Amar foi meu Erro II

Capítulo 12 — As Fendas na Fundação e a Verdade Velada

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 12 — As Fendas na Fundação e a Verdade Velada

A luz do amanhecer, filtrada pelas pesadas cortinas de veludo da biblioteca de Helena, pintava as prateleiras de livros antigos com um brilho dourado, mas não conseguia dissipar a aura sombria que pairava na sala. A noite anterior tinha sido longa e exaustiva, uma jornada tortuosa através das revelações cruéis contidas nas cartas de seu pai. Helena, com os olhos fundos e uma caneca de café frio esquecida em suas mãos, sentia o peso de cada palavra lida, de cada segredo desenterrado. Ao seu lado, Miguel, o olhar atento e a postura tensa, parecia compartilhar o fardo daquelas verdades incômodas.

As cartas eram um labirinto de confissões fragmentadas e desespero velado. O pai de Helena, um homem que ela sempre vira como um pilar de força e integridade, revelava-se em sua fragilidade, atormentado por uma dívida que ia além do dinheiro. Uma dívida de honra, de um erro cometido no passado, um erro que, por circunstâncias sombrias, ligava seu nome ao de Sofia de uma forma que Helena jamais poderia ter imaginado. A fundação, o legado que seu pai deixara e que Sofia tão diligentemente administrava, agora parecia manchado por aquela história obscura.

"Eu ainda não consigo acreditar", Helena murmurou, a voz rouca de cansaço. Ela passou a mão pelo rosto, as pontas dos dedos roçando as olheiras escuras. "Meu pai... o homem que me ensinou a valorizar a honestidade, a dignidade... como ele pôde se envolver em algo assim?"

Miguel estendeu a mão e tocou suavemente o braço de Helena. "As circunstâncias podem levar as pessoas a fazerem coisas que jamais imaginariam, Helena. Seu pai estava em uma situação desesperadora. E Sofia, com sua habilidade de manipulação, soube explorar essa fragilidade." Ele pegou um dos envelopes amarelados, a caligrafia de seu pai reconhecível. "Veja aqui. Ele fala sobre um 'acordo' que o atormentava. Um acordo para proteger alguém, ou algo. E ele menciona 'o nome dela' repetidamente, sempre com um tom de apreensão."

Helena assentiu, a lembrança de seu pai sussurrando o nome de Sofia em suas cartas a arrepiando. "Sofia sempre foi muito próxima da família, mas depois que meus pais morreram... ela se tornou minha guardiã. Ela me disse que era o dever dela cuidar de mim, manter o legado do meu pai vivo." Seus olhos se fixaram em Miguel, uma pergunta implícita pairando no ar. "Você acha que... que ela soube disso desde o início?"

"Eu tenho quase certeza", Miguel respondeu, a convicção em sua voz reforçando a apreensão de Helena. "Ela sabia da sua busca pela verdade. Ela te guiou sutilmente, te afastando de certos caminhos, te mantendo em um estado de dependência. A fundação não é apenas um memorial para seu pai, Helena. É a fortaleza de Sofia. E essas cartas são a rachadura que pode derrubá-la."

Ele se levantou e começou a andar pela biblioteca, seus passos ecoando no silêncio. "Precisamos investigar a fundação mais a fundo. Não apenas as finanças, mas a história. Há quanto tempo ela opera sob a direção de Sofia? Houve alguma irregularidade durante esse tempo? Alguma transação suspeita que possa ter sido encoberta?"

Helena observou Miguel, a energia que ele irradiava, a determinação em seus gestos. Ele estava agindo como o protetor que ela sempre precisou, o homem que a defenderia de qualquer ameaça. A complexidade dos seus sentimentos por ele era um emaranhado difícil de desatar. O amor que um dia sentiram, a dor da traição, e agora essa aliança forjada na adversidade.

"A fundação foi criada logo após a morte dos meus pais", Helena começou a relatar, sua voz ganhando um pouco mais de firmeza. "Meu pai sempre teve a intenção de criar uma instituição de caridade para apoiar artistas jovens. Sofia assumiu a administração na época, dizendo que precisávamos de alguém com experiência para honrar o desejo dele. Ela disse que eu era muito jovem e abalada para lidar com algo tão complexo."

"E você confiou nela", Miguel completou, a voz um pouco melancólica. "Assim como eu confiei nela quando ela se apresentou como uma aliada." Ele parou diante de uma poltrona de couro, o olhar perdido em algum ponto distante. "Lembro-me de ter tido dúvidas sobre a forma como ela administrava as coisas. Ela sempre parecia ter um controle excessivo, e qualquer pergunta que eu fazia sobre as finanças era recebida com frieza ou desdém."

"Eu também", Helena concordou. "Sempre que eu tentava me envolver mais, ela me dizia que eu precisava me concentrar na minha recuperação, que o mundo dos negócios era arriscado e estressante demais para mim. Ela me mantinha informada apenas do essencial, sempre apresentando relatórios impecáveis, mas vagos."

O olhar de Miguel se tornou aguçado. "Precisamos de mais do que relatórios impecáveis e vagos, Helena. Precisamos de números concretos. Precisamos acessar os registros da fundação. Contratos, extratos bancários, tudo o que pudermos conseguir."

"Mas como? Sofia controla tudo. Ela tem um advogado que está sempre presente em qualquer reunião importante", Helena respondeu, a frustração começando a tomar conta dela novamente.

"Precisamos de um aliado interno, alguém de confiança que trabalhe na fundação e que possa nos fornecer as informações que precisamos", Miguel ponderou, pensativo. "Ou então, precisamos de uma forma de contornar a vigilância dela. Um auditor independente, talvez?"

Helena pensou nas poucas pessoas que trabalhavam na fundação. Havia a secretária, Dona Lurdes, uma senhora idosa e dedicada, que estava lá desde o início, quando a fundação ainda era apenas um sonho de seu pai. E havia o jovem contador, Ricardo, que Sofia contratara há alguns anos.

"Dona Lurdes...", Helena começou, e então hesitou. "Ela é leal à memória do meu pai. Mas ela também é muito leal a Sofia. Eu não sei se ela seria capaz de nos ajudar contra ela."

"E Ricardo?", Miguel perguntou.

"Ricardo é eficiente, mas ele parece um pouco intimidado por Sofia. Ele faz o trabalho dele e não se envolve em nada mais", Helena respondeu, sentindo a dificuldade da tarefa à frente.

Miguel suspirou, passando a mão pelos cabelos. "É um nó complicado. Mas não podemos desistir. Se Sofia está usando a fundação para encobrir os desvios do acordo com seu pai, então deve haver rastros. Dinheiro entrando, saindo, transferências... algo que não bate."

Ele se aproximou da mesa, pegando uma das cartas novamente. "Seu pai menciona que o acordo foi selado 'sob a promessa de proteger o nome da família'. Isso sugere que o acordo envolvia algo que poderia prejudicar a reputação de alguém. E Sofia, sendo a administradora da fundação e a figura pública dela, estaria em uma posição ideal para encobrir essas irregularidades, usando a própria fundação como escudo."

Helena sentiu um arrepio. A imagem de Sofia, sorrindo em eventos beneficentes, agora parecia uma fachada macabra. O cuidado que ela tinha em manter uma imagem pública impecável, a forma como ela sempre se apresentava como uma filantropa dedicada... tudo isso poderia ser uma distração cuidadosamente orquestrada.

"Então, a fundação em si poderia ser a ferramenta de lavagem de dinheiro, ou de alguma outra atividade ilícita, para cobrir os termos do acordo com meu pai?", Helena perguntou, o nó em sua garganta se apertando.

"Exatamente. Ou então, o dinheiro que deveria ir para os artistas, para a causa que seu pai tanto prezava, está sendo desviado para fins que beneficiam Sofia e, possivelmente, outras pessoas envolvidas nesse acordo antigo", Miguel explicou, a voz tensa. "Precisamos de acesso aos livros contábeis. Sem isso, estamos apenas especulando."

De repente, uma ideia brilhou nos olhos de Helena. Ela se lembrou de uma caixa antiga que seu pai guardava em seu escritório, uma caixa que ele sempre chamou de "meus segredos". Ela nunca soube o que havia dentro, pois ele sempre a protegeu. Após sua morte, Sofia disse que a caixa havia sido perdida em uma das mudanças. Mas Helena tinha uma forte intuição de que Sofia estava mentindo.

"Miguel...", Helena começou, a voz ganhando um tom de esperança. "Meu pai tinha uma caixa. Ele a chamava de 'meus segredos'. Sofia disse que a caixa se perdeu, mas eu tenho a sensação de que ela a pegou. E se essa caixa contiver algo relacionado ao acordo? Algo que possa nos dar as provas que precisamos?"

Miguel a olhou, a apreensão em seus olhos se misturando com um fio de expectativa. "Onde essa caixa poderia estar, Helena? Se Sofia a pegou, ela a teria guardado em um lugar seguro, longe de olhos curiosos."

"Eu não sei ao certo", Helena admitiu, "mas ela morava na mesma casa que meu pai quando ele morreu. E a casa foi vendida logo depois. Sofia deve ter levado muitas coisas de lá. Talvez ela tenha guardado a caixa em sua própria residência, ou em algum cofre, ou em algum lugar que ela considere inviolável."

"Precisamos encontrá-la, Helena. Se essa caixa contém mais informações, mais pistas, ela pode ser a chave para desvendar toda essa teia que Sofia teceu", Miguel declarou, sua determinação reforçada pela nova possibilidade. "E se Sofia tentou esconder essa caixa, é porque ela sabe o seu valor. Ela sabe que o conteúdo dela pode ser perigoso para ela."

Helena sentiu um misto de esperança e receio. A ideia de confrontar Sofia novamente, de invadir sua casa, era assustadora. Mas a necessidade de descobrir a verdade, de libertar a si mesma e a memória de seu pai da influência sombria de Sofia, era ainda maior.

"Eu não sei se consigo fazer isso. Invadir a casa dela... se ela me pegar...", Helena começou a dizer, a voz falhando.

"Você não vai estar sozinha", Miguel a interrompeu, sua voz firme e tranquilizadora. "Eu estarei com você. Vamos planejar isso com cuidado. Se houver uma maneira de entrar na casa dela sem levantar suspeitas, ou se houver uma oportunidade de encontrarmos a caixa em algum outro lugar onde ela a tenha guardado, nós vamos encontrar."

Helena olhou para as cartas espalhadas pela mesa, para as palavras de seu pai, para a promessa de Miguel. A fundação, antes vista como um monumento de amor, agora revelava suas rachaduras, suas fundações corrompidas por um segredo antigo. A verdade estava velada, escondida sob camadas de mentiras e manipulação, mas Helena sentia que estava perto. Perto de descobrir o que realmente aconteceu, perto de desmascarar Sofia. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia apenas uma vítima. Ela se sentia uma guerreira. A busca pela caixa perdida, a busca pela verdade, havia se tornado sua nova missão.

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