Paixão e Traição III
Capítulo 7 — A Investigação de Clara e o Jogo Duplo de André
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — A Investigação de Clara e o Jogo Duplo de André
O amanhecer no Rio de Janeiro trouxe consigo uma clareza incômoda para Clara. As palavras de André e Dona Helena ecoavam em sua mente, tecendo uma teia complexa de suspeitas. Ricardo Montenegro. Um nome que ela conhecia, mas cujas conexões com o desmoronamento da "Horizonte Azul" eram um mistério. A ideia de que André sabia mais do que revelava, e que talvez estivesse usando essa informação para manipulá-la, era insuportável.
Decidida a desvendar a verdade, Clara começou sua própria investigação. Seu primeiro passo foi contatar seu tio, o advogado Dr. Roberto Almeida, um homem de confiança e de vasta experiência em direito empresarial. Ela precisava de sua discrição e de sua expertise para acessar documentos antigos e entender os meandros da venda da empresa de seu pai.
"Tio Roberto", Clara disse, sua voz tensa ao telefone. "Preciso da sua ajuda com algo muito delicado. Refere-se à venda da 'Horizonte Azul', há muitos anos."
A voz de Dr. Almeida era calma e ponderada. "Clara, minha querida. Sempre que precisar. O que exatamente você busca? Algum documento específico?"
"Sim. Preciso de todos os contratos, acordos e correspondências relacionados à venda da 'Horizonte Azul'. Especialmente tudo que envolva o nome Ricardo Montenegro. Preciso entender os detalhes da transação, as condições, quem foram os intermediários. E se houve alguma cláusula oculta ou incomum."
Dr. Almeida suspirou levemente. "Isso é uma busca profunda, Clara. Os arquivos da época são vastos. Mas farei o meu melhor. Você tem alguma pista do porquê desse interesse repentino?"
Clara hesitou. Contar a verdade sobre André era arriscado. Poderia parecer desespero ou paranoia. "Eu apenas sinto que algo não foi esclarecido na época. E a memória do meu pai merece a verdade completa."
Enquanto Clara mergulhava nas sombras do passado, André, por sua vez, redobrava seus esforços para manter o controle da situação. Ele sabia que Clara era perspicaz, e que a verdade, uma vez desenterrada, poderia ser devastadora para seus planos. Seu jogo era perigoso: parecer o cúmplice compreensivo, enquanto secretamente acelerava a desintegração da empresa de Clara, a "Estrelas do Mar", para forçá-la a aceitar sua proposta de fusão.
Naquela manhã, André visitou Clara em seu escritório, com um sorriso disfarçadamente preocupado. "Clara, como você está depois do jantar de ontem? Notei que você ficou um pouco abalada com a menção ao senhor Montenegro."
Clara o encarou, seus olhos faiscando. "Estou bem, André. Apenas pensando. Você mencionou que seu pai tinha um sócio que se afastou. Quem era ele?"
André fingiu ponderar. "Ah, sim. Era um homem chamado Carlos Eduardo Vasconcelos. Um parceiro de negócios antigo, mas com visões diferentes do meu pai. Eles tiveram um desentendimento sério sobre a direção da empresa. Ele se afastou e, coincidentemente, começou a trabalhar para a empresa do senhor Montenegro logo depois."
Essa informação era nova. Carlos Eduardo Vasconcelos. Outro nome para adicionar à lista de suspeitos. Clara sentiu uma pontada de dúvida. André estava contando a verdade, ou estava tecendo mais uma camada de sua teia?
"E qual era a relação exata do senhor Vasconcelos com a venda da 'Horizonte Azul'?", Clara perguntou, mantendo a voz neutra.
André suspirou. "É aí que a coisa fica complicada. Meu pai nunca me contou os detalhes, mas ele deu a entender que Vasconcelos teve um papel em facilitar o negócio. Ele era o elo entre Montenegro e seu pai, Clara. Ele conhecia os detalhes das finanças da 'Horizonte Azul' e, de alguma forma, convenceu seu pai a aceitar a proposta de Montenegro."
Clara sentiu o estômago revirar. André estava pintando um quadro sombrio, onde seu pai era enganado e manipulado. Seria isso verdade? Ou André estava tentando jogá-la contra a memória de seu pai para diminuir sua resistência?
"André", Clara disse, sua voz firme. "Se você sabe tanto, por que nunca me contou antes?"
André deu um passo em sua direção, seus olhos fixos nos dela. "Porque eu não tinha certeza, Clara. E porque eu não queria te machucar. Meu pai era um homem complicado. Ele guardava muitos segredos. E eu não queria que você visse o lado sombrio dele, ou o lado sombrio do mundo dos negócios, de uma forma tão abrupta."
Ele tocou seu rosto, um gesto que Clara sentiu que deveria repelir, mas que a deixou paralisada. "Eu te amo, Clara. E tudo que eu quero é te proteger. A 'Estrelas do Mar' está em um momento delicado. A proposta de fusão que eu fiz é a única saída para garantir seu futuro. Pense nisso, meu amor."
O toque, o olhar, as palavras de amor... tudo parecia tão convincente, mas Clara sentia a dissonância. Ela sabia que André estava escondendo algo, e que a sua "proteção" vinha com um preço: a sua independência e o futuro de sua empresa.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, Miguel estava preocupado com a crescente tensão entre Clara e André. Ele sabia que André era um homem astuto e ambicioso, e que seus motivos não eram tão puros quanto ele tentava parecer. Miguel havia reunido algumas informações sobre os negócios de André, e algumas delas eram alarmantes.
"Clara", Miguel disse a ela mais tarde, em seu apartamento. "Eu não confio no André. Ele está te pressionando demais com essa fusão. E eu descobri algo sobre as finanças dele. Parece que ele está com problemas em algumas de suas empresas. Ele precisa dessa fusão mais do que você imagina."
Clara ouviu atentamente, a angústia em seu rosto espelhando a de Miguel. "Eu também sinto isso, Miguel. Ele me conta histórias sobre o passado, sobre meu pai, sobre Ricardo Montenegro... mas sinto que ele está omitindo algo crucial. E que ele está usando isso contra mim."
Miguel segurou suas mãos. "Eu vou te ajudar a descobrir a verdade, Clara. Juntos. Se ele está jogando sujo, vamos jogar sujo também."
Nos dias seguintes, Clara mergulhou em pilhas de documentos empoeirados no escritório de Dr. Almeida. Cada contrato, cada e-mail antigo, era uma peça do quebra-cabeça. Ela descobriu que a venda da "Horizonte Azul" foi um negócio complexo, com várias empresas de fachada envolvidas. E o nome de Ricardo Montenegro aparecia em várias delas, sempre como o beneficiário final.
Dr. Almeida, com sua perspicácia, descobriu algo ainda mais perturbador. "Clara", ele disse, com a voz séria. "Eu encontrei um aditivo secreto no contrato de venda original. Um aditivo que você nunca teve acesso. Ele estipula que, caso a 'Estrelas do Mar' entre em falência ou seja vendida em circunstâncias desfavoráveis, uma cláusula de recompra seria acionada, permitindo que o comprador original, o senhor Montenegro, retomasse o controle de ativos específicos da 'Horizonte Azul' que foram transferidos para a sua empresa na época."
O sangue de Clara gelou. Uma cláusula de recompra? Então, o plano de André não era apenas a fusão. Era assegurar que ele pudesse, de alguma forma, facilitar o retorno de Montenegro aos antigos ativos da "Horizonte Azul", talvez em troca de favores ou de uma porcentagem dos lucros. Ele estava manipulando a situação para que a "Estrelas do Mar" entrasse em colapso, ativando essa cláusula e beneficiando tanto ele quanto Montenegro.
Ao mesmo tempo, André estava orquestrando um golpe financeiro contra a "Estrelas do Mar". Ele usou sua influência para sabotar um importante contrato de exportação da empresa de Clara, criando um gargalo financeiro que a colocaria em uma posição insustentável.
"Meu amor", André disse a Clara, por telefone, com um tom de falsa preocupação. "Ouvi dizer que aquele contrato com os coreanos teve problemas. Que pena. Mas não se preocupe, lembra que a minha proposta de fusão ainda está de pé. Juntos, podemos superar qualquer obstáculo."
Clara sentiu uma raiva crescente. Ele não estava apenas jogando um jogo, ele estava armando uma emboscada. O jantar em família, a menção a Ricardo Montenegro, as histórias sobre Carlos Eduardo Vasconcelos... tudo eram peças de um plano maior. Ela sabia que precisava agir rápido. A verdade estava vindo à tona, mas André estava determinado a mantê-la enterrada sob camadas de mentiras e manipulação. A batalha pela "Estrelas do Mar" e pela memória de seu pai estava apenas começando.