O Desejo Proibido

Capítulo 8 — A Cicatriz do Tempo

por Camila Costa

Capítulo 8 — A Cicatriz do Tempo

O aroma de café fresco e pão de queijo recém-assado pairava no ar da cozinha da pousada, mas para Helena, o cheiro era insuficiente para afastar a melancolia que se instalara em seu peito. A conversa com Ricardo, embora necessária, deixara um rastro de dor e incerteza. A verdade sobre o passado, sobre o envolvimento de Ricardo em sua separação de André, era como uma cicatriz antiga que se reabria, exposta ao tempo e à dor.

Ela observava Ricardo interagir com Miguel, um sorriso forçado em seu rosto enquanto eles planejavam a tarde. A cena, por si só, deveria ser reconfortante, um vislumbre de um homem dedicado ao filho. No entanto, para Helena, cada gesto de carinho entre eles era um lembrete doloroso do que ela não sabia, do que lhe fora ocultado. A confiança, outrora um alicerce sólido em sua relação com Ricardo, agora era um castelo de areia, prestes a ser desfeito pelas ondas da verdade.

Ela sabia que não podia mais se esconder. A confissão de Ricardo, por mais dolorosa que fosse, era um ponto de partida. Ela precisava entender a profundidade do envolvimento dele, as razões que o levaram ao silêncio e, acima de tudo, o que isso significava para o futuro deles. A atração que sentia por Ricardo ainda ardia, um fogo que ela tentava, em vão, apagar. Mas agora, esse fogo era temperado pela cautela, pela desconfiança.

Mais tarde, enquanto o sol tentava romper as nuvens teimosas, Helena decidiu dar um passeio sozinha. Ela caminhou pelas ruas de Paraty, o som dos seus passos ecoando na quietude das ladeiras. A arquitetura colonial, as igrejas históricas, as casas coloridas com janelas emolduradas por flores exuberantes – tudo parecia sussurrar histórias antigas, segredos guardados pelas pedras e pelo tempo.

Ela se dirigiu à igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, um local que sempre a atraiu pela sua simplicidade e pela aura de paz que emanava. Sentou-se em um dos bancos de madeira, fechando os olhos e buscando um momento de serenidade. A imagem de Sofia, a mãe de Ricardo, surgiu em sua mente. A mulher enigmática, cujo olhar parecia carregar o peso de muitas dores. Helena sentia uma conexão com Sofia, uma compreensão silenciosa de que ambas carregavam fardos pesados, segredos que moldavam suas vidas.

“Dona Sofia?”, ela chamou em voz baixa, sentindo-se um pouco tola por falar em um lugar sagrado. Mas a necessidade de entender, de buscar respostas, a impelia.

Para sua surpresa, ela ouviu um sussurro em resposta. “Helena? É você?”

Ela abriu os olhos e viu Sofia em uma capela lateral, ajoelhada em oração. A mulher se levantou lentamente, o semblante sereno, mas com um toque de tristeza nos olhos.

“Sofia”, Helena disse, levantando-se e aproximando-se. “Eu… eu queria conversar com você.”

Sofia a observou por um momento, como se pudesse ler seus pensamentos. “Eu imaginei que você gostaria. Ricardo me contou que conversaram.”

Um suspiro escapou dos lábios de Helena. “É tudo tão… complicado. Eu não sei o que pensar, o que sentir.”

Sofia assentiu, um gesto de compreensão. “O passado tem uma forma peculiar de nos assombrar, não é mesmo? Ele se aninha em nós, em nossas memórias, em nossos corações. E às vezes, precisa ser desenterrado para que possamos seguir em frente.”

Helena olhou para Sofia, sentindo uma ponta de esperança. Talvez a mãe de Ricardo pudesse lhe dar uma perspectiva diferente, uma visão mais ampla da situação. “Ricardo me disse sobre o acordo. Sobre o envolvimento dele… indireto, mas presente. Eu não consigo entender, Sofia. Como ele pôde ficar em silêncio sabendo o quanto isso me machucava?”

Sofia suspirou, seus olhos fixando-se em um ponto distante. “Ricardo era jovem, Helena. E ambicioso. Ele via uma oportunidade única, e as pessoas que lhe ofereceram essa oportunidade eram perigosas. Eles não toleravam interferências. Se ele falasse, se ele tentasse intervir no que quer que André estivesse se metendo, ele não perderia apenas o investimento, mas também… sua própria segurança.” Ela fez uma pausa, a voz embargada. “Eu mesma… eu já tentei conversar com André na época. Ele estava tão desesperado, tão pressionado. E eu vi nos olhos dele que ele estava se enredando em algo que não podia controlar.”

Helena sentiu um nó se formar em sua garganta. A ideia de André se envolvendo com pessoas perigosas, e de Ricardo sabendo disso, era mais perturbadora do que ela imaginara.

“Mas por que você não me contou, Sofia? Por que deixou que eu sofresse tanto?”

Sofia olhou para Helena, seus olhos cheios de uma dor antiga. “Porque eu também estava apavorada, Helena. Eu via o quanto você amava André, o quanto você acreditava nele. E eu tinha medo de te dizer a verdade e destruir você. Medo de que você se envolvesse com essas pessoas também. E, acima de tudo, medo de que isso colocasse Ricardo em ainda mais perigo.” Ela estendeu a mão e tocou o braço de Helena. “Às vezes, o silêncio parece a única proteção. Uma proteção ilusória, eu sei. Mas na hora, parece a única saída.”

Helena sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. A dor que ela sentira por tantos anos, a sensação de abandono e traição, agora ganhava novas camadas. Ela olhou para Sofia, vendo nela não apenas a mãe de Ricardo, mas uma mulher que também carregava o peso de segredos e de escolhas difíceis.

“Eu… eu não sabia”, Helena sussurrou, a voz embargada. “Eu pensei que André simplesmente tivesse desistido de nós.”

Sofia apertou o braço dela com carinho. “O amor é complexo, Helena. E as circunstâncias podem nos forçar a tomar decisões que nos assombram para sempre. Ricardo te ama. Eu sei disso. E ele se arrepende profundamente de não ter sido mais corajoso naquela época.”

As palavras de Sofia, embora não apagassem a dor, trouxeram um certo alívio. A compreensão de que não fora apenas Ricardo quem a havia traído, mas que André também havia se envolvido em algo sombrio e perigoso, mudava a perspectiva. E o fato de Sofia, uma mulher que ela respeitava, ter compartilhado sua dor e seu medo, a fez sentir menos sozinha.

“Eu preciso pensar, Sofia”, Helena disse, a voz mais firme agora. “Preciso processar tudo isso. Não sei se consigo perdoar facilmente.”

“E você não precisa”, Sofia respondeu com gentileza. “O perdão é um caminho longo. Mas o entendimento… o entendimento pode ser o primeiro passo.” Ela sorriu levemente. “Agora, que tal um café? A luz do sol parece querer aparecer. Talvez seja um bom sinal.”

Helena assentiu, sentindo uma pequena faísca de esperança em meio à escuridão. Ela saiu da igreja com Sofia, o ar de Paraty parecendo um pouco mais leve. A cicatriz do tempo ainda doía, mas agora ela tinha uma compreensão mais profunda de sua origem. A conversa com Sofia não apagou o passado, mas lhe deu uma nova perspectiva, uma maneira de olhar para as feridas sem se deixar consumir por elas. E enquanto caminhavam de volta para a pousada, Helena sabia que, embora o caminho à frente fosse incerto, ela não estava mais completamente sozinha em sua jornada. Ela tinha a verdade, e com ela, a chance de reconstruir.

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