queria ter certeza de que você estava bem. E quando soube que você viria para cá… eu… eu não pude resistir. Eu precisava te ver."
Helena levantou-se, afastando-se dele. Ela não podia mais encarar aquela intensidade nos olhos dele. "Eu não posso fazer isso, Rafael. Não podemos reviver isso. É um erro."
"Um erro?", ele repetiu, levantando-se também. "Ou a chance de corrigir um erro? Helena, eu ainda te amo. Eu nunca deixei de te amar."
As palavras dele a atingiram como um raio. Amor. Era a palavra que ela mais temia e mais desejava ouvir. Ela se virou para ele, a vulnerabilidade estampada em seu rosto.
"E o que você espera de mim, Rafael? Que eu esqueça tudo? Que eu acredite que você voltou para mim de coração puro? Você não sabe o que eu passei. Você não faz ideia da força que me custou para me reconstruir depois de você."
"Eu quero saber, Helena", disse ele, dando um passo em sua direção. "Eu quero saber tudo. Quero te ouvir. Quero tentar entender. E quero te reconquistar."
Helena fechou os olhos, um turbilhão de sentimentos a invadindo. Medo, desejo, raiva, amor. Era demais. Ela não sabia como lidar com tudo aquilo. O passado e o presente se misturavam, e ela se sentia perdida.
"Eu preciso de tempo, Rafael", disse ela, a voz fraca. "Eu preciso pensar."
"Eu te darei todo o tempo do mundo", respondeu ele, a esperança brilhando em seus olhos. "Mas não me diga que acabou antes mesmo de começar de novo."
Helena balançou a cabeça, sem conseguir articular uma resposta. Ela sentia a presença dele tão perto, o cheiro do seu perfume, a energia que emanava dele. Era uma força da natureza, algo que ela não conseguia controlar.
"Eu vou voltar para o meu quarto", disse ela, dando um passo para trás. "Precisamos conversar com calma. Sem pressa. E sem paixão desenfreada."
Rafael assentiu, um leve sorriso voltando aos seus lábios. "Combinado. Mas saiba, Helena, que essa paixão, se você me permitir, é o que me trouxe até aqui. E é o que vai me fazer lutar por você."
Helena não respondeu. Ela apenas se virou e saiu da varanda, deixando Rafael sozinho com o mar e as promessas que ele fez e quebrou. A sombra do passado havia cruzado o presente, e ela sabia que sua vida em Paraty nunca mais seria a mesma. A luta pela sua paz, pela sua reconstrução, acabara de ganhar um adversário poderoso, e o amor, aquele amor impossível, parecia mais vivo do que nunca. Ela sentia o coração acelerado, a mente em polvorosa, e uma profunda incerteza sobre os próximos passos. A maresia parecia carregar consigo o eco das palavras de Rafael, e o aroma de café se misturava ao cheiro salgado do mar, criando uma atmosfera densa, carregada de saudade e de um perigoso recomeço.