O Príncipe das Sombras

Capítulo 3 — Um Convite Inesperado e a Sombra do Passado

por Valentina Oliveira

Capítulo 3 — Um Convite Inesperado e a Sombra do Passado

Os dias seguintes foram preenchidos por uma ansiedade sutil em Aurora. Ela se pegava pensando em Elias, em seus olhos azuis intensos e na aura de mistério que o envolvia. A floresta, que antes era um lugar de introspecção e consolo, agora se tornara um território de expectativa. Ela sentia uma necessidade quase inexplicável de retornar, de vê-lo novamente, de desvendar as camadas de sua complexidade.

Sua mãe, Dona Eleonora, parecia ter notado uma leve melhora em seu ânimo. O convite para o festival de artes havia reacendido uma pequena chama em seus olhos, e ela passava mais tempo em sua poltrona perto da janela, observando a vida lá fora. Aurora, sentindo a necessidade de honrar essa pequena melhora, começou a revisitar seu ateliê. A porta, antes fechada a sete chaves, agora se abria para a luz e para as memórias.

O cheiro de tinta a óleo e terebintina pairava no ar, um perfume familiar que a acalmava e a inspirava. Ela tocou as telas em branco, os pincéis ainda sujos de cores vibrantes de um passado distante. Era como revisitar um sonho esquecido. Ela sabia que não seria fácil. Cada pincelada seria uma batalha contra a tristeza que ameaçava engoli-la, mas ela estava determinada a lutar.

Em uma tarde, enquanto ela esboçava ideias para uma nova escultura, ouviu um barulho distinto na porta da frente. Francisco, o fiel criado, anunciou a visita: "Senhorita Aurora, um homem à sua porta. Diz que é sobre o festival."

Aurora franziu a testa, confusa. O festival de artes ainda estava a algumas semanas de distância, e a organização geralmente entrava em contato com os expositores com mais antecedência. Ela desceu as escadas, a curiosidade aguçada.

Na sala de estar, impecavelmente vestido com um terno escuro que contrastava com a atmosfera outrora descontraída da casa, estava um homem que Aurora não via há anos. Sr. Alencar, um renomado marchand de arte de São Paulo, conhecido por seu olhar aguçado para novos talentos e por sua frieza nos negócios. Ele era a razão pela qual Leonardo, em seus últimos anos, havia começado a ganhar reconhecimento no mundo da arte.

"Senhorita Montenegro", disse Alencar, com um sorriso polido que não alcançava seus olhos. "Que prazer vê-la. Sinto muito pela sua perda. Leonardo era um artista promissor. Uma pena que o destino o tenha levado tão cedo."

Aurora respondeu com a polidez que a educação de sua família lhe impunha, mas sentiu um arrepio. A menção de Leonardo, feita por aquele homem, sempre lhe trazia uma sensação incômoda. "Obrigada, Sr. Alencar. Em que posso ajudá-lo?"

"Bem", disse Alencar, sentando-se sem ser convidado, "ouvi falar do festival de artes aqui em Vila Encantada. E soube que você, Aurora, também participará. Fiquei intrigado. Sua arte sempre teve um toque… peculiar. Uma mistura de melancolia e paixão que me fascina."

Aurora sentiu uma pontada de desconforto. Alencar tinha uma maneira de analisar as pessoas e suas criações como se fossem objetos de investimento. "Eu estou apenas tentando me reencontrar através da arte, Sr. Alencar. Depois de tudo o que aconteceu."

"Entendo, entendo", disse ele, com um aceno de cabeça. "Mas o mundo da arte, querida Aurora, não espera por aqueles que se perdem. Ele avança. E eu estou sempre em busca de novas estrelas." Ele a encarou diretamente, seus olhos calculistas fixos nos dela. "Tenho uma proposta para você. Uma oportunidade única. Quero expor suas obras em minha galeria em São Paulo. Uma exposição individual. Com todo o meu suporte. O que me diz?"

A oferta era tentadora, sem dúvida. Uma galeria de renome, um nome poderoso no mundo da arte. Mas havia algo na forma como Alencar a propôs, na sua pressa, que a deixou desconfiada. "É uma oferta muito generosa, Sr. Alencar. Mas eu não esperava por isso. Preciso pensar."

"Claro, claro", disse ele, um leve toque de impaciência em sua voz. "Mas não demore muito. O mundo da arte é cruel com a indecisão. E, francamente, Aurora, sua arte precisa de um impulso. E eu sou o homem que pode dar isso a você." Ele tirou um cartão de visitas de seu bolso e o colocou na mesinha de centro. "Pense bem. Um talento como o seu não deve ser desperdiçado em uma cidadezinha como esta."

Ele se levantou, a conversa encerrada tão abruptamente quanto começou. Aurora o acompanhou até a porta, sentindo um misto de gratidão e apreensão. O convite de Alencar a fez pensar em Leonardo, em seus sonhos de reconhecimento, em sua ambição. Seria essa a chance que ela precisava para honrar a memória dele?

Naquela noite, Aurora mal conseguiu dormir. A oferta de Alencar pairava em sua mente, mas algo mais a incomodava. A menção de Leonardo, o tom condescendente de Alencar sobre Vila Encantada… ela sentia uma pontada de algo que não conseguia identificar, uma sombra do passado que parecia se projetar sobre o presente.

No dia seguinte, impulsionada por uma necessidade que ela não compreendia completamente, Aurora decidiu retornar à Floresta Sombria. Ela precisava de ar puro, de clareza. Talvez Elias, com sua sabedoria selvagem, pudesse lhe dar alguma perspectiva.

Ela encontrou a cabana de Elias, uma construção rústica e discreta, quase camuflada pela vegetação. Com o coração batendo forte, ela bateu na porta de madeira.

A porta se abriu, revelando Elias. Ele parecia melhor, o curativo em sua perna estava limpo e firme. Seus olhos azuis a examinaram com a mesma intensidade de sempre, mas havia uma suavidade que não estava lá antes.

"Senhorita Montenegro", disse ele, uma leve surpresa em sua voz. "O que a traz aqui novamente?"

"Eu… eu precisava falar com alguém", disse Aurora, sentindo-se um pouco envergonhada. "E pensei que você… talvez pudesse me ouvir."

Elias abriu a porta completamente, convidando-a a entrar. "Entre. A floresta pode ser um bom lugar para encontrar respostas."

O interior da cabana era simples, mas acolhedor. Uma lareira, uma cama modesta, prateleiras repletas de livros e objetos curiosos da natureza. Havia um cheiro de lenha queimada e ervas secas. Aurora se sentiu estranhamente à vontade naquele lugar isolado.

Ela contou a Elias sobre a oferta de Sr. Alencar, sobre a pressão que sentia. Elias a ouviu atentamente, sem interromper, seus olhos fixos nela. Quando ela terminou, ele permaneceu em silêncio por um momento, contemplando.

"Um marchand de arte, você diz?", perguntou Elias finalmente. "Ele promete o mundo, mas o que ele realmente quer?"

"Eu não sei", admitiu Aurora. "Mas sinto que há algo mais. Algo sobre Leonardo. Ele mencionou o nome dele com… com uma frieza que me incomodou."

Elias se aproximou da janela, olhando para a floresta. "As sombras do passado raramente se dissipam completamente, Aurora. Elas se escondem, esperam o momento certo para ressurgir. E homens como Alencar, eles se alimentam dessas sombras." Ele se virou para ela, seus olhos azuis penetrantes. "A arte, sua arte, é um reflexo de sua alma. Não deixe que ninguém a manipule, ou a distorça. Se você decidir expor, que seja por você, não pelas promessas vazias de um homem que só vê valor em números."

As palavras de Elias ressoaram em Aurora. Ele a entendia de uma forma que ninguém mais conseguia. Ele, que vivia à margem, parecia enxergar a verdade com mais clareza do que aqueles que viviam no centro do mundo.

"Mas e Leonardo?", perguntou Aurora, a voz embargada. "Eu quero que o mundo o conheça. Quero que sua arte seja reconhecida."

Elias se aproximou dela, seu olhar suavizando. "Leonardo é uma parte de você, Aurora. Sua arte vive em você. E quando você criar, quando você expor, será a sua voz que falará, carregando não apenas a memória dele, mas também a sua própria força. Se Alencar for um homem de negócios, ele verá o valor em sua arte, não apenas em seu nome. Não se venda, Aurora. Venda sua alma em suas telas."

As palavras de Elias foram como um bálsamo para sua alma. Ele não a julgava, não a apressava. Ele a via, a compreendia. E, pela primeira vez em muito tempo, Aurora sentiu uma esperança genuína de que poderia encontrar seu próprio caminho, honrando a memória de Leonardo sem se perder no processo. A sombra de Alencar pairava, mas a sabedoria de Elias, o príncipe das sombras da floresta, era um farol em sua escuridão.

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