O Desejo Proibido

O Desejo Proibido

por Camila Costa

O Desejo Proibido

Por Camila Costa

Capítulo 1 — O Encontro Sob a Chuva Dourada

O céu de Salvador, naquele entardecer de abril, parecia um quadro inacabado. Tons de laranja e roxo se misturavam com nuvens pesadas, prenunciando a chuva que, aliás, já caía fina e persistente sobre o asfalto molhado da Avenida Sete de Setembro. Maria Eduarda, ou Duda, como todos a chamavam, apertou o volante com os dedos, o couro frio sob a palma suada. O trânsito, um monstro familiar e impaciente da cidade, arrastava-se. Cada semáforo vermelho parecia um insulto à sua urgência.

Ela precisava chegar em casa. A casa que, nos últimos meses, se tornara mais um palco de silêncios do que um refúgio. O cheiro adocicado de jasmim do aromatizador de carro lutava em vão contra o aroma metálico da chuva e a apreensão que lhe apertava o peito. Olhou para o relógio no painel: 18h37. Ainda havia tempo. Um fio tênue de esperança ainda se agarrava a ela.

Duda era o tipo de mulher que, mesmo em meio ao caos, emanava uma beleza serena. Cabelos negros em cascata, um sorriso que, quando aparecia, iluminava o rosto, e olhos castanhos profundos, que agora carregavam uma sombra de melancolia. Aos trinta e dois anos, era uma arquiteta de sucesso, respeitada no mercado, com um escritório próspero no coração da Barra. Sua vida parecia perfeita para quem a via de fora: o casamento com Ricardo, um empresário bem-sucedido e influente; a casa imponente em Ondina; os amigos escolhidos a dedo. Mas a perfeição, como ela aprendera da maneira mais amarga, era muitas vezes uma fina camada de verniz sobre a podridão.

O carro à sua frente freou bruscamente, forçando-a a um movimento instintivo. O motor do seu Audi A4 gemeu em protesto. "Droga!", murmurou, a voz embargada pela frustração. A chuva engrossou, transformando-se em um véu espesso, diluindo as luzes da cidade em borrões coloridos. Foi nesse momento, no auge do seu descontentamento, que ela o viu.

Parado na calçada, sob a marquise de uma livraria antiga, um homem parecia desafiar a tempestade. A chuva caía sobre ele, mas parecia não o atingir. Vestia uma camisa branca de linho, que grudava em seus ombros largos, e calças escuras, impecáveis apesar da água. Seus cabelos, de um castanho que beirava o preto, estavam úmidos e despenteados, emoldurando um rosto de traços fortes e marcantes. Havia algo nele que a atraiu imediatamente, uma aura de mistério e de força contida que a fez desviar o olhar do trânsito por um instante.

Por um impulso inexplicável, ela parou o carro. Engatou o freio de mão, ignorando o buzinare mal-humorado do motorista atrás. Abriu o vidro lateral, deixando que o ar úmido e carregado de sal e chuva invadisse o habitáculo.

"Moço!", chamou, a voz quase inaudível sobre o barulho da água.

Ele se virou. E o tempo, para Duda, pareceu parar. Os olhos dele eram de um verde intenso, como as águas profundas da Bahia. Um verde que parecia carregar histórias, paixões antigas e talvez, quem sabe, uma solidão familiar à dela. Um sorriso discreto, quase imperceptível, brincou em seus lábios. Ele se aproximou do carro, com a elegância de quem não tem pressa, mesmo sob a tempestade.

"Pois não?", a voz dele era grave, com um sotaque suave, mas firme.

"O senhor… o senhor está bem? Parece… perdido." As palavras saíram sem que ela as pensasse. Um convite perigoso, ela sabia.

Ele riu, um som rouco que a fez sentir um arrepio percorrer sua espinha. "Perdido? Talvez um pouco. Mas também um pouco encantado com essa chuva dourada que cai sobre Salvador." Ele gesticulou com a cabeça para o céu. "E a senhora, parece com pressa."

"Tenho sim. Mas… precisava parar um instante." Ela sentiu o rubor subir às suas faces. Que desculpa esfarrapada era aquela?

"Um instante necessário, então." Ele se inclinou um pouco mais, o olhar fixo nos dela. "Meu nome é Rafael."

"Maria Eduarda. Duda." A apresentação soou mais formal do que ela gostaria.

"Duda. Um nome bonito. Como a melodia de um samba." Ele estendeu a mão. Duda hesitou por um segundo, depois a aceitou. O toque foi firme, quente. Por um momento, ela sentiu uma corrente elétrica percorrer seus braços. A mão dele era áspera, marcada por um trabalho que parecia longe de ser um escritório.

"Obrigada pela preocupação, Duda. Mas eu só estava esperando a chuva diminuir um pouco. Tenho que pegar um ônibus logo ali na frente."

"Um ônibus?", Duda repetiu, surpresa. Aquele homem, com sua aura de elegância despreocupada, pegava ônibus?

"Sim. Gosto de sentir a cidade de outra forma, às vezes." Ele sorriu novamente, e dessa vez o sorriso alcançou seus olhos verdes. "Você mora por aqui?"

"Eu… moro em Ondina."

"Ah, sim. O mar deve ser lindo daí."

"É… é sim." A conversa estava se tornando perigosamente fluida. Duda sabia que precisava ir. Ricardo estaria em casa. Sempre havia o jantar, as conversas superficiais sobre o trabalho dele, as noites em que dormiam lado a lado, mas distantes como continentes.

"Bem, Rafael, eu… preciso ir." Ela fechou o vidro lentamente, observando-o se afastar. Ele acenou com a cabeça, um gesto leve, e voltou a se abrigar sob a marquise. Duda engatou a marcha, o coração batendo descompassado. Olhou pelo retrovisor. Rafael ainda estava lá, um vulto sob a chuva, observando os carros passarem. A imagem dele, com os cabelos escuros e molhados e os olhos verdes perscrutadores, ficou gravada em sua mente.

Chegou em casa. Ricardo já estava na sala, absorto em um relatório. O cheiro de comida fria pairava no ar, um reflexo da falta de calor que ela sentia.

"Oi, amor. Demorou, hein?", disse ele, sem tirar os olhos do papel.

"Trânsito. Muita chuva." Duda tirou o casaco, sentindo o peso do dia e a estranha inquietação que Rafael lhe causara.

"Hum. Jantar está na mesa. Cheguei há pouco."

Ela foi até a cozinha. O jantar era o mesmo de sempre: um peixe assado, acompanhado de legumes. Sem sabor, sem alma. Enquanto comia, pensava no homem da chuva. Na voz dele, no olhar, naquele toque que parecia ter incendiado algo dentro dela. Algo que ela julgava adormecido para sempre.

Mais tarde, deitada na cama, ouvia a respiração calma de Ricardo ao seu lado. Ele dormia. Mais uma noite em que a intimidade era apenas uma formalidade. Fechou os olhos, e a imagem de Rafael voltou, nítida, vívida. Ele parado sob a chuva, o verde intenso de seus olhos refletindo as luzes da cidade. Uma faísca. Uma promessa de algo que ela não ousava nomear.

O desejo proibido, ela não sabia ainda, acabara de lançar sua primeira e perigosa semente. E Salvador, com sua beleza selvagem e suas paixões turbulentas, parecia ser o cenário perfeito para que ele florescesse. Duda sentiu um arrepio. Não era medo. Era algo mais forte. Algo que a atraía e a aterrorizava na mesma medida.

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