Amor nas Alturas II
Capítulo 3 — O Sussurro das Lembranças em um Beco Esquecido
por Valentina Oliveira
Capítulo 3 — O Sussurro das Lembranças em um Beco Esquecido
A mansão nos Jardins, antes um símbolo de segurança e amor, agora parecia um mausoléu de esperanças desfeitas. Isabella vagava pelos cômodos, cada objeto, cada móvel, um lembrete constante da presença de Ricardo, e da ausência que agora a sufocava. A carta e a fotografia jaziam sobre a mesa de centro da sala de estar, as únicas pistas tangíveis de um passado que ela não conhecia. O nome “Sofia” e o nome do menino, que ela supôs ser “Miguel”, ecoavam em sua mente como um mantra doloroso.
Ela precisava de ar, precisava de um lugar onde pudesse pensar sem a opressão daquela casa cheia de memórias. A fotografia, em particular, a atraía. Havia algo naquele sorriso de Sofia, algo na forma como Ricardo a abraçava, que evocava uma história que ia além de um simples “relacionamento do passado”.
Decidiu voltar ao local onde as lembranças pareciam mais vivas, mais palpáveis. A galeria de arte que ela e Ricardo frequentavam juntos, um pequeno refúgio de beleza e inspiração no burburinho da cidade. Ela esperava, talvez, encontrar um lampejo de verdade nas obras expostas, ou talvez apenas se perder na arte para fugir da realidade.
Ao chegar, o aroma de tinta fresca e verniz acolheu-a, um perfume familiar que a confortou. A galeria pertencia a um velho amigo de Ricardo, um galerista excêntrico chamado Arthur, conhecido por seu bom gosto e sua língua afiada.
“Isabella, minha querida! Que bom te ver!”, exclamou Arthur, surgindo de trás de um quadro vibrante. Seus cabelos grisalhos estavam desalinhados, e seus olhos azuis cintilavam de inteligência. “Mas… você parece um pouco… abatida. Ricardo não está com você hoje?”
Isabella sentiu um aperto no peito. “Ricardo… ele teve que viajar, Arthur. De última hora.” A mentira já saía com mais naturalidade, mas a cada vez, a dor se intensificava.
Arthur a observou com atenção, seus olhos perscrutando além da fachada que ela tentava manter. “Viagem, é? Ricardo tem dessas coisas. Um voo repentino para resolver negócios… ou paixões?” Ele deu um sorriso malicioso, mas seus olhos mantiveram a preocupação.
Isabella engoliu em seco. “Arthur, você conhece o Ricardo há muito tempo, não é? Desde a época da faculdade?”
“Ah, sim! Desde as noites em que passávamos bebendo cerveja barata e sonhando com o futuro. Ele sempre foi um sonhador ambicioso, mas com os pés no chão. Um homem de negócios nato. Mas… havia também um lado dele que poucos conheciam.”
O coração de Isabella disparou. “Um lado que poucos conheciam? Que lado, Arthur?”
Arthur se aproximou, baixando a voz como se compartilhasse um segredo. “Havia uma moça… Sofia. Uma artista plástica. Eles se conheceram em uma exposição aqui mesmo, anos atrás. Uma paixão avassaladora. Ela era… diferente. Livre, intensa. Completamente diferente das moças da nossa sociedade. Eles eram inseparáveis por um tempo. Eu achava que ele iria se casar com ela.”
As palavras de Arthur confirmavam tudo o que Felipe havia dito, mas com uma nuance diferente, mais pessoal, mais real. A fotografia parecia ganhar vida em sua mente.
“Eles tiveram um filho, não tiveram?”, Isabella perguntou, a voz embargada.
Arthur assentiu lentamente. “Sim, um garoto lindo. Miguel. Criado entre tintas e telas, como a mãe. Ricardo… ele amava esse filho. Mas a vida com Sofia era turbulenta. As brigas, a instabilidade. Ele sempre disse que a amava, mas que não podia viver daquela forma. E então, um dia, eles simplesmente… se separaram. Sofia ficou com Miguel, e Ricardo… ele se dedicou aos negócios e, eventualmente, a você.”
“Sofia… ela faleceu?”, Isabella perguntou, a pergunta pesada em seus lábios.
Arthur suspirou. “Sim, há alguns anos. Um acidente terrível. Ela estava dirigindo… uma daquelas estradas sinuosas que levam para o litoral. Ricardo ficou devastado. Ele tentou assumir a guarda de Miguel, mas a família de Sofia lutou muito. Eram pessoas complicadas, com dinheiro e influência. No final, Miguel ficou com a tia, uma mulher… peculiar.”
“Peculiar? Como assim peculiar?”, Isabella indagou, sentindo uma onda de apreensão.
“Ela era muito apegada a Sofia, e via Ricardo como o responsável pela infelicidade dela. Era uma relação tensa, cheia de ressentimentos. Ricardo tentava manter contato com Miguel, mas era difícil. A tia sempre o colocava contra o pai.”
Isabella sentiu um nó na garganta. O filho, Miguel. A tia ressentida. A imagem de Ricardo, dividido entre o amor por ela e o dever para com o filho, começou a se formar em sua mente, mas ainda com lacunas sombrias.
“Onde Sofia expunha o trabalho dela?”, Isabella perguntou, mudando de assunto abruptamente. “Você ainda tem contato com alguém que a conhecia?”
Arthur a olhou com curiosidade. “Sofia… ela era talentosa, mas não comercial. Ela preferia expor em lugares mais… underground. Havia um pequeno ateliê, numa rua esquecida no centro da cidade, que ela frequentava muito. Talvez você encontre algo lá. Eu me lembro de ter visto uma vez um quadro que ela pintou de Ricardo… era… intenso. Cheio de dor e paixão. Chamava-se ‘A Sombra do Amado’.”
A sombra do amado. A frase ressoou em Isabella. Era exatamente isso que ela sentia que Ricardo representava agora: uma sombra. Ela anotou o endereço do ateliê que Arthur lhe deu, agradeceu a ele e saiu da galeria, o coração acelerado.
A rua que Arthur mencionou era um labirinto de prédios antigos e becos estreitos no centro de São Paulo. O ateliê de Sofia era um local discreto, com uma fachada desgastada e uma porta de madeira pesada. Isabella hesitou por um momento, um misto de receio e curiosidade a impulsionando para a frente.
Ao abrir a porta, um cheiro de mofo e poeira a atingiu. O local era pequeno, escuro, mas as paredes estavam repletas de pinturas inacabadas, esboços, pincéis secos e latas de tinta espalhadas. Era um santuário de uma artista que vivera intensamente e morrera tragicamente.
Ela caminhou lentamente, observando cada detalhe. Havia retratos de Miguel, cheios de ternura, e paisagens urbanas sombrias. E então, em um canto mais afastado, pendurado em uma parede descascada, ela o viu.
O quadro. “A Sombra do Amado”. Era um retrato de Ricardo, mas não o Ricardo que ela conhecia. Era um Ricardo sombrio, com os olhos fundos, emoldurado por sombras que pareciam devorá-lo. Ao lado dele, quase se fundindo à sua sombra, estava a figura translúcida de Sofia, seus braços envolvendo-o, seus olhos fixos em um ponto distante. A pintura transmitia uma sensação de desespero, de um amor que era ao mesmo tempo posse e tortura.
Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A intensidade da obra era avassaladora. Era a visão de uma mulher apaixonada, sim, mas também atormentada, que via em Ricardo não apenas um amor, mas uma prisão.
Enquanto examinava o quadro, seus dedos tocaram algo atrás da tela. Era um pequeno caderno de capa dura, escondido na moldura. Com as mãos trêmulas, ela o abriu.
As páginas estavam repletas da caligrafia elegante e apaixonada de Sofia. Eram anotações de seus pensamentos, de seus medos, de seu amor por Ricardo e por Miguel. Mas entre as páginas de devaneios artísticos e declarações de amor, Isabella encontrou algo mais perturbador.
Trechos de conversas com Ricardo. Frases que revelavam uma dependência sufocante. “Ele não pode me deixar, Miguel. Ele é tudo o que eu tenho.” “Se ele me deixar, eu não sei o que serei capaz de fazer.” E, em uma das últimas páginas, uma anotação que a fez gelar: “Ricardo está com outra. Essa Isabella… ela é perigosa. Ela vai roubar ele de mim. Eu preciso fazer alguma coisa. Eu não posso perder ele para sempre.”
Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. O acidente de Sofia não fora um simples acidente. Havia algo mais. Algo que Sofia planejava fazer, algo que envolvia Isabella.
Ela folheou o caderno mais rapidamente, buscando desesperadamente por mais informações. E então, em uma página rabiscada com fúria, ela encontrou. Um plano. Um plano para se livrar de Isabella. Um plano para garantir que Ricardo ficasse com ela, com Sofia. E, logo abaixo, a data do seu próprio acidente.
O choque a atingiu como um raio. Sofia não morreu em um acidente. Ela… ela forjou a própria morte? Ou tentou algo contra Isabella, e algo deu errado?
A fotografia de Ricardo sorrindo com Sofia e Miguel agora parecia uma imagem sinistra, um símbolo de um passado sombrio e perigoso. As palavras de Felipe sobre o passado de Ricardo começaram a ganhar um novo significado. Ele não estava apenas fugindo de um romance do passado, ele estava fugindo de um perigo que ele mesmo não compreendia totalmente.
Isabella saiu do ateliê, o caderno firmemente apertado em suas mãos. A luz do sol da tarde parecia fraca, incapaz de dissipar a escuridão que a envolvia. A busca pela verdade havia se tornado uma corrida contra o tempo, contra segredos perigosos e talvez, contra uma mulher que ela pensou estar morta. A imagem de Ricardo fugindo, e o bilhete “Não espere”, agora ganhavam um sentido sombrio. Ele sabia que Sofia não estava morta? Ou ele estava fugindo de algo que ele mesmo fez, ou que ele não conseguiu impedir? A verdade era um labirinto, e Isabella estava cada vez mais perdida em seus corredores sombrios.
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