Amar foi meu Erro II
Capítulo 1
por Ana Clara Ferreira
Com certeza! Prepare-se para mergulhar em um turbilhão de paixões, segredos e reviravoltas. Aqui estão os primeiros cinco capítulos de "Amar Foi Meu Erro II", escritos com a alma de um romancista brasileiro:
Amar Foi Meu Erro II Um Romance de Ana Clara Ferreira
Capítulo 1 — O Sussurro do Passado na Chuva de Abril
A chuva de abril caía impiedosa sobre o Rio de Janeiro, um véu cinzento que parecia querer lavar a alma da cidade, mas que, para Isadora Montenegro, apenas intensificava a melancolia que a envolvia como um xale úmido. Sentada à mesa de mármore da sua cozinha, a xícara de café recém-passado esfriava entre os dedos, o aroma amargo se misturando à brisa fria que entrava pela janela entreaberta. Lá fora, o asfalto brilhava sob a luz difusa dos postes, reflexos trêmulos de um mundo que parecia seguir em frente, alheio à sua própria tempestade interior.
Seis anos. Seis anos haviam se passado desde a última vez que vira aqueles olhos cor de mel, marcados por uma dor que espelhava a sua. Seis anos desde que Miguel de Alcântara, o homem que havia incendiado sua vida e a deixado em cinzas, desaparecera como um fantasma, levado pela correnteza implacável do destino. E agora, a notícia, trazida por um telefonema inesperado de sua tia Carmem, ecoava em sua mente como um trovão distante, anunciando o prenúncio de uma nova tormenta: Miguel estava de volta.
Isadora fechou os olhos, buscando refúgio na escuridão. A imagem dele, jovem, vibrante, com aquele sorriso capaz de desarmar qualquer fortaleza, invadia sua memória como um ataque súbito. Lembrava-se do dia em que se conheceram, numa festa de fim de ano da empresa de arquitetura em que trabalhavam. Ela, uma estrela em ascensão, ele, um profissional promissor, com uma aura de mistério que a atraiu como uma mariposa à chama. O romance floresceu rápido e intenso, arrebatador, como uma tempestade tropical que tudo leva em seu caminho. Mas como toda tempestade, também deixou destruição.
“Ele voltou, Dora”, a voz embargada da tia Carmem ressoava em sua cabeça. “Miguel de Alcântara. Está na cidade há semanas, ninguém sabia, mas ele… ele abriu um escritório novo, bem ali na Barra.”
A Barra da Tijuca. O palco de tantos momentos felizes e de tantas lágrimas. O lugar onde construíram o ninho que nunca chegaram a habitar completamente. A ironia cruel da vida a atingia em cheio. Voltar para a cidade era uma coisa, voltar para o seu bairro, para perto dela, era outra completamente diferente. Seria uma coincidência? Ou um plano deliberado? A pergunta a corroía por dentro.
O toque do celular na bancada a fez sobressaltar. Era Luana, sua melhor amiga e sócia no pequeno ateliê de joias que haviam fundado juntas, o "Eterna Joia". O ateliê, que começara como um sonho distante, transformara-se na sua âncora, no seu refúgio contra as incertezas da vida.
“Dora! Que cara é essa? Parece que viu um fantasma!”, exclamou Luana, a voz vibrante e cheia de energia, contrastando com o desânimo de Isadora. Luana era a alegria em pessoa, a força que a impulsionava quando as suas próprias forças esvaíam.
“Quase isso, Lu. Quase isso”, Isadora suspirou, tentando disfarçar a apreensão. “O fantasma do passado resolveu dar as caras de novo.”
Luana franziu a testa. “Do que você está falando? Sabe de alguma coisa que eu não sei?”
Isadora hesitou. Contar a Luana, a confidente de todas as suas dores, era tentador. Mas Miguel era um segredo guardado a sete chaves, uma ferida que ela tentava cicatrizar a cada dia. “Tia Carmem ligou. Adivinha quem voltou para o Rio?”
Um silêncio pairou no ar, carregado de expectativa. Luana, com seu faro aguçado para dramas, já sabia. “Não… não pode ser. O… o Miguel?”
“Ele mesmo. Abriu um escritório na Barra.” A voz de Isadora soou distante, como se viesse de outro planeta.
Luana soltou um gemido. “Isso é… isso é inacreditável! E o que ele quer? Ele simplesmente sumiu, Dora! Te deixou aqui… te deixou desamparada!” A indignação na voz de Luana era palpável, uma defesa feroz da amiga.
“Não sei, Lu. Não sei o que ele quer. E, sinceramente, não quero descobrir.” Isadora tentou soar firme, mas uma pontada de medo e uma curiosidade proibida se misturavam em seu peito.
“E o que você vai fazer?”, perguntou Luana, apreensiva. “Você sabe que ele vai te procurar, não sabe? Ele nunca desistiu de você, Dora, mesmo quando… mesmo quando tudo acabou.”
“Isso é impossível, Lu. Ele me abandonou. Ele escolheu outro caminho. E eu segui em frente. Ou pelo menos, tentei.” A confissão saiu num sussurro.
A chuva lá fora se intensificava, o som das gotas batendo contra o vidro agora um ritmo frenético, espelhando a agitação em seu coração. Isadora se levantou, caminhou até a janela e observou a rua molhada. As luzes dos carros passavam como rastros de esperança e desespero. Miguel de Alcântara de volta à sua vida. Depois de tudo. Era um convite para a ruína, um retorno ao inferno que ela jurou ter deixado para trás. Mas uma parte dela, a parte mais tola e teimosa, sentia um frio na espinha que não era apenas da chuva. Era o prenúncio de um reencontro que poderia reacender as cinzas ou incinerá-la de vez.
“Eu não sei o que vou fazer, Lu. Mas uma coisa eu sei: não vou deixar que ele me destrua de novo.” A promessa ecoou no silêncio da cozinha, um voto solitário contra a maré que ameaçava engoli-la. A chuva de abril, antes apenas melancólica, agora parecia carregar consigo os fantasmas do passado, sussurrando um nome que ela tanto amou e tanto odiou: Miguel.