Amar foi meu Erro II
Capítulo 3 — As Sombras do Passado no Edifício Alcântara
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — As Sombras do Passado no Edifício Alcântara
O Edifício Alcântara, um ícone da arquitetura moderna no coração da Zona Sul, era um testemunho silencioso da força e da ambição da família de Miguel. Seus pais, Dona Helena e Seu Roberto, eram figuras proeminentes na sociedade carioca, conhecidos por sua influência e pelo império que construíram. Agora, o nome Alcântara também estava associado ao retorno triunfal de Miguel, o filho pródigo que, após anos de silêncio, ressurgia para assumir seu lugar na empresa.
Isadora recebeu o convite para a recepção de boas-vindas de Miguel de forma inesperada. Estava em seu ateliê, imersa na lapidação de uma pedra preciosa, quando Luana entrou com um envelope dourado nas mãos, os olhos brilhando de excitação.
“Olha só o que chegou!”, exclamou Luana, estendendo o convite para Isadora. “Recepção de boas-vindas para o Sr. Miguel de Alcântara. E o melhor: o nome de quem está convidada está escrito com tinta dourada!”
Isadora sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Um convite oficial. Miguel estava, de fato, convidando-a para entrar em seu mundo novamente. “Eles não podem estar falando sério.”
“Mas estão, Dora! E você vai, não vai?”, Luana insistiu, com aquele olhar de quem sabe o que é melhor. “Não pode simplesmente se esconder. Ele está de volta, e você precisa mostrar que seguiu em frente, que está bem.”
Isadora suspirou. A ideia de reviver o passado, de estar em um ambiente onde todos a associariam a Miguel, a deixava apreensiva. Mas, ao mesmo tempo, uma pequena chama de desafio se acendeu em seu peito. Ela não era mais a garota assustada que ele havia deixado para trás.
Na noite da recepção, Isadora escolheu um vestido preto elegante, um modelo simples, mas que realçava sua figura esguia. A maquiagem era discreta, realçando seus olhos, e o cabelo, solto em ondas suaves, emoldurava seu rosto. Em seu pulso, usava um bracelete de sua própria criação, uma peça delicada com um quartzo rosa, um símbolo de amor próprio.
Ao chegar ao Edifício Alcântara, foi recebida por uma atmosfera de opulência e sofisticação. O salão principal estava ricamente decorado, com arranjos florais exuberantes e iluminação suave. Convidados elegantes circulavam, suas conversas animadas ecoando no vasto espaço. Isadora sentiu-se um pouco deslocada, uma estranha em um mundo que antes lhe era familiar.
Luana, ao seu lado, estava deslumbrante em um vestido azul royal, exalando confiança. “Respire fundo, Dora. Você está linda e é dona do seu próprio brilho. Ninguém pode te diminuir aqui.”
Eles circularam pelo salão, cumprimentando conhecidos, trocando sorrisos educados. Isadora sentia os olhares sobre ela, a curiosidade velada. Todos sabiam do passado dela e de Miguel. E agora, sua reaparição juntos era o assunto da noite.
De repente, ela o viu. Miguel estava no centro do salão, conversando com um grupo de empresários. Ele usava um terno impecável, a gravata escura contrastando com a camisa clara. Sua presença era imponente, exalando a mesma autoridade de sempre. Quando ele a viu, seus olhos encontraram os dela em meio à multidão. Um leve aceno de cabeça, um sorriso discreto, e ele se desvencilhou do grupo, caminhando em sua direção.
O coração de Isadora começou a bater mais forte. Luana, percebendo a tensão, deu um tapinha em seu braço. “Vou buscar um drink. Não demoro.”
Miguel parou a poucos passos dela, o som da música e das conversas diminuindo em sua percepção. “Isadora. Você veio.” Sua voz, mais baixa agora, parecia carregar um peso de emoção.
“Miguel”, ela respondeu, tentando manter a voz firme. “Obrigada pelo convite.”
“Eu sabia que você viria”, ele disse, um brilho nos olhos. “Não pude deixar de te convidar. E fico feliz que tenha aceitado.” Ele olhou para ela, uma admiração genuína em seu olhar. “Você está… radiante.”
Isadora corou levemente. “Obrigada. Você também parece bem. O império Alcântara está em boas mãos.”
Um sorriso melancólico cruzou os lábios de Miguel. “O império está aqui, mas nem sempre eu fui o arquiteto dos meus próprios caminhos. Houve um tempo em que me perdi.” Ele a encarou, a sinceridade em seus olhos a desarmando mais uma vez. “E você, Isadora, foi uma das poucas que sempre me viu além das fachadas.”
A conversa fluiu, surpreendentemente natural. Falaram sobre o ateliê dela, sobre os projetos dele, sobre a cidade que ambos amavam e que agora os reunia. Era como se os anos de silêncio tivessem desaparecido, substituídos por uma familiaridade reconfortante, mas perigosa.
De repente, uma mulher se aproximou deles. Era Sofia Oliveira, uma socialite conhecida por sua beleza e por sua antiga ligação com Miguel. Ela sorriu, um sorriso um tanto quanto forçado.
“Miguel, querido! Que bom te ver aqui”, disse Sofia, seus olhos fixos em Isadora com uma curiosidade indiscreta. “E essa é…?”
Miguel colocou a mão suavemente nas costas de Isadora, um gesto possessivo que a pegou de surpresa. “Sofia, esta é Isadora Montenegro. Minha… amiga.”
A palavra "amiga" soou estranha nos lábios de Miguel, mas o toque em suas costas enviou um calor pelo seu corpo. Isadora sorriu para Sofia, um sorriso polido. “Prazer em conhecê-la.”
Sofia retribuiu o sorriso, mas seus olhos a analisavam. “Montenegro… um nome interessante. E você, Isadora, mora aqui no Rio?”
“Sim. Construí minha vida aqui”, respondeu Isadora, sentindo-se cada vez mais desconfortável com a atenção de Sofia.
“Que bom! O Rio é mesmo um lugar para se construir a vida”, Sofia comentou, seus olhos voltando para Miguel. “Miguel e eu tivemos alguns momentos de… compartilhamento de projetos na época em que ele morava fora. Ele sempre teve um gosto refinado.”
A indireta era clara. Sofia estava reafirmando seu lugar na vida de Miguel. Isadora sentiu uma pontada de ciúmes, algo que ela jurava ter superado. Ela se afastou um passo, rompendo o contato físico com Miguel.
“Com licença, Miguel, Sofia. Preciso cumprimentar alguns convidados”, disse Isadora, sua voz firme.
Miguel a olhou, uma expressão indecifrável em seu rosto. “Claro, Isadora. Nos vemos mais tarde?”
“Se der”, ela respondeu, um tom evasivo.
Enquanto se afastava, Isadora sentiu os olhares de Sofia em suas costas. Era uma batalha silenciosa, um jogo de poder que ela não estava disposta a jogar. Mas, ao se afastar, ela não pôde deixar de olhar para trás. Miguel a observava, um misto de desejo e frustração em seus olhos. E naquele momento, Isadora soube que o passado não estava apenas batendo à sua porta, ele estava entrando com tudo, trazendo consigo as sombras e as paixões que ela tanto tentara esquecer. O Edifício Alcântara, com toda a sua opulência, parecia esconder segredos que ecoavam as dores de um amor perdido e a promessa de um reencontro que poderia reescrever suas histórias.