Amor nas Alturas II
Capítulo 5 — Encontro nas Sombras: O Preço da Verdade
por Valentina Oliveira
Capítulo 5 — Encontro nas Sombras: O Preço da Verdade
O grito de Sofia cortou o ar denso do hotel de luxo em Nova Iorque como uma lâmina afiada. A voz dela, carregada de desespero e uma possessividade doentia, ressoou pelos corredores, um prenúncio do confronto que Isabella temia desde que desvendara o caderno da artista. Ricardo, com o rosto uma máscara de pânico contido, olhou para Isabella, depois para Felipe, e finalmente para a porta do quarto, como se tentasse encontrar uma rota de fuga que já não existia.
“Ela está aqui”, Ricardo murmurou, mais para si mesmo do que para eles. Seus ombros caíram ligeiramente, como se o peso de todo aquele passado finalmente o estivesse esmagando. “Eu sabia que ela não ia desistir. Eu… eu tinha que vir para cá para protegê-los. Para protegê-la… e a Miguel. Mas ela me seguiu.”
Isabella o encarava, uma mistura avassaladora de emoções lutando dentro dela: alívio por encontrá-lo, raiva pela mentira, medo do que viria a seguir, e uma pontada de compaixão pela dor que via em seus olhos. “Proteger quem, Ricardo? A mim? Ou a ela? Você me deixou com um bilhete, me mandou embora, e agora a mulher que você jurou que estava morta aparece em Nova Iorque querendo… o quê? Nos destruir?”
Felipe, recuperando a compostura, deu um passo à frente. “Ricardo, precisamos avisar a polícia. Essa mulher é perigosa. Ela planejou algo contra a Isabella.”
“Não!”, Ricardo gritou, a voz mais forte agora, um tom de desespero em seu apelo. “A polícia traria mais atenção, mais escândalo. Sofia usaria isso para nos atacar. Ela é imprevisível. Eu preciso lidar com isso. Sozinho.”
“Sozinho?”, Isabella repetiu, a incredulidade tingindo sua voz. “Você nos escondeu tudo isso, nos deixou em desespero, e agora quer resolver isso sozinho? E quanto a mim? Eu sou sua noiva, Ricardo! E eu estou aqui, em perigo, por sua causa!”
“Isabella, eu sei que você está brava, e você tem todo o direito de estar”, Ricardo disse, sua voz embargada. “Mas eu não te contei tudo porque eu não queria te envolver nisso. Eu achava que podia resolver sozinho. Eu estava errado. Sofia é… obcecada. Ela sempre foi. E eu a deixei chegar a este ponto.” Ele olhou para o bilhete de Sofia sobre a cama. “Ela fala em ‘nos livrarmos do obstáculo’. Ela está falando de você, Isabella. Ela te vê como a ameaça.”
Um arrepio percorreu Isabella. A frieza daquelas palavras, a realidade de estar na mira de uma mulher desequilibrada, a atingiu com força.
“Onde está Miguel?”, Isabella perguntou, a preocupação com o garoto superando o próprio medo.
“Ele está seguro. Com uma amiga minha de confiança, que não tem nada a ver com o meu passado. Ela o levou para um lugar longe daqui, em segurança. Eu só precisava resolver isso com Sofia, para que ele pudesse ter uma vida normal, sem essa sombra sobre ele.”
Felipe se aproximou de Ricardo, colocando uma mão em seu ombro. “Ricardo, você precisa entender. Isabella não é um obstáculo. Ela é a mulher que você ama. E você não pode fazer isso sozinho. Precisamos enfrentar isso juntos. Se Sofia está aqui, ela pode estar em qualquer lugar.”
Nesse momento, o interfone do quarto tocou. Uma voz calma e profissional anunciou: “Senhor Almeida, há uma senhora na recepção perguntando por você. Diz que é sobre Miguel.”
Ricardo, Isabella e Felipe se entreolharam, o pânico crescendo em seus olhos. Era Sofia. Ela estava jogando seu jogo, usando o filho como isca.
“Não vá, Ricardo!”, Isabella implorou. “É uma armadilha!”
“Eu tenho que ir”, Ricardo disse, sua voz firme, embora seu rosto estivesse pálido. “É a única maneira de tirá-la de perto de vocês. Felipe, cuide da Isabella. Não a deixe sair deste quarto. E se eu não voltar… cuide do Miguel.”
Ele se virou para Isabella. “Eu te amo, Isabella. Mais do que tudo. Por favor, não me odeie por ter te escondido a verdade. Eu só queria te proteger.”
Antes que Isabella pudesse protestar, Ricardo saiu do quarto, a porta se fechando atrás dele com um clique sinistro.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Isabella sentia o coração martelar no peito, a angústia se misturando ao medo. Ela olhou para Felipe, que parecia igualmente apreensivo.
“Ele vai ficar bem?”, Isabella sussurrou.
Felipe deu de ombros, sua expressão sombria. “Eu não sei, Isabella. Sofia é… imprevisível. E Ricardo, com toda a sua boa intenção, estava sempre um passo atrás dela. Ele se sente culpado, e isso o torna vulnerável.”
Eles esperaram. Minutos se arrastaram como horas. Cada ruído no corredor era um motivo de apreensão. Isabella se sentou na beira da cama, o caderno de Sofia esquecido ao seu lado. A imagem de Ricardo em Nova Iorque, tentando lidar com um passado que o assombrava, a consumia. Ela amava aquele homem, mas o homem que ela amava era um mistério, envolto em segredos e mentiras.
De repente, um barulho mais alto veio do corredor. Gritos. Uma luta. E então, um grito agudo, familiar. O grito de Sofia. E depois, um silêncio mortal.
Isabella e Felipe se levantaram abruptamente, correndo para a porta. Ela estava destrancada. O corredor estava vazio. Não havia sinal de Ricardo, nem de Sofia, nem de luta. Apenas um silêncio sepulcral.
E no chão, perto da porta do quarto de Ricardo, algo brilhava sob a luz fraca. Isabella se abaixou e pegou. Era um pequeno broche, em forma de rosa, que ela havia dado a Ricardo em seu aniversário. Ele sempre o usava em seu paletó.
Um frio glacial tomou conta de Isabella. O broche. Ricardo o havia perdido. Em uma luta? Em um confronto?
Ela olhou para Felipe, seus olhos marejados. “Ele… ele não voltou, Felipe. E Sofia… o grito dela… o que aconteceu?”
Felipe a abraçou, tentando confortá-la, mas seu próprio rosto demonstrava a gravidade da situação. “Não sabemos, Isabella. Mas não podemos ficar parados aqui. Temos que procurar. Temos que saber o que aconteceu.”
Eles saíram do quarto, a sensação de pavor crescendo a cada passo. Caminharam pelo corredor, procurando por qualquer sinal, qualquer pista. Nada. Era como se Ricardo e Sofia tivessem desaparecido no ar.
De repente, Isabella parou. Seus olhos se fixaram em um ponto no final do corredor. Um pequeno rastro de… algo escuro. Sangue. Um rastro sutil, quase imperceptível, que levava em direção a uma porta de serviço.
“Felipe!”, ela chamou, a voz embargada.
Eles seguiram o rastro, que os levou até uma escada de emergência. A porta estava entreaberta. Hesitaram por um instante, o medo paralisando-os. Mas a necessidade de saber, de encontrar Ricardo, era mais forte.
Desceram os lances de escada, o silêncio daquele espaço confinado amplificando a tensão. O rastro de sangue continuava, mais visível agora, levando-os para o subsolo do hotel, para a área de serviço.
E lá, em um canto escuro, atrás de caixas de suprimentos, eles o encontraram.
Ricardo. Caído no chão, pálido, o paletó rasgado. O broche da rosa, caído ao seu lado. Ele estava ferido, mas vivo. E ao lado dele, inerte, com uma expressão de surpresa congelada no rosto, estava Sofia.
Isabella correu até Ricardo, ajoelhando-se ao seu lado. Ele abriu os olhos lentamente, seus olhos encontrando os dela. Um leve sorriso se formou em seus lábios.
“Eu… eu consegui, Isabella”, ele sussurrou, a voz fraca. “Eu a impedi. Pelo Miguel. Por você.”
Felipe, após verificar os sinais vitais de Ricardo, levantou-se. “Ele está vivo. Ferido, mas vivo. Sofia… ela não teve a mesma sorte. Parece que na luta, ela se feriu fatalmente.”
O alívio misturado à tristeza inundou Isabella. Ricardo estava vivo. Sofia estava morta. E o passado, finalmente, parecia ter deixado de assombrá-los.
Enquanto os paramédicos chegavam e levavam Ricardo para o hospital, Isabella permaneceu ao seu lado, segurando sua mão. As lágrimas corriam livremente por seu rosto, lágrimas de alívio, de dor, de incerteza.
O jogo sombrio havia terminado. Mas o preço da verdade fora alto. O amor nas alturas, que um dia pareceu tão puro e promissor, agora estava manchado por sombras, segredos e mortes. Isabella olhou para Ricardo, para o homem que ela amava, mas que agora se revelara um emaranhado de complexidades. Ela sabia que a jornada deles estava longe de acabar. A verdade havia sido revelada, mas a cura, a reconstrução, e a decisão de permanecerem juntos, seriam a verdadeira prova de amor. O amor nas alturas havia encontrado seu chão, mas um chão cheio de cicatrizes e de um futuro incerto. E Isabella, olhando para os olhos cansados de Ricardo, sabia que teria que decidir se estava disposta a reconstruir seu amor sobre aquelas fundações abaladas.
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