Amor nas Alturas II
Capítulo 17 — O Confronto na Aurora Cinzenta
por Valentina Oliveira
Capítulo 17 — O Confronto na Aurora Cinzenta
O sol despontava no horizonte, tingindo o céu de um cinza melancólico, como se a própria natureza ainda estivesse se recuperando da fúria da noite. Helena dirigia de volta para a mansão, o cansaço pesando em seus ombros, mas a mente afiada como uma navalha. As provas que ela carregava eram um fardo e um escudo, a arma que ela usaria contra o homem que havia destruído sua família. Ela estacionou o carro na garagem, a poucos metros do de Victor, e entrou na casa com a discrição de um predador.
Os criados já circulavam pela mansão, preparando o café da manhã, organizando o dia. Helena os cumprimentou com um aceno breve, o olhar distante. Ela sabia que precisava ter uma conversa com Victor, uma conversa sem máscaras, sem dissimulações. E seria ali, naquele momento, antes que o dia se instalasse completamente, antes que as aparências pudessem ser mantidas.
Ela o encontrou na sala de estar principal, degustando um café expresso, com os jornais do dia espalhados à sua frente. Victor parecia relaxado, confiante, alheio à tempestade que se formava em torno dele. Ao vê-la, um sorriso largo iluminou seu rosto.
"Bom dia, querida. Dormiu bem? Pensei que você estivesse exausta depois da viagem." Ele se levantou e se aproximou para beijá-la, mas Helena desviou, um gesto sutil que ele pareceu não notar, ou preferiu ignorar.
"Victor, precisamos conversar", disse ela, a voz firme, desprovida da suavidade que ele estava acostumado a ouvir.
Ele arqueou uma sobrancelha, o sorriso vacilando por um instante. "Claro, Helena. Aconteceu alguma coisa? Você parece… diferente."
Helena caminhou até a lareira, onde as cinzas da noite anterior ainda repousavam. Era ali, em meio aos restos do fogo, que ela sentia que a verdade deveria ser exposta. Ela tirou a bolsa e retirou os documentos, espalhando-os sobre a mesa de centro, entre as xícaras de café e os jornais.
"O que é isso, Helena?", perguntou Victor, o tom de voz agora tingido de apreensão. Ele se aproximou da mesa, os olhos percorrendo os papéis com uma velocidade alarmante.
"São as provas, Victor", ela disse, a voz embargada pela emoção, mas pela raiva contida. "As provas de que você destruiu a minha família. De que você matou o meu pai."
O rosto de Victor empalideceu. O copo de café que ele segurava tremeu em sua mão, derramando algumas gotas escuras sobre o tapete persa. "Do que você está falando? Isso é um absurdo!"
"Um absurdo? Quer que eu leia para você, Victor? Ou talvez que você ouça a gravação? A voz do meu pai, implorando por uma explicação que você nunca deu." Ela pegou o pequeno gravador de voz, a mão firme agora.
Victor deu um passo para trás, o corpo tenso, os olhos arregalados, fixos em Helena como se ela fosse uma aparição sinistra. "Você não pode ter isso. Isso… isso é impossível."
"Impossível? Mais impossível do que a sabotagem de um avião? Mais impossível do que incriminar um irmão inocente? Mais impossível do que roubar a empresa que pertencia ao meu pai?" As palavras saíam de seus lábios como flechas envenenadas, cada sílaba carregada de dor e acusação.
"Helena, você está sendo manipulada. Alguém plantou isso em você. Rafael, não é? Aquele desgraçado sempre foi um traidor." A voz de Victor era um misto de desespero e fúria. Ele tentava reverter a situação, jogando a culpa em Rafael, o inimigo que ele mesmo criara.
"Não me venha com essa, Victor. Eu fui até a antiga residência dos Vasconcelos. Eu vi tudo. O cofre, as provas, a gravação. Você achou que eu era uma idiota, não é? Que viveria em uma mentira para sempre, casada com o assassino do meu pai." As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Helena, não de tristeza, mas de indignação.
Victor deu um passo à frente, a máscara de preocupação desmoronando, revelando a crueldade que se escondia por trás dela. "Você é tola, Helena. Tola e ingênua. Eu fiz o que era preciso para garantir o nosso futuro. Para garantir que a empresa prosperasse. Seu pai era fraco, sentimental. Ele não sabia administrar o poder."
"Poder? Você fala de poder como se fosse um deus! Mas o seu poder foi construído sobre a mentira e a morte! Você roubou tudo de nós, Victor! A minha paz, a memória do meu pai, o meu amor!" Ela gritou, a voz ressoando pelo salão, quebrando o silêncio opressor.
"Você não entende nada!", ele rugiu, os olhos vermelhos de raiva. "Eu te dei tudo o que você quis! Uma vida de luxo, conforto! Você é minha, Helena! Sempre foi minha!"
"Eu nunca fui sua! Eu nunca amei você! Eu amei Rafael! E você sabia disso! Você usou a minha dor, a minha fragilidade, para me manipular, para me manter perto de você!" Helena sentiu um nó na garganta, a dor de anos de engano a consumindo.
Victor avançou em sua direção, as mãos cerradas em punhos. "Você vai se arrepender de ter dito isso, Helena. Você e aquele maldito Rafael vão pagar por terem ousado me desafiar!"
Mas Helena não recuou. Ela olhou para ele, a força que ela não sabia que possuía emergindo em seu olhar. Ela ergueu o gravador, o pequeno objeto parecendo agora um símbolo de sua resistência. "Eu não tenho mais medo de você, Victor. A verdade está aqui. E ela vai te destruir."
De repente, um som de sirenes se aproximou. Luzes azuis e vermelhas começaram a piscar nas janelas. Helena olhou para Victor, que se virou com surpresa e pânico. "Como… como isso é possível?"
"Eu não estou sozinha, Victor. Rafael me ajudou. E agora, a polícia está aqui para te levar."
Victor olhou para os papéis espalhados sobre a mesa, para o gravador nas mãos de Helena, e para as sirenes que se aproximavam. Seu rosto se contorceu em uma máscara de derrota e desespero. Ele tentou fugir, mas foi interceptado pelos policiais que invadiram a sala.
O confronto na aurora cinzenta havia chegado ao fim. A verdade, como o sol que lutava para romper as nuvens, finalmente havia surgido, trazendo consigo a promessa de justiça, mas também a dor de um amor quebrado e de uma vida inteira de mentiras. Helena observou Victor ser levado, o coração apertado, mas com a certeza de que, finalmente, a paz poderia começar a reinar. O caminho à frente seria árduo, mas ela estava pronta para trilhá-lo, com a verdade como sua única companheira.