Amores que Doem
Capítulo 14 — O Jogo Perigoso da Verdade e da Mentira
por Isabela Santos
Capítulo 14 — O Jogo Perigoso da Verdade e da Mentira
Os dias que se seguiram ao reencontro com Rafael foram marcados por uma tensão silenciosa entre Mariana e André. Ele era compreensivo, paciente, mas Mariana sentia em seu olhar a preocupação, a dúvida que ela mesma cultivava em seu interior. A menção de Rafael como um "velho amigo" soou oca, e André, embora não a pressionasse, deixava claro que sabia que havia algo mais.
Mariana, por sua vez, lutava contra a atração que Rafael exercia sobre ela. A urgência em sua busca por justiça, a fragilidade que ele revelara em seu encontro no Jardim do Príncipe, tudo isso a impelia a se aproximar, a oferecer apoio. Mas ela sabia que essa aproximação era perigosa, um jogo de sedução com o passado que poderia destruir o futuro que ela construía com André.
Um dia, Rafael a procurou novamente, desta vez em um café na beira da praia, longe dos olhares curiosos de Paraty. Ele parecia mais determinado, a busca por respostas o consumindo.
“Mariana, eu preciso da sua ajuda,” ele disse, a voz baixa e urgente. “Descobri quem pode ter manipulado o acidente. Um antigo sócio do meu pai, um homem chamado Valério. Ele tinha muito a ganhar com a ruína da minha família.”
Mariana o ouviu com atenção, uma mistura de apreensão e curiosidade a dominando. A história de Rafael sempre fora complexa, e a possibilidade de que houvesse um culpado concreto, um homem por trás da tragédia, a intrigava.
“E o que você pretende fazer?” ela perguntou.
“Eu quero provas. Valério é um homem poderoso e influente. Se eu o acusar sem provas concretas, ele me destruirá.” Rafael estendeu a mão sobre a mesa, buscando a dela. Mariana hesitou, mas acabou cedendo. A conexão entre eles, por mais perigosa que fosse, ainda existia. “Ele tem uma reunião importante em sua casa de campo amanhã à noite. Uma reunião de negócios. Sei que é arriscado, mas se eu puder me infiltrar e conseguir alguma prova, alguma gravação…”
Mariana sentiu um frio na espinha. Infiltrar-se na casa de um homem perigoso? Ela não era uma espiã. Era uma escritora, uma mulher em busca de paz.
“Rafael, isso é muito perigoso. Por que você está me contando isso?”
“Porque você me conhece. Porque você sabe que eu não sou um homem violento. Porque eu preciso que alguém, além de mim, saiba o que estou prestes a fazer. E porque, no fundo, eu ainda confio em você.” Ele apertou a mão dela, seus olhos fixos nos dela. “Eu preciso que você me ajude a ter certeza de que não estou agindo por impulso, por vingança. Preciso que você me diga se acha que isso é loucura.”
Mariana sentiu o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. Ela sabia que Rafael estava agindo por impulso, movido pela dor e pela busca por justiça. Mas ela também via a determinação em seus olhos, a necessidade de encontrar a verdade, de honrar a memória de seus pais.
“Não é loucura, Rafael. É corajoso. Mas é perigoso. E você não pode fazer isso sozinho.”
“Eu sei. É por isso que eu estou aqui.” Ele se inclinou para mais perto, a voz um sussurro. “Mariana, eu preciso que você vá comigo. Apenas para me dar apoio. Para ser uma testemunha. Para me trazer de volta se as coisas saírem do controle.”
O pedido a chocou. Ir com ele? A casa de Valério? Era loucura. Era trair André. Mas a necessidade de Rafael, a fragilidade em sua voz, a lealdade antiga, a puxavam.
“Eu não sei, Rafael. André…”
“Eu sei que você está com ele. E eu não quero te forçar a nada. Mas eu preciso de você. Só desta vez. Para me ajudar a encontrar a verdade.”
Mariana se viu em um dilema torturante. De um lado, a lealdade e o amor seguro de André. De outro, a paixão avassaladora do passado e a busca por justiça de Rafael. Ela sabia que estava brincando com fogo, que estava se arriscando a perder tudo. Mas algo dentro dela, uma faísca de antigas emoções, a impelia a aceitar.
“Eu… eu preciso pensar,” ela disse, a voz trêmula.
“Pense, Mariana. Mas pense rápido. Amanhã à noite.” Ele soltou a mão dela, um vislumbre de decepção em seus olhos, mas também de esperança. “Sei que você fará a coisa certa.”
Naquela noite, Mariana não conseguiu dormir. A ideia de se infiltrar na casa de Valério com Rafael a assustava, mas a ideia de deixá-lo sozinho a angustiava ainda mais. Ela revivia os momentos de felicidade que tivera com Rafael, a intensidade de seu amor, e se perguntava se essa intensidade poderia ser recuperada, ou se era apenas um fantasma do passado.
Ela tentou se convencer a contar tudo a André. Precisava ser honesta. Mas o medo da reação dele a paralisava. E se ele a visse como uma traidora? E se ele a deixasse?
Na manhã seguinte, ela tomou uma decisão. Uma decisão perigosa, imprudente, mas que parecia, naquele momento, a única possível. Ela enviou uma mensagem a Rafael: “Estarei lá.”
No dia seguinte, a tensão era palpável. Mariana se vestiu com cuidado, escolhendo roupas que não chamassem muita atenção. Ela sentiu o olhar de André sobre ela, a curiosidade velada em seus olhos.
“Você vai sair?” ele perguntou, o tom casual escondendo a preocupação.
“Sim. Tenho um compromisso. Preciso resolver algumas coisas do meu livro.” Ela mentiu, o peso da desonestidade a sufocando.
André assentiu, mas seus olhos transmitiam uma desconfiança que ela não conseguia disfarçar. Ele sabia que ela estava mentindo. E ela sabia que ele sabia. A distância entre eles, antes sutil, agora se tornara um abismo.
À noite, Mariana encontrou Rafael em um ponto discreto da estrada que levava à casa de campo de Valério. Ele a esperava em seu carro, a expressão tensa.
“Você veio,” ele disse, um misto de alívio e surpresa em sua voz.
“Eu disse que sim,” ela respondeu, tentando soar firme. “Mas isto é loucura, Rafael. Se André descobrir…”
“Ele não vai descobrir. E se descobrir, você pode dizer que foi uma emergência. E foi, de certa forma.” Ele a olhou nos olhos. “Você está pronta?”
Mariana respirou fundo, sentindo o coração bater acelerado. Ela sabia que estava entrando em um jogo perigoso, um jogo onde as regras eram incertas e as consequências poderiam ser devastadoras. Mas, por Rafael, por aquele amor que um dia fora tão intenso, ela estava disposta a arriscar. A verdade, a justiça, a antiga paixão – tudo se misturava em uma teia complexa que a puxava cada vez mais para o centro do caos. Ela estava pronta para enfrentar o que quer que viesse, mesmo que isso significasse perder tudo o que ela mais amava.