Amor nas Alturas II
Capítulo 4 — O Jogo Sombrio de um Fantasma Ressurgido
por Valentina Oliveira
Capítulo 4 — O Jogo Sombrio de um Fantasma Ressurgido
O peso do caderno de Sofia em suas mãos era quase insuportável. Isabella sentia o cheiro de tinta e poeira do ateliê ainda impregnado em suas roupas, um lembrete constante da descoberta aterradora. As palavras de Sofia, a confissão de seus planos contra ela, pintavam um quadro sombrio de uma mulher desesperada, capaz de tudo por amor. Mas a maior dúvida persistia: Sofia estava mesmo morta?
De volta à segurança – ou à ilusão de segurança – de sua mansão, Isabella releu as anotações de Sofia. A data do acidente, tão próxima da última entrada do caderno. A fúria nas palavras. A menção de “fazer alguma coisa”. Era muita coincidência para ser acidente. E a viagem de Ricardo, a súbita necessidade de sumir, o bilhete para ela… tudo se encaixava de forma sinistra. Ricardo sabia de algo. Ele sabia que Sofia não estava morta, ou suspeitava?
Ela pegou o telefone, as mãos ainda trêmulas, e discou o número de Felipe. Precisava dele. Precisava de alguém que entendesse o mundo de Ricardo, alguém que pudesse decifrar os sinais que ela não conseguia.
“Felipe, sou eu. Isabella. Precisamos conversar. Agora.”
Felipe, com a voz um pouco rouca, concordou em encontrá-la em um café discreto no bairro de Pinheiros. Isabella chegou primeiro, pedindo um chá de camomila, na esperança de acalmar os nervos em frangalhos.
Felipe chegou minutos depois, o semblante preocupado. Sentou-se à mesa, seus olhos fixos nos dela. “O que houve, Isabella? Você parece assustada.”
Isabella não hesitou. Ela colocou o caderno sobre a mesa e empurrou-o na direção dele. “Leia isso, Felipe. Leia e me diga se eu estou imaginando coisas, ou se o passado de Ricardo é ainda mais sombrio do que você me contou.”
Felipe abriu o caderno, seus olhos percorrendo as páginas com uma velocidade surpreendente. Sua expressão, inicialmente preocupada, transformou-se em espanto, depois em um horror mudo. Ele leu as anotações de Sofia, a confissão de seus planos contra Isabella, e a data do seu próprio acidente.
Quando terminou, ele ergueu os olhos para Isabella, seu rosto pálido. “Meu Deus… Isabella… eu não fazia ideia. Ricardo nunca me contou nada disso. Ele sempre disse que Sofia morreu em um acidente. Ele ficou arrasado.”
“Arrasado por quê, Felipe? Por uma morte real, ou por um plano que deu errado? Ele estava fugindo de mim? Ou ele estava fugindo dela? Ou ele estava fugindo porque sabia que ela não estava morta?” A voz de Isabella era um misto de desespero e acusação.
Felipe suspirou profundamente, passando a mão pelo rosto. “Eu não sei, Isabella. Ricardo é meu amigo há anos, mas ele sempre foi um mistério em muitos aspectos. Havia coisas que ele guardava para si. Mas se Sofia… se ela orquestrou tudo isso… e se ela está viva… então o comportamento dele faz sentido. Ele sabia que ela era perigosa. Ele sabia que ela não o deixaria em paz.”
“E o filho? Miguel? O que acontece com ele se ela estiver viva? E se ela tentou algo contra mim, o que mais ela seria capaz de fazer?”, Isabella perguntou, a voz embargada.
“Ricardo estava preocupado com Miguel. Por isso a viagem. Ele queria garantir que o garoto estivesse seguro. Havia questões com a tia dele, a irmã de Sofia, que sempre foi instável. Se Sofia estiver viva, ela pode tentar pegar Miguel de volta. E se ela está obcecada em recuperar Ricardo, ela pode usar o filho para isso.”
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Isabella. A ideia de Sofia, viva e manipuladora, usando o próprio filho como arma, era aterradora.
“E por que Ricardo foi embora? Por que me deixar sem explicações? Por que o bilhete ‘Não espere’?”
Felipe fechou os olhos por um instante, ponderando. “Talvez ele quisesse te proteger. Se Sofia estiver viva e planejando algo, o melhor para ele seria te afastar. Te deixar fora do alcance dela. E o bilhete… talvez fosse uma forma de te dar um ultimato, de te dizer para seguir em frente, para não se prender a ele enquanto ele estivesse envolvido nessa confusão.”
“Seguir em frente? Quando o homem que eu amo está envolvido em um jogo sombrio com uma mulher que pode estar viva e querendo me destruir?”, Isabella retrucou, a voz carregada de dor. “Não, Felipe. Eu não vou seguir em frente. Eu preciso saber a verdade. Eu preciso encontrar o Ricardo.”
“Mas onde encontrá-lo, Isabella? Ele não deixou rastros.”
“Ele foi para Nova Iorque, certo? Foi o que a recepcionista da Aura disse. Talvez ele esteja lá, tentando resolver as coisas. Ou talvez ele esteja fugindo. Preciso ir para lá.”
Felipe a encarou, surpreso. “Nova Iorque? Isabella, isso é loucura. Se Sofia estiver viva, ela pode estar te seguindo. Viajar sozinha pode ser perigoso.”
“Eu não tenho escolha, Felipe. Eu preciso saber o que está acontecendo. Preciso entender o que se passa na cabeça do Ricardo. E preciso proteger a mim mesma, e talvez, o Miguel.”
Felipe ponderou por um longo momento, o conflito evidente em seu rosto. Ele sabia que Isabella estava determinada, e sabia também que ela não estava segura se ficasse em São Paulo.
“Tudo bem”, ele finalmente disse. “Eu vou com você. Eu conheço Nova Iorque. E eu… eu também preciso saber a verdade. Se Ricardo está envolvido em algo assim, eu preciso estar lá para ele. E para você.”
Naquela noite, Isabella fez as malas, o caderno de Sofia cuidadosamente guardado em sua bolsa. A imagem de Ricardo em sua mente era um turbilhão de contradições: o homem que ela amava, o homem que a enganou, o homem que talvez estivesse fugindo de um fantasma do passado.
Ao desembarcarem no aeroporto JFK em Nova Iorque, o sol brilhava intensamente, um contraste gritante com a escuridão que pairava sobre suas vidas. A cidade, vibrante e imponente, parecia um palco para o drama que estava prestes a se desenrolar.
Eles foram para um hotel de luxo em Manhattan. Felipe, com seus contatos, conseguiu descobrir que Ricardo havia se hospedado no mesmo hotel. Um fio de esperança, ou talvez de desespero, os impulsionou até o quarto dele.
A porta estava destrancada. Isabella entrou hesitante, Felipe logo atrás. O quarto estava em desordem. Malas abertas, roupas espalhadas pelo chão, um reflexo da turbulência que consumia Ricardo. Ele não estava lá.
Em cima da cama, sobre uma pilha de documentos, Isabella viu. Outro bilhete. Desta vez, não de Ricardo, mas de Sofia.
“Ricardo, meu amor. Sei que você está em Nova Iorque. E sei que você está com ela. Mas você é meu. Sempre foi. E eu não vou deixar que ela te roube de mim. Miguel precisa de nós. E eu preciso de você. Encontre-me. Temos um futuro para construir, juntos. Mas antes, precisamos nos livrar desse obstáculo. Nosso futuro depende disso.”
O sangue de Isabella gelou. A frase “nos livrar desse obstáculo” ecoou em sua mente. Obstáculo. Ela era o obstáculo. Sofia estava em Nova Iorque. E ela queria Ricardo. Não apenas ele, mas queria eliminar Isabella para tê-lo de volta.
“Felipe…”, Isabella sussurrou, a voz trêmula. “Ela está aqui. Ela escreveu isso. Ela quer me eliminar.”
Felipe pegou o bilhete, seus olhos arregalados de horror. “Isso é loucura. Essa mulher é perigosa. Temos que avisar a polícia.”
“Não!”, Isabella o interrompeu. “Ricardo não quer que a polícia se envolva. Ele quer resolver isso sozinho. Talvez ele tenha ido encontrar com ela. Talvez ele esteja tentando proteger a mim e a Miguel.”
De repente, um barulho na porta. Uma sombra se projetou sob ela. Alguém estava lá fora.
Isabella e Felipe se entreolharam, o pânico tomando conta. Estariam eles presos em uma armadilha armada por Sofia?
O som de uma chave girando na fechadura fez seus corações dispararem. A porta se abriu lentamente, revelando… Ricardo.
Ele estava pálido, com olheiras profundas, seus olhos vermelhos de exaustão e preocupação. Ao ver Isabella, seus olhos se arregalaram em surpresa e algo que parecia alívio, mas misturado com um profundo desespero.
“Isabella… o que você está fazendo aqui?”, ele perguntou, a voz rouca e cansada.
Antes que Isabella pudesse responder, ele olhou para Felipe, e para o bilhete de Sofia sobre a cama. Sua expressão se tornou sombria.
“Você encontrou o bilhete da Sofia?”, ele perguntou a Isabella, a voz baixa e tensa.
Isabella assentiu, incapaz de falar.
Ricardo fechou a porta com um baque, seus olhos fixos nos dela. “Eu sabia que ela não ia desistir. Eu sabia que ela era capaz de tudo. Mas eu não imaginava que ela viria até aqui. Isabella, você está em perigo. Um perigo real.”
E então, do corredor, um grito agudo e desesperado ecoou. “Ricardo! Meu amor! Onde você está?”
Era a voz de Sofia.
O rosto de Ricardo se contraiu em pânico. Ele olhou para Isabella, para Felipe, e para a porta. A armadilha estava montada. O jogo sombrio de um fantasma ressurreto havia chegado ao seu clímax, em uma terra estrangeira, longe de tudo o que eles conheciam. E Isabella, presa no meio de tudo aquilo, sentiu que o verdadeiro horror estava apenas começando.
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