Amar foi meu Erro II
Capítulo 7 — O Legado Sombrio e a Trama de Sofia
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — O Legado Sombrio e a Trama de Sofia
A manhã seguinte amanheceu com um céu cinzento e melancólico, um reflexo do turbilhão de emoções que ainda pairava sobre Clara. O beijo da noite anterior, a confissão de Rafael, a promessa de um novo começo… tudo isso a envolvia em uma névoa de esperança e apreensão. Ela estava sentada à mesa da cozinha em seu pequeno apartamento, o café fumegante em suas mãos, mas seus pensamentos vagavam, incapazes de se fixar em qualquer coisa concreta. A lembrança do toque de Rafael, do calor de seus lábios, ainda era vívida, mas a sombra de Sofia, e o mistério que a envolvia, começava a se estender sobre aquele sentimento recém-descoberto.
O testamento de sua tia-avó, Helena, havia sido claro. O legado de Helena, a coleção de joias antigas e a casa histórica, estava condicionado a um período de convivência com Rafael, o filho do ex-sócio de seu pai, e a quem Helena parecia ter confiado algo de extrema importância. Clara ainda não entendia o porquê dessa ligação, e a presença de Sofia na vida de Helena, como sua secretária e confidente, tornava tudo ainda mais nebuloso. Havia algo estranho na forma como Sofia se movia, como seus olhos pareciam observar tudo, como um predador silencioso.
Rafael a havia prometido que tentaria descobrir mais sobre o motivo pelo qual Helena o incluiu no testamento, mas até então, o silêncio era o único que falava. Clara sentia que algo estava sendo ocultado, e a ansiedade a corroía. Ela precisava entender a verdade, por mais dolorosa que fosse, antes de se permitir mergulhar novamente nos braços de Rafael. A história deles era intrinsecamente ligada a segredos, e ela temia que a repetição pudesse ser devastadora.
Um toque na porta a fez pular. Era ele. Rafael. Ele apareceu no seu campo de visão, um sorriso leve nos lábios, mas com um brilho de preocupação nos olhos. Ele trazia consigo um envelope grosso, um selo discreto e elegante.
"Bom dia", ele disse, a voz ainda com o timbre rouco da manhã. Ele entrou, o apartamento modesto de Clara contrastando com o luxo que ela vira em sua casa. "Eu encontrei isso na minha caixa de correio esta manhã. Pareceu… importante."
Clara pegou o envelope, sentindo o peso da informação que ele podia conter. A caligrafia era elegante e formal. Era um convite. Um convite para um leilão de arte beneficente organizado pela Fundação Alcântara, a mesma instituição que Sofia gerenciava com tanta dedicação.
"Fundação Alcântara…", Clara murmurou, a testa franzida. "Sofia é a diretora. E essa fundação… tem a ver com a família Alcântara, certo?"
Rafael assentiu. "Sim. É uma instituição de caridade que se dedica a preservar o patrimônio cultural e a apoiar artistas emergentes. O pai de Sofia, o Sr. Alcântara, a fundou há muitos anos. Sofia assumiu a direção após a morte dele."
Enquanto ele falava, Clara abriu o convite. Um sorriso discreto se formou em seus lábios ao ler os nomes dos patrocinadores principais. Helena estava entre eles. E, claro, Sofia.
"Sua tia-avó era uma grande incentivadora das artes", Rafael comentou, observando a expressão de Clara. "Ela acreditava que a arte tinha o poder de curar, de transformar. Assim como você."
O elogio, mesmo que inocente, fez o coração de Clara acelerar. Ela ainda não sabia como lidaria com a intensidade dos sentimentos de Rafael, com a promessa de um futuro que parecia tão incerto. Mas a ligação com Helena e a fundação pareciam ser um fio condutor entre eles.
"O leilão é em uma semana", Clara disse, a voz mais firme agora. "Talvez seja uma oportunidade. Talvez possamos descobrir algo sobre o passado de Helena, ou sobre… Sofia."
Rafael se aproximou, o olhar fixo no dela. "Eu também pensei nisso. Sofia estará lá, sem dúvida. E quem sabe, talvez outros nomes importantes da vida de sua tia-avó apareçam." Ele hesitou por um momento, então pegou a mão dela. "Clara, eu sei que você tem receios, e eu entendo. Mas eu quero te proteger. Quero entender o que está acontecendo. Se você me permitir, quero estar ao seu lado nisso."
A oferta de Rafael, a sinceridade em seus olhos, era reconfortante. Ele estava disposto a enfrentar o passado com ela, a desvendar os mistérios que os cercavam. E isso, por si só, significava muito.
"Eu preciso entender, Rafael. Preciso saber por que Helena me deixou aquele legado, por que você está envolvido nisso. E preciso saber a verdade sobre Sofia."
Enquanto eles conversavam, o telefone de Clara tocou. Era Miguel, seu colega de trabalho. Ele estava preocupado com um projeto que eles estavam desenvolvendo, e Clara precisou se concentrar na conversa, deixando os pensamentos sobre Rafael e o passado um pouco de lado.
"Sim, Miguel, eu entendi. O deadline é sexta-feira, certo? Eu vou terminar a revisão das planilhas hoje mesmo. E quanto à apresentação… podemos ensaiar amanhã depois do expediente?"
Rafael a observava enquanto ela falava, um sorriso discreto nos lábios. Ele admirava sua dedicação, sua força. Mesmo em meio ao turbilhão pessoal, ela mantinha o profissionalismo.
Após desligar o telefone, Clara suspirou. "Desculpe. Trabalho. Mas você tem razão. Precisamos descobrir o que está acontecendo."
"Eu sei que você tem suas responsabilidades", Rafael disse, a voz suave. "Eu só quero que você saiba que eu estou aqui. Para o que precisar."
Aquele dia se desenrolou com uma tensão latente, com os pensamentos de Clara divididos entre o trabalho, a memória do beijo com Rafael e a apreensão sobre o futuro. A Fundação Alcântara e o leilão se tornaram um ponto focal, uma esperança de respostas em meio à incerteza.
Naquela noite, Clara recebeu uma mensagem de Sofia. Era formal e direta, convidando-a para uma reunião na sede da Fundação Alcântara na próxima semana, antes do leilão. O motivo alegado era para "discutir a participação de Helena e o legado da família nas atividades da fundação".
Clara sentiu um arrepio. Sofia estava claramente jogando suas cartas, tentando controlar a narrativa. Ela sabia que precisava ir, mas a ideia de estar a sós com Sofia a deixava apreensiva.
"Eu preciso ir, Rafael", Clara disse a ele por telefone, a voz tensa. "Sofia me convidou para uma reunião. Ela quer falar sobre Helena e a fundação."
"Eu vou com você", Rafael respondeu imediatamente, sem hesitação. "Não vou deixar você enfrentar isso sozinha."
"Mas o quê você vai dizer? Você não tem nada que a ligue oficialmente à Helena, além do que está no testamento."
"Eu tenho minhas próprias suspeitas, Clara. E tenho a sensação de que Sofia sabe muito mais do que demonstra. Eu quero estar lá para observar, para ouvir. E para garantir que você esteja segura."
A determinação de Rafael era palpável. Ele estava decidido a desvendar os segredos, e Clara sabia que ele era sua melhor chance. A reunião com Sofia seria um confronto velado, um jogo de xadrez onde cada movimento, cada palavra, teria um significado. O legado de Helena, as joias, a casa… tudo isso era apenas a ponta do iceberg. A verdadeira batalha seria pela verdade, e pela capacidade de seguir em frente, livres das sombras do passado. O leilão beneficente da Fundação Alcântara se tornava não apenas um evento social, mas o palco para uma possível revelação, um ponto de virada na história de Clara e Rafael, e uma oportunidade para desmascarar as maquinações de Sofia.