Amar foi meu Erro II
Capítulo 4 — As Cicatrizes Ocultas e a Tentação do Abismo
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 4 — As Cicatrizes Ocultas e a Tentação do Abismo
Os dias que se seguiram à recepção no Edifício Alcântara foram um turbilhão de emoções para Isadora. A presença de Miguel em sua vida era como um fantasma persistente, uma sombra que a seguia em todos os lugares. No ateliê, seus pensamentos divagavam, os cristais em suas mãos pareciam refletir as lembranças dele, as conversas na praia, os planos para o futuro que nunca se concretizaram. Luana percebia a angústia da amiga, mas sabia que algumas batalhas precisavam ser travadas em silêncio.
“Você precisa decidir o que quer, Dora”, Luana disse um dia, enquanto preparavam uma nova coleção. “Não dá pra ficar vivendo nesse limbo entre o passado e o presente. Ele voltou, você sabe disso. E ele não parece ter intenção de ir embora tão cedo.”
“Eu não sei o que quero, Lu. É como se houvesse uma força me puxando para ele, mas ao mesmo tempo, eu sinto medo. Medo de me machucar de novo”, confessou Isadora, a voz embargada. “Ele me deixou, Lu. Sumiu sem explicação. E agora ele volta como se nada tivesse acontecido?”
“Ninguém some sem motivo, Dora. E ninguém volta sem querer algo. Você precisa de respostas. E talvez… talvez ele precise te dar essas respostas”, Luana ponderou.
O destino, no entanto, parecia ter seus próprios planos para o reencontro. Uma semana depois, enquanto Isadora caminhava pela orla de Copacabana, o sol dourando o mar e a areia, ela o avistou. Miguel estava sentado sozinho em um quiosque, o olhar perdido no horizonte, a expressão pensativa. A brisa marítima bagunçava seus cabelos, e ele parecia mais solitário do que nunca.
A hesitação a tomou. Deveria se aproximar? Ou fingir que não o viu? Mas a necessidade de confrontá-lo, de buscar as respostas que a atormentavam, falou mais alto. Ela caminhou em sua direção, o som das ondas parecendo abafar os batimentos acelerados de seu coração.
“Miguel?”, ela chamou, a voz suave.
Ele ergueu o olhar, a surpresa estampada em seu rosto, seguida por um sorriso genuíno que iluminou seus olhos. “Isadora. Que coincidência deliciosa.” Ele se levantou, convidando-a a sentar-se ao seu lado. “Por favor, sente-se.”
Ela aceitou, sentindo a tensão diminuir um pouco com a gentileza dele. O quiosque estava quase vazio, apenas um casal distante e o garçom atento. A atmosfera era tranquila, a paisagem deslumbrante, mas o peso das palavras não ditas pairava no ar.
“Eu… eu não esperava te encontrar aqui”, Isadora começou, sem saber por onde começar.
Miguel pegou uma cerveja gelada do balcão. “Eu venho aqui às vezes. Para pensar. Para sentir a brisa do mar me levar para longe dos problemas.” Ele lhe estendeu uma cerveja. “Você aceita?”
“Aceito, obrigada.” Ela pegou a garrafa, o gelo frio contrastando com o calor em seu peito. “Miguel, eu preciso te perguntar… Por que você foi embora? Por que desapareceu da minha vida sem dizer nada?” A pergunta, reprimida por tanto tempo, finalmente escapou de seus lábios.
Miguel fechou os olhos por um instante, como se revivesse o momento em sua mente. Quando ele os abriu, a melancolia havia tomado conta de seu olhar. “Eu… eu não tive escolha, Isadora. Pelo menos, era o que eu pensava na época.”
“Não teve escolha? O que isso quer dizer, Miguel?”, ela insistiu, a voz carregada de mágoa. “Você me deixou aqui, sozinha, sem explicações. Eu passei anos sem saber o que aconteceu com você, se você estava vivo, se estava bem. Foi a pior dor que já senti.”
Ele segurou a garrafa com força, seus nós dos dedos brancos. “Minha família… eles me pressionaram. Havia uma situação delicada, um negócio que precisava do meu total envolvimento. E eles… eles me obrigaram a me afastar. Disseram que meu envolvimento com você era um risco para tudo o que eles haviam construído.” Ele respirou fundo, a dor visível em seu rosto. “Eu fui fraco, Isadora. Eu me deixei levar pela pressão. E o meu maior erro foi não ter lutado por nós. Foi ter partido sem te dar a chance de entender.”
As palavras dele a atingiram com força. A pressão familiar, a chantagem emocional… ela sabia que a família Alcântara era poderosa e influente, mas nunca imaginou que fossem capazes de algo tão cruel. “Então você… você foi obrigado a ir?”
“Obrigado é uma palavra fraca para descrever o que aconteceu. Foi uma manipulação cruel. Eles me fizeram acreditar que era o certo a fazer. Que era o melhor para todos. E eu… eu acreditei.” Ele a encarou, os olhos marejados. “Mas cada dia longe de você foi um tormento. A culpa me consumia. E eu prometi a mim mesmo que, um dia, eu voltaria para te explicar. Para tentar consertar o que eu quebrei.”
Isadora sentiu um nó na garganta. As lágrimas ameaçavam cair, mas ela as segurou. A dor ainda estava lá, as cicatrizes não haviam desaparecido completamente, mas a compreensão começava a emergir. A raiva que a consumia dava lugar a uma tristeza profunda, e uma ponta de esperança tênue.
“E por que agora, Miguel? Por que voltar depois de tanto tempo?”, ela perguntou, a voz mais calma agora.
“Eu me senti pronto”, ele respondeu. “Pronto para enfrentar as minhas escolhas, pronto para encarar a dor que eu causei. E pronto para tentar reconquistar o que eu perdi. Você, Isadora.”
O ar pareceu vibrar com a confissão dele. A tentação de se entregar a ele, de esquecer a dor e abraçar a esperança que ele oferecia, era avassaladora. Mas as cicatrizes eram profundas, e o medo de se machucar novamente a paralisava.
“Eu não sei se consigo, Miguel”, ela sussurrou, a voz trêmula. “Você me destruiu uma vez. Como posso confiar que não fará isso de novo?”
Ele estendeu a mão, tocando suavemente o rosto dela. O toque enviou um arrepio por todo o corpo de Isadora. “Eu sei que te machuquei. E essa dor nunca vai sumir de mim. Mas eu aprendi com os meus erros. E eu amo você, Isadora. Amo você mais do que tudo no mundo.”
O amor. A palavra ecoava em sua mente, um eco de um tempo em que ela acreditava nela, em que era o centro de seu universo. Olhar para Miguel, ver a sinceridade em seus olhos, a dor e o arrependimento que ele carregava, a fez questionar tudo o que ela pensava ter superado. A praia, antes um lugar de tranquilidade, agora se tornara o palco de uma decisão crucial. O abismo do passado a chamava, e a tentação de saltar, de se entregar a ele, era quase insuportável. Mas o medo de cair, de se perder novamente, a mantinha presa à beira.