Amor Impossível III
Capítulo 4 — O Sombra do Passado na Cidade da Luz
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 4 — O Sombra do Passado na Cidade da Luz
A decisão de voltar para São Paulo foi difícil, mas necessária. Duda sentia que precisava retomar o controle de sua vida, longe das sombras da casa da serra e da presença perturbadora de Miguel. A “Flores de Lótus” a esperava, um refúgio de trabalho e dedicação, onde ela podia canalizar suas emoções em cada arranjo floral, em cada cliente atendido.
A boutique era um oásis de beleza e delicadeza no coração pulsante de São Paulo. Flores de todas as cores e aromas preenchiam o espaço, um espetáculo visual e olfativo. Duda se movia com agilidade entre os vasos e as mesas de trabalho, sua expertise e paixão evidentes em cada gesto. A cidade, com seu ritmo frenético e suas multidões anônimas, era um contraste gritante com a tranquilidade da serra.
Naquela tarde, enquanto finalizava um arranjo para um casamento importante, a porta da boutique se abriu, e ele entrou. Miguel. O choque inicial, a velha dor, veio com a força de um soco. Ele parecia deslocado naquele ambiente, um predador em um jardim.
“Duda”, ele disse, a voz baixa, quase um sussurro.
Ela se virou lentamente, o vaso de rosas em suas mãos tremendo levemente. “Miguel. O que você está fazendo aqui?”
Ele olhou ao redor, absorvendo a beleza do lugar. “Eu… eu precisava te ver. Saber como você estava.”
“Eu estou bem, Miguel. Estou trabalhando. Como você pode ver.” Ela enfatizou a palavra, como se quisesse deixar claro que sua vida havia seguido em frente.
Ele se aproximou um pouco, o olhar fixo no dela. “Eu sei que você está chateada. E eu entendo. Mas eu não podia deixar que o nosso… encontro na serra fosse o fim de tudo.”
“Fim de tudo? Miguel, não há mais ‘tudo’ para ser o fim. Você fez suas escolhas.”
“Eu sei. Mas as coisas mudaram, Duda. Eu sou livre agora.”
Duda suspirou, largando o vaso de rosas sobre a mesa. “Você veio até São Paulo para me dizer isso? Para me dizer que agora você está livre, depois de cinco anos? E o que você espera que eu faça com essa informação?”
“Eu espero que você saiba que o que eu sinto por você ainda é real. E que, se você estiver disposta, eu quero tentar de novo. De verdade.”
A audácia dele a deixou sem palavras por um momento. A cidade grande, com suas luzes e sua agitação, parecia amplificar a intensidade da situação. Ela o encarou, a confusão e a dor lutando dentro dela.
“Você não entende, Miguel. Você não entende o que significa ficar aqui, tentando reconstruir a minha vida, depois que você me deixou em pedaços. E agora você aparece, com suas desculpas tardias, e quer que eu simplesmente esqueça tudo?”
“Eu não quero que você esqueça. Eu quero que você me dê uma chance de mostrar que eu mudei. Que eu posso ser o homem que você um dia amou.”
Duda riu, um som seco e sem alegria. “O homem que eu amei era um idealista, um sonhador. O homem que eu vejo agora é um homem que fez escolhas difíceis, mas escolhas que custaram caro para mim.”
“E essas escolhas me ensinaram muito, Duda. Eu aprendi o valor do amor, o valor da lealdade, e o preço que se paga por fugir dos próprios sentimentos.”
Ela caminhou em direção a ele, a raiva controlada crescendo. “Você fala de lealdade? Você se casou, Miguel! Você construiu uma família com outra mulher! Isso não é lealdade! Isso é traição!”
Ele a olhou nos olhos, a dor evidente em seu rosto. “Eu sei. E me arrependo disso todos os dias. Mas esse casamento foi forçado. E agora ele acabou.”
“Acabou? E os seus filhos, Miguel? Eles não importam mais?” A pergunta saiu dura, quase cruel.
A menção dos filhos o atingiu, a expressão dele mudando. “Eles importam. Eles são tudo para mim. Mas isso não muda o que eu sinto por você. Eu quero ser um bom pai, e eu também quero ser o homem que você merece.”
Duda sentiu as pernas fraquejarem. A cidade, com sua energia avassaladora, parecia girar ao seu redor. Ela se segurou em uma mesa próxima, tentando recuperar o fôlego.
“Eu não sei o que dizer, Miguel. Eu… eu não posso. Não agora.”
Ele deu um passo à frente, estendendo a mão, mas parou quando viu a expressão em seu rosto. “Eu entendo. Eu só queria que você soubesse. Que a porta está aberta. Se você quiser conversar, se quiser entender… eu estarei aqui.”
Ele tirou um pequeno cartão do bolso e o colocou na mesa. “Este é o meu número. E o endereço da minha nova casa. Eu me mudei para a cidade. Precisei ficar perto dos meus filhos.”
Duda pegou o cartão, os dedos frios. A caligrafia elegante era familiar, mas o papel parecia carregar o peso de uma nova realidade.
“Eu preciso ir, Duda. Tenha um bom dia.”
Miguel se virou e saiu da boutique, deixando para trás o aroma das flores e o silêncio carregado de emoções não ditas. Duda ficou parada, o cartão na mão, o coração batendo descompassado. A cidade da luz, com suas promessas e seus perigos, agora abrigava a sombra de seu passado, e a tentação de um futuro incerto.