Amor nas Alturas II

Amor nas Alturas II

por Valentina Oliveira

Amor nas Alturas II

Por Valentina Oliveira

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Capítulo 1 — O Eco de um Adeus Inesperado

O sol da manhã, teimoso em sua ascensão, espreitava por entre as cortinas de linho pesado do quarto, lançando raios dourados sobre o rosto sereno de Isabella. O aroma de café fresco, preparado com o esmero de Dona Maria, a governanta fiel, pairava no ar, um convite à rotina que ela tanto prezava. Mas naquele dia, a rotina parecia um eco distante, abafado pela tempestade que se formava em seu peito. Isabella, uma mulher de trinta e poucos anos, cujos olhos azuis profundos abrigavam a sabedoria de quem já amou e sofreu, sentia um arrepio percorrer sua espinha. Não era o frio da manhã, mas a prenuncia de algo que a sociedade paulistana, com seus véus de formalidade e seus códigos silenciosos, ainda não havia revelado.

A mansão nos Jardins, outrora palco de risadas e confidências, agora exalava um silêncio pesado. A notícia chegara na noite anterior, como um raio em céu azul, desmantelando a paz que ela construíra com tanto esforço. Ricardo, seu noivo, o homem que prometera ser o porto seguro de seus sonhos, havia partido. Sem aviso, sem explicações. Apenas um bilhete deixado sobre a mesinha de cabeceira, com a caligrafia elegante que ela conhecia tão bem, mas cujas palavras eram frias como o aço. “Preciso ir. Não espere.”

Isabella se levantou da cama, o corpo ainda pesado pelo sono e pela angústia. Caminhou até a janela, afastando as cortinas. A vista era deslumbrante: o verde exuberante do jardim bem cuidado, as roseiras em plena floração, um cenário que sempre a acalmava. Mas hoje, a beleza parecia zombar de sua dor. As rosas, tão vibrantes, contrastavam com a palidez de seu rosto no reflexo do vidro.

“Bom dia, Dona Isabella”, disse Dona Maria, entrando com uma bandeja de prata. O olhar preocupado da governanta, que a servia desde a infância, era um espelho da sua própria angústia. “Trouxe seu café. O senhor Ricardo… ele já saiu?”

A voz de Dona Maria embargou-se no final da pergunta. Ela sabia, de alguma forma, que algo estava errado.

Isabella respirou fundo, tentando recompor-se. “Sim, Dona Maria. Ele saiu cedo. Tinha uma emergência, disse que não podia adiar.” A mentira saiu em um sussurro, um véu fino para cobrir a ferida exposta.

“Emergência? De madrugada?”, Dona Maria insistiu, com a sabedoria inata das mulheres que já viram de tudo. “Ele não parecia com pressa ontem à noite, quando o senhor Felipe ligou para ele.”

O nome de Felipe, o sócio e melhor amigo de Ricardo, atingiu Isabella como um golpe. Felipe. Um homem carismático, com um sorriso fácil e um olhar penetrante, sempre presente em suas vidas, mas que, para Isabella, sempre representara uma sombra discreta na felicidade que ela compartilhava com Ricardo.

“Felipe ligou?”, Isabella perguntou, a voz mais forte agora, um toque de desconfiança se misturando à dor. “Não me disse nada.”

Dona Maria abaixou o olhar, mexendo na bandeja. “O senhor Ricardo pediu para não incomodar a senhora. Disse que era assunto de negócios, muito importante.”

Negócios. Sempre negócios. Ricardo era um homem de negócios, ambicioso, determinado, e Isabella sempre admirara isso nele. Mas agora, a palavra soava oca, uma desculpa esfarrapada.

Ela se serviu do café, mas o sabor amargo parecia se misturar à melancolia. Sentou-se à mesa da sala de jantar, um espaço que testemunhara tantos jantares românticos, tantas celebrações. O silêncio era ensurdecedor.

“Dona Maria”, Isabella disse, a voz mais firme. “Preciso que a senhora me diga tudo o que sabe sobre a ligação do senhor Felipe. Sem omitir nada.”

Dona Maria hesitou por um momento, o peso da lealdade dividida evidente em seu rosto. Mas o sofrimento de Isabella a tocou. “O senhor Ricardo recebeu a ligação por volta das dez da noite. Falou em voz baixa, mas eu ouvi ele dizer… ‘Se ela descobrir, tudo estará perdido’. Depois ele se trancou no escritório por horas. Eu o vi sair pouco antes do amanhecer, com uma mala pequena.”

“Perdido?”, Isabella repetiu, a palavra ecoando em sua mente. “O que poderia estar perdido? E por que ela?” A identidade de “ela” era clara: ela mesma.

A confusão deu lugar à raiva. Uma raiva fria e calculista que a surpreendeu. Era a raiva de quem se sentiu traída, enganada. Ela se levantou abruptamente, a cadeira rangendo no assoalho de madeira.

“Obrigada, Dona Maria. A senhora pode se retirar.”

Sozinha novamente, Isabella caminhou até o escritório de Ricardo. O local, impecavelmente organizado, era um reflexo da mente dele: metódica, controlada. Ela abriu a gaveta da escrivaninha, procurando algo, qualquer coisa, que pudesse explicar. E encontrou. Um envelope grosso, escondido sob uma pilha de documentos. O nome dela estava escrito em letras grandes e cursivas: “Para Isabella, caso algo aconteça.”

Com as mãos trêmulas, ela rasgou o envelope. Dentro, havia uma carta e uma fotografia. A carta… era mais um adeus, mas desta vez com palavras cruéis.

“Isabella, meu amor. Se você está lendo isto, significa que não fui corajoso o suficiente para te contar pessoalmente. Preciso partir, sem olhar para trás. Minha vida tomou um rumo que não posso mais controlar. Havia coisas que eu escondi de você, segredos que me assombram. Acredite, nunca foi minha intenção te machucar. Eu te amo, mas o amor não é suficiente para apagar o passado. Fui um covarde. Perdoe-me, se puder. Ricardo.”

O coração de Isabella apertou. Segredos. Passado. As palavras ecoavam a conversa de Dona Maria. Ela virou a fotografia. Era uma foto antiga, desbotada pelo tempo. Nela, um Ricardo jovem, sorridente, abraçado a uma mulher morena, com traços exóticos e um sorriso radiante. E ao lado deles, um menino, com os mesmos olhos azuis profundos de Isabella.

Um nó se formou em sua garganta. Quem era aquela mulher? E aquela criança? Por que aquele homem, o homem que ela amava, o homem que estava prestes a se tornar seu marido, teria um segredo tão profundo, um segredo que ele preferiu esconder em uma carta e em uma fotografia?

Ela se sentiu afogar em um mar de incertezas. O amor que sentia por Ricardo, tão forte, tão real, de repente parecia frágil, construído sobre uma fundação de mentiras. A mansão, antes seu refúgio, agora parecia uma gaiola dourada, cheia de fantasmas.

“Não espere”, as palavras de Ricardo na carta pareciam gritar em seu ouvido. Mas como ela poderia não esperar? Como ela poderia não querer desvendar o mistério que se escondia por trás do homem que ela jurara amar para sempre?

Com a fotografia em mãos, Isabella sentiu uma nova determinação surgir em meio à dor. Ela não se deixaria abater. Ela descobriria a verdade. A verdade sobre Ricardo, sobre seus segredos, sobre a mulher e a criança na foto. A verdade era a única coisa que poderia libertá-la daquela prisão de incertezas.

Ela olhou para a cidade através da janela, o horizonte de arranha-céus imponentes. São Paulo, a cidade que tudo via e tudo escondia. Ali, em meio à selva de pedra, ela começaria sua busca. A busca por uma verdade que talvez a destruísse, mas que, se ela sobrevivesse, a tornaria mais forte. A busca por Ricardo, não o homem perfeito que ela pensava conhecer, mas o homem real, com suas falhas e seus segredos. E, talvez, a busca por um amor que, mesmo nas alturas, pudesse encontrar seu chão.

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