O Desejo Proibido
Capítulo 20 — Nas Docas Sombrias e o Jogo de Gato e Rato
por Camila Costa
Capítulo 20 — Nas Docas Sombrias e o Jogo de Gato e Rato
O ar nas docas era denso, carregado com o cheiro salgado do mar e o odor acre de combustível. A noite ainda não havia cedido completamente ao dia, e a iluminação precária dos postes criava um jogo de sombras sinistras nos galpões abandonados e nos navios adormecidos. Clara sentia a tensão no ar, um prenúncio da perigosa missão que os aguardava. Marcos Silva, com seu rosto marcado pela preocupação, mantinha-se alerta, os olhos perscrutando cada movimento nas imediações.
Eles haviam chegado ao local indicado por Marcos: um bar decadente, cujo letreiro enferrujado mal conseguia emitir uma luz amarelada e fraca. O "Bar do Porto", como era chamado, parecia um refúgio para almas perdidas e negócios escusos. A música abafada e o burburinho de vozes eram um prenúncio do submundo que Clara estava prestes a adentrar.
Ao entrarem, um silêncio momentâneo pairou sobre os poucos frequentadores do local. Todos os olhares se voltaram para os recém-chegados, avaliando-os. Marcos, sentindo a hostilidade velada, guiou Clara até um canto escuro do bar, onde um homem corpulento, com cicatrizes no rosto e um olhar penetrante, observava-os de longe. Este era Ricardo.
"Ricardo?", Marcos chamou, a voz baixa e cautelosa.
O homem assentiu com a cabeça, um leve sorriso surgindo em seus lábios. Ele se levantou e caminhou em direção a eles, com passos firmes e decididos. "Marcos. Que surpresa desagradável te ver por aqui. E quem é a moça bonita?"
"Esta é Clara", Marcos apresentou, a voz tensa. "Ela é quem Rafael confiou. E ela precisa da sua ajuda."
Ricardo olhou para Clara com uma curiosidade que beirava a desconfiança. "Rafael? Aquele garoto corajoso que se meteu com gente perigosa? Ele me deve uma, é verdade. Mas o que ele quer de mim através de você?"
Clara, com a voz embargada, explicou a situação: o desaparecimento de Rafael, as provas contra Montenegro, e a necessidade de encontrá-lo antes que fosse tarde demais. Ela entregou a ele a folha com os contatos e o endereço de Marcos, que Rafael havia deixado como garantia.
Ricardo leu as informações, seu rosto impassível. "Montenegro... esse homem é um câncer. Ele corrói tudo o que toca. Rafael era um idiota por se meter com ele, mas um idiota corajoso." Ele olhou para Clara com uma intensidade que a fez sentir-se exposta. "Eu posso ajudar. Rafael me salvou de uma situação difícil anos atrás. Mas o que você me pede é arriscado. Encontrar um homem nas garras de Montenegro é como brincar com fogo."
"Eu preciso dele de volta", Clara implorou, a voz carregada de emoção. "Ele é tudo para mim."
Ricardo suspirou, seus olhos fixando-se em Clara. "Eu sei onde Montenegro costuma manter seus 'convidados' especiais. Há um antigo complexo industrial, abandonado, mas ainda vigiado. É um lugar difícil de acessar. E mais difícil ainda de sair vivo."
"Você pode nos levar até lá?", Clara perguntou, a esperança florescendo em seu peito.
"Posso. Mas você terá que ser forte, moça. E rápida. Montenegro não é bobo. Ele sabe que Rafael tem informações. Ele vai tentar extrair tudo o que pode dele. E se você for pega... não haverá ninguém para te salvar."
Ricardo fez um sinal com a cabeça para que eles o seguissem. Eles saíram do bar e entraram em um carro velho e discreto que estava estacionado nas proximidades. O veículo, dirigido por Ricardo, cortou a escuridão em direção ao complexo industrial. Clara sentia o coração acelerado, a mistura de medo e determinação a consumindo. Ela sabia que estava prestes a entrar em um território perigoso, um campo de batalha onde a vida de Rafael estava em jogo.
A viagem até o complexo industrial foi tensa e silenciosa. Ricardo, com sua experiência no submundo, navegou pelas ruas desertas com precisão, evitando os poucos patrulheiros que ainda rondavam a cidade. Ao chegarem ao local, Clara viu a imensidão sombria do complexo se erguer contra o céu ainda escuro. As estruturas de metal retorcidas e os prédios em ruínas pareciam fantasmas de um passado industrial.
"É aqui", Ricardo sussurrou, estacionando o carro a uma distância segura. "As entradas são vigiadas. Precisamos ser discretos."
Eles desceram do carro, e Clara sentiu o ar frio da madrugada em sua pele. O silêncio do local era opressor, apenas quebrado pelo som distante do mar e o uivo do vento. Ricardo os guiou por um caminho sinuoso, contornando cercas e muros altos. Clara sentia a adrenalina correr em suas veias, cada sombra parecendo esconder um perigo iminente.
"Montenegro mantém seus prisioneiros em um dos antigos galpões", Ricardo explicou, a voz baixa. "O galpão número 7. É o mais isolado. Mas a segurança é pesada."
Eles se aproximaram do galpão, a estrutura imponente e escura, com janelas opacas e guardas armados visíveis em pontos estratégicos. Clara sentiu um aperto no peito. Como conseguiriam entrar sem serem detectados?
"Há uma entrada de serviço nos fundos", Ricardo disse, apontando para uma pequena porta metálica escondida em meio à vegetação. "É menos vigiada, mas ainda assim perigosa. Precisamos agir rápido. Não temos muito tempo."
Enquanto se aproximavam da entrada de serviço, um som chamou a atenção de Clara. Um grito fraco, abafado, mas inconfundível. Era a voz de Rafael.
"Rafael!", Clara gritou, ignorando o perigo.
Ricardo a segurou firmemente. "Calma, moça! Não podemos nos expor. Precisamos ser inteligentes."
Eles conseguiram abrir a porta de serviço com a ajuda de Ricardo, que demonstrou uma habilidade surpreendente em lidar com fechaduras. Ao entrarem no galpão, a escuridão era quase total. O cheiro de mofo e metal velho invadia suas narinas. A única luz vinha de alguns focos tênues espalhados pelo teto alto.
"Por ali", Ricardo sussurrou, apontando para um corredor escuro. "Ouvi dizer que eles o mantêm em uma sala nos fundos."
Eles avançaram com cautela, os passos ecoando no silêncio do galpão. Clara sentia o coração disparado, cada ruído aumentando sua apreensão. Eles avistaram uma porta de metal, mais reforçada que as outras, no final do corredor. Guardas armados estavam posicionados em frente a ela.
"É ali", Ricardo confirmou. "Precisamos de um plano."
De repente, um som metálico rasgou o silêncio. Uma porta se abriu em outro ponto do galpão, e as luzes se acenderam abruptamente, revelando a figura de Eduardo Montenegro, acompanhado por dois homens armados. Ele sorria friamente, como um predador satisfeito.
"Ora, ora", Montenegro disse, a voz carregada de sarcasmo. "O que temos aqui? A bela Clara, vindo resgatar seu amado? E o traidor Marcos. Que surpresa desagradável."
Clara sentiu o sangue gelar. Eles haviam sido descobertos. O jogo de gato e rato havia chegado ao seu clímax.
"Onde está Rafael?", Clara exigiu, a voz tremendo, mas firme.
Montenegro riu. "Seu amado está aqui, querida. Mas ele não vai a lugar algum. Ele tem informações valiosas. E você, minha cara, veio buscá-las para mim."
Os guardas apontaram suas armas para Clara, Marcos e Ricardo. Clara sentiu um nó na garganta. A armadilha havia se fechado. Mas, em meio ao desespero, um lampejo de coragem a invadiu. Ela olhou para Montenegro, para a arrogância em seus olhos, e soube que não podia ceder. A vida de Rafael, a verdade sobre seu pai, tudo dependia de sua força. Ela estava em um jogo perigoso, mas estava disposta a jogar. Mesmo que a aposta fosse a sua própria vida. A tempestade havia chegado às docas sombrias, e Clara estava no centro dela.