O Desejo Proibido

Capítulo 7 — O Eco dos Sussurros

por Camila Costa

Capítulo 7 — O Eco dos Sussurros

As horas se arrastaram como um rio lento e turvo para Helena. A chuva que caíra com a força de uma fúria primordial havia dado lugar a um chuvisco persistente, um véu de umidade que envolvia Paraty em um abraço cinzento. Dentro da pousada, o ar estava pesado, carregado não apenas pela umidade, mas pela tensão silenciosa que pairava entre ela e Ricardo. Ele a observava de vez em quando, um olhar que misturava culpa, esperança e uma dor que ela reconhecia em si mesma.

Após a conversa reveladora da noite anterior, a noite fora de vigília para ambos. Helena se encolhera em sua cama, o corpo exausto, mas a mente a mil. Cada palavra de Ricardo, cada nuance em sua voz, cada hesitação, se repetia em sua mente como um mantra doloroso. A verdade sobre o envolvimento dele, mesmo que indireto, no fim de seu casamento com André, era um fardo pesado demais. Ela se sentia traída, não por Ricardo diretamente, mas pelo destino cruel que a havia mantido alheia à verdade por tanto tempo.

Ricardo, por sua vez, parecia um fantasma em sua própria casa. Seus passos eram silenciosos, sua expressão, sombria. Ele se movia pela pousada como um animal enjaulado, a inquietação transbordando em cada gesto. Os olhos de Miguel, que antes transmitiam inocência e curiosidade, agora pareciam absorver a atmosfera pesada, a preocupação velada substituindo o brilho infantil. Ele se mantinha perto do pai, um pequeno apoio em meio à tempestade que se formava.

Helena sabia que precisava falar com Ricardo novamente. A conversa da noite anterior, embora fundamental, fora abrupta, carregada de emoção e dor. Faltava clareza, faltava a explicação completa, a reconstrução da linha do tempo que a levara àquela situação insustentável. Ela o encontrou na sala de estar, sentado em uma poltrona antiga, o olhar perdido na paisagem embaçada pela chuva através da janela. A luz fraca da manhã realçava as linhas de preocupação em seu rosto, as rugas que o tempo e as preocupações haviam gravado em sua pele.

“Ricardo?”, ela chamou, a voz um pouco trêmula.

Ele se virou, seus olhos encontrando os dela. Havia uma vulnerabilidade em seu olhar que a desarmou. “Helena. Pensei que estivesse dormindo.”

Ela se aproximou, sentando-se em um sofá em frente a ele. A distância entre eles, que antes parecia apenas física, agora era amplificada pela barreira invisível dos segredos revelados. “Não consegui. Tanta coisa para processar.”

Ele suspirou, o som saindo de seu peito como um lamento. “Eu sei. E eu… eu sinto muito, Helena. Sinto muito por não ter tido a coragem de te contar antes. Sinto muito por ter deixado que tudo isso acontecesse.”

“Por que você não me contou, Ricardo?”, ela perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma urgência que ele não podia ignorar. “Por que deixou que eu acreditasse que André simplesmente se afastou? Por que não me disse que você tinha conhecimento da situação, que talvez… talvez pudesse ter evitado?”

Ricardo desviou o olhar, a culpa estampada em seu rosto. “Não é tão simples, Helena. Não foi uma escolha fácil. Havia muitas pessoas envolvidas, muitos interesses. E, acima de tudo, havia a minha própria covardia.” Ele fez uma pausa, respirando fundo. “Quando André me contou sobre a situação, sobre os problemas financeiros que ele estava enfrentando e a pressão que ele sofria… eu estava em uma posição delicada. Tinha acesso a informações que poderiam ter ajudado, sim. Mas também tinha… um acordo. Um acordo que me protegia, mas que me obrigava ao silêncio.”

“Um acordo? Que tipo de acordo, Ricardo?”, ela insistiu, a curiosidade misturada à apreensão.

Ele hesitou, o olhar percorrendo o rosto dela, como se buscasse a melhor forma de explicar. “Na época, eu estava iniciando meus investimentos em uma nova empresa. Precisava de capital. André… ele me apresentou a algumas pessoas. Pessoas com muito dinheiro, mas com métodos questionáveis. Eles me ofereceram o investimento, mas com uma condição clara: silêncio absoluto sobre suas operações. E isso incluía não interferir nos negócios de ninguém, nem mesmo nos de André, quando se tratava de dívidas ou de… acordos que eles faziam.”

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A imagem de André, obcecado pelo trabalho e pela necessidade de provar seu valor, surgiu em sua mente. Ele sempre fora um homem orgulhoso, mas também suscetível à pressão. A ideia de que ele pudesse ter se envolvido em algo sombrio, e que Ricardo soubesse disso, era perturbador.

“Então você sabia que André estava em apuros?”, ela perguntou, a voz embargada. “E você ficou calado?”

“Eu… eu tentei ajudar de outras formas, Helena. Tentei conversar com ele, oferecer conselhos. Mas ele era teimoso, orgulhoso demais para admitir que precisava de ajuda. E eu… eu tinha medo. Medo de perder tudo o que eu havia conquistado. Medo de ser arrastado para o mesmo pântano em que ele se afogava.” Ricardo olhou para ela, a dor em seus olhos genuína. “Eu vi a sua dor, Helena. Eu via o quanto você sofria com a distância dele, com o silêncio. E eu me sentia um monstro por saber a verdade e não poder te dizer. Por ter permitido que a minha própria segurança me cegasse para o seu sofrimento.”

O silêncio pairou entre eles, denso e carregado de ressentimento e culpa. Helena sentiu o peso das palavras de Ricardo, o eco dos sussurros do passado que agora a envolviam. Ela sabia que ele não era o único culpado. André também tinha sua parcela de responsabilidade. Mas a revelação de que Ricardo, o homem que ela amava, havia tido conhecimento de tudo e permanecido calado, era um golpe duro.

Miguel entrou na sala, carregando um pequeno avião de brinquedo. Ele parou ao ver os pais, a expressão confusa. “Vocês estão bem?”

Helena forçou um sorriso para o filho de Ricardo. “Estamos bem, meu amor. Só conversando.”

Miguel olhou para o pai, depois para Helena, como se pudesse sentir a tensão no ar. Ele se aproximou e se sentou no colo de Ricardo, que o abraçou instintivamente, um gesto de proteção que contrastava com a sua própria fragilidade.

“Pai, a Sofia disse que a gente pode ir ver os barquinhos mais tarde, se a chuva parar”, Miguel disse, a voz animada.

Ricardo deu um leve aperto em Miguel. “Que bom, filho. Vamos ver.” Ele olhou para Helena, um pedido silencioso em seus olhos. “Helena, eu sei que é difícil. E eu não espero que você me perdoe imediatamente. Mas eu preciso que você saiba que eu estou aqui. Que eu vou fazer tudo o que puder para consertar as coisas. Para sermos honestos, de verdade, desta vez.”

Helena o observou, o coração apertado. A sinceridade em sua voz era inegável. Ela sabia que ele estava sofrendo com a situação, que a verdade o corroía tanto quanto a ela. Mas a confiança, uma vez quebrada, era difícil de reconstruir.

“Ricardo”, ela começou, a voz ainda hesitante. “Eu preciso de tempo. Preciso de tempo para processar tudo isso. Para entender se… se há um caminho para nós dois depois de tanta coisa.”

Ele assentiu, a aceitação amarga em seus olhos. “Eu entendo. Mas saiba que, enquanto você precisa de tempo, eu estarei aqui. Esperando. E tentando ser o homem que você merece.”

A chuva parou, mas o céu continuava nublado. O dia em Paraty se desenrolava em tons de cinza, um reflexo da complexidade de seus sentimentos. Helena sentiu a necessidade de se afastar um pouco, de colocar seus pensamentos em ordem longe da presença intensa de Ricardo.

“Eu vou dar uma volta”, ela disse, levantando-se. “Preciso de um pouco de ar.”

Ricardo assentiu, um gesto de compreensão em seu rosto. “Tudo bem. Mas não vá muito longe. E se precisar de algo, me chame.”

Ela acenou com a cabeça e saiu da pousada, deixando para trás o eco dos sussurros do passado e a promessa de um futuro incerto. O caminho de pedras úmidas a levava em direção ao centro histórico, mas sua mente vagava em um labirinto de lembranças, de verdades ocultas e de um amor que agora parecia tão perigoso quanto irresistível. Ela precisava encontrar a clareza em meio àquela confusão, e talvez, apenas talvez, a resposta que buscava estivesse nas ruas tranquilas de Paraty, onde o passado e o presente se misturavam em um abraço melancólico.

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