O Desejo Proibido

Capítulo 2 — O Aroma do Mar e da Saudade

por Camila Costa

Capítulo 2 — O Aroma do Mar e da Saudade

Os dias seguintes àquele encontro inesperado sob a chuva foram marcados por uma estranha névoa para Duda. A rotina em seu escritório no bairro da Barra transcorria com a eficiência habitual, as plantas de novos edifícios desdobrando-se sob seus dedos ágeis, as reuniões com clientes preenchidas com discursos polidos e profissionais. Mas, por baixo da superfície calma, uma corrente subterrânea de pensamentos a impelia constantemente para longe dali, para a imagem de Rafael.

Ela o via em todos os lugares. No brilho molhado do asfalto após uma garoa rápida, no verde intenso de uma planta tropical no hall do prédio, até mesmo no reflexo do mar que se estendia azul e imponente da sacada do seu escritório. O homem da livraria parecia ter se infiltrado em sua memória, um intruso bem-vindo e perigoso.

Ricardo, alheio a toda essa turbulência interna, continuava imerso em seus negócios. As conversas noturnas giravam em torno de fusões, aquisições e viagens de trabalho. Duda respondia, assentia, sorria nos momentos certos, mas sua mente vagava. Imaginava Rafael em seu dia a dia. O que ele fazia? Onde morava? Era um artista? Um músico? A incerteza era parte do fascínio.

Num sábado ensolarado, a necessidade de escapar da atmosfera densa da casa se tornou insuportável. Duda decidiu ir à praia. Sozinha. A Praia do Porto da Barra era seu refúgio, um lugar onde a energia vibrante da cidade e a calma das águas se misturavam de forma única. Colocou um biquíni azul-marinho, um vestido leve e saiu sem destino certo, apenas com a vontade de sentir a areia sob os pés e a brisa salgada no rosto.

Enquanto caminhava pela orla, absorvendo o som das ondas e o burburinho alegre das pessoas, algo chamou sua atenção. Sentado em uma barraca colorida, com um caderno de desenho aberto no colo e um lápis na mão, estava ele. Rafael.

Seu coração deu um salto. Era como se o universo tivesse conspirado para aquele reencontro. Ele parecia concentrado, os traços rápidos e seguros deslizando sobre o papel. Duda sentiu um misto de euforia e pânico. Deveria se aproximar? Pareceria invasiva? Ou deixaria a oportunidade escapar, como deixara naquele dia chuvoso?

Respirou fundo. A coragem que ela exercia em sua profissão, traçando linhas firmes e decisões arquitetônicas, precisava ser transposta para aquele momento. Com passos firmes, aproximou-se da barraca.

"Rafael?", chamou, a voz um pouco mais trêmula do que gostaria.

Ele ergueu os olhos, e o verde intenso a atingiu como um raio de sol. Um sorriso largo se abriu em seu rosto. "Duda! Que surpresa agradável."

Ele se levantou, fechando o caderno. Era ainda mais alto do que ela se lembrava, e sua presença preenchia o espaço com uma energia magnética.

"Eu… eu vim dar uma volta. Não esperava te encontrar aqui." Duda sentiu-se um pouco sem jeito, suas palavras soando desajeitadas.

"O mundo é pequeno, não é? Ou talvez Salvador seja apenas o palco perfeito para encontros inesperados." Ele gesticulou para a cadeira vazia ao seu lado. "Senta aqui comigo, se quiser. Estou apenas rabiscando um pouco."

Duda aceitou o convite. A cadeira de praia era simples, de lona, um contraste gritante com o conforto que ela estava acostumada. Mas, ao lado de Rafael, tudo parecia insignificante.

"O que você desenha?", ela perguntou, curiosa, espiando o caderno.

Ele abriu novamente. Eram esboços rápidos, mas cheios de vida: a fachada de um casarão antigo, um grupo de pescadores em seus barcos, o movimento das ondas. Havia uma beleza bruta e autêntica em seus traços.

"Eu desenho o que vejo. O que sinto. Salvador tem uma alma muito forte, sabe? É difícil não querer capturá-la de alguma forma."

"São lindos", Duda disse, sincera. "Você é artista?"

Rafael deu de ombros. "Eu vivo de arte. Mas não me defino apenas por isso. Sou restaurador. Trabalho com peças antigas, móveis, objetos. Resgato a história que eles carregam."

Restaurador. Aquilo explicava a delicadeza em seus traços e a força em suas mãos. A ideia de alguém que se dedica a resgatar o passado a tocou profundamente.

"É um trabalho fascinante", comentou. "Eu sou arquiteta. Também trabalho com o passado, de certa forma, preservando edifícios, mas também criando o futuro."

"Arquitetura e restauração. Ambas lidam com a forma, com a estrutura. Mas a restauração se debruça sobre o que já existe, sobre a essência. A arquitetura projeta o que ainda será." Ele a olhou com uma intensidade que a fez desviar o olhar para o mar. "Interessante como nossas vidas podem se cruzar por caminhos tão diferentes, mas com pontos em comum."

O sol da tarde banhava a praia com uma luz dourada, exatamente como a chuva que os unira. O som das ondas parecia embalar a conversa, tornando-a mais íntima. Duda sentiu uma conexão com Rafael que a surpreendeu. Havia uma profundidade em seus olhos, uma sabedoria em suas palavras, que a atraía de uma forma poderosa.

"Você é casado, Duda?", a pergunta veio direta, sem rodeios. Duda sentiu o estômago afundar.

Ela hesitou por um instante. A verdade crua, ou uma meia verdade conveniente? "Eu sou… casada." A palavra saiu com um peso que ela não queria admitir.

Rafael assentiu, o sorriso desaparecendo ligeiramente. Não havia julgamento em seu olhar, apenas uma constatação. "Entendo."

Um silêncio se instalou entre eles, preenchido pelo barulho das ondas e pela consciência da barreira invisível que acabara de se erguer. Duda sentiu um aperto no peito. Aquele encontro era tão promissor, tão cheio de uma energia nova e excitante, mas a realidade de seu casamento se impunha, fria e implacável.

"Você mora em Ondina, não é?", Rafael perguntou, mudando o assunto de forma sutil.

"Sim. Perto daqui."

"Eu… moro perto também. No Rio Vermelho." Ele olhou para o horizonte. "Gosto de vir até a Barra. O pôr do sol daqui é especial."

"É sim", Duda concordou, uma pontada de tristeza misturada com um fio de esperança. Rio Vermelho. Perto.

"Você gosta de música?", ele perguntou, de repente.

"Gosto. Muita música."

"Eu estou organizando um evento pequeno de MPB no próximo sábado, em um barzinho charmoso no Rio Vermelho. Seria um prazer se você pudesse ir." Ele a olhou, e havia um convite genuíno em seus olhos. Um convite que ia além da música.

Duda sentiu o coração disparar. Um evento com Rafael. Sem Ricardo. A ideia era tentadora, quase irresistível. Mas e Ricardo? O jantar de sábado. A rotina.

"Eu… preciso ver", ela respondeu, a voz baixa. "Meu marido… ele tem… planos."

Rafael a compreendeu. A decepção em seu rosto foi sutil, mas Duda a percebeu. Ele não insistiu. Apenas assentiu.

"Tudo bem. Se puder, me procure por lá. O 'Cantiga Baiana'."

Eles conversaram por mais algum tempo, sobre arte, sobre Salvador, sobre a vida. Mas a sombra do casamento de Duda pairava no ar, um fantasma indesejado. Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu com tons vibrantes de rosa e laranja, Duda soube que precisava ir.

"Foi um prazer te encontrar de novo, Rafael."

"O prazer foi todo meu, Duda." Ele a acompanhou até a saída da barraca. "Espero te ver no sábado."

Ao caminhar de volta para o carro, Duda sentiu uma mistura de frustração e excitação. Ela havia reencontrado Rafael, havia se permitido por alguns momentos fugir da realidade. Mas a barreira ainda estava lá, imponente.

Ao chegar em casa, Ricardo estava na varanda, fumando um charuto.

"Onde você estava? Demorou."

"Na praia. Precisava de um ar."

"Precisava de um ar? Duda, você está estranha ultimamente. O que está acontecendo?" A voz dele era calma, mas havia uma tensão subjacente.

Duda respirou fundo. "Nada, Ricardo. Só estou cansada."

Ela sabia que aquela cansada não era apenas física. Era uma exaustão da alma, um cansaço de uma vida que não lhe pertencia mais. E, no fundo de seu coração, uma pequena e perigosa chama de esperança se acendia. A esperança de que, talvez, ela pudesse encontrar uma brecha, uma saída, um caminho para desviar daquele destino traçado. Um caminho que a levasse de volta para o homem com os olhos verdes e a voz grave.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%