O Milionário Solitário
Capítulo 12 — A Véspera do Jantar
por Camila Costa
Capítulo 12 — A Véspera do Jantar
A mansão, geralmente tão silenciosa e austera, parecia pulsar com uma nova energia. A notícia do jantar especial de Eduardo se espalhou pelos corredores como um sussurro, mas um sussurro carregado de expectativa. Afinal, era raro que o recluso senhor Montenegro organizasse qualquer tipo de evento social. E mais raro ainda era a presença de alguém desconhecido para o círculo mais íntimo e exclusivo que, por vezes, frequentava a propriedade.
Sofia, por sua vez, sentia uma agitação interna que a surpreendia. A aceitação do convite de Eduardo era um passo ousado, um salto no desconhecido. Ela não tinha experiência com jantares formais, com a etiqueta que, ela imaginava, seria exigida. Seu guarda-roupa, modesto e prático, não possuía nenhuma peça que se adequasse a um evento de tamanha magnitude. A dúvida a assaltava. Seria uma intrusa? Uma pária em meio a tanta elegância?
Dona Aurora, percebendo a ansiedade em seus olhos, aproximou-se dela na manhã seguinte, enquanto Sofia organizava alguns livros na biblioteca.
"Senhorita Sofia", disse a governanta, com um sorriso gentil. "Vi que o senhor Eduardo a convidou para o jantar. É uma honra, não é?"
Sofia deu um pequeno sorriso forçado. "É… inesperado, Dona Aurora."
"Tudo na vida do senhor Eduardo é inesperado", comentou a governanta, com um leve brilho nos olhos. "Mas acredito que ele vê algo em você que o agrada. Algo que o faz querer compartilhar um pouco de sua vida."
"Eu não sei o que ele vê", Sofia confessou, sentindo-se vulnerável. "Sinto-me tão deslocada aqui. Não tenho nada… a oferecer."
"Bobagem!", Dona Aurora a interrompeu, com firmeza. "Você tem mais a oferecer do que muitos que desfilam por aí com pose de pavões. Você tem gentileza, inteligência e uma alma que brilha. E quanto ao vestido… não se preocupe com isso."
Dona Aurora se afastou por um momento e retornou com um pequeno embrulho em mãos. "Isto é para você. Pertencia à minha falecida filha. É simples, mas elegante. Acredito que lhe cairá como uma luva. E eu mesma farei questão de ajudá-la com os retoques, se necessário."
Sofia abriu o embrulho com as mãos trêmulas. Lá dentro, encontrou um vestido de seda azul-marinho, com um corte clássico e um decote discreto. Era lindo, delicado e parecia emanar um perfume de lembranças.
"Dona Aurora… eu não sei o que dizer", Sofia murmurou, emocionada, com os olhos marejados. "É… é maravilhoso."
"É apenas um gesto de boa vontade, minha querida", disse a governanta, apertando sua mão. "Amanhã à noite, você brilhará. Tenho certeza disso."
As palavras de Dona Aurora trouxeram um alívio imenso para Sofia. Ela vestiu o vestido em seu quarto, sentindo a seda escorregar suavemente por sua pele. O corte era perfeito, a cor realçava o tom da sua pele e dos seus cabelos. Olhou-se no espelho e, pela primeira vez, sentiu-se parte daquele cenário de opulência, não como uma intrusa, mas como uma convidada.
Enquanto isso, Eduardo também se preparava para a noite. A mansão estava sendo preparada com um cuidado meticuloso. Os jardins, que já eram um espetáculo, ganharam uma iluminação especial, com pequenas lanternas que criavam um ambiente mágico. A sala de jantar, imensa e adornada com lustres de cristal, estava sendo posta com a melhor louça e os talheres de prata mais finos.
Ele estava em seu closet, escolhendo um terno. A rotina habitual de escolher as peças, o corte impecável, o tecido caro, tudo parecia sem sentido naquela noite. Sua mente estava em Sofia. Em como ela estaria. Em como ela se sentiria.
Seu mordomo particular, um homem discreto e eficiente chamado Sr. Almeida, aproximou-se. "Senhor Eduardo, os convidados confirmaram presença. Haverá a senhora e o senhor Valente, o embaixador e sua esposa, e a família Drummond. Como o senhor desejava."
Eduardo assentiu, a testa franzida. "E a senhorita Sofia… ela está ciente do horário?"
"Sim, senhor. Dona Aurora já a informou. Ela estará pronta às sete e meia."
Às sete e quinze, Sofia desceu as escadas principais. O vestido azul-marinho parecia brilhar sob a luz dos lustres. Ela estava linda, com uma elegância natural que superava qualquer joia. Dona Aurora a esperava na base da escada, com um sorriso orgulhoso.
"Você está deslumbrante, senhorita Sofia", elogiou a governanta.
"Graças a você, Dona Aurora", respondeu Sofia, sentindo-se um pouco mais confiante.
Nesse exato momento, Eduardo surgiu do salão principal. Ele usava um terno escuro, impecável. Seus olhos pousaram em Sofia, e por um instante, ele ficou sem palavras. A surpresa e a admiração eram evidentes em seu rosto.
"Sofia… você está… incrível", ele disse, a voz embargada.
Sofia sentiu um calor subir em seu rosto. "Obrigada, senhor Eduardo. O vestido é… um presente de Dona Aurora."
"Um presente muito bem escolhido", ele respondeu, recuperando a compostura, mas seus olhos ainda a analisavam com uma intensidade que a deixava um pouco nervosa. "Você está pronta?"
"Pronta o quanto posso estar", ela respondeu, tentando um sorriso.
"O jantar será… mais informal do que o habitual", ele disse, estendendo-lhe o braço. "Quero que se sinta à vontade. Como em casa."
Sofia aceitou o braço dele, sentindo um arrepio percorrer seu corpo. A mão dele era quente e firme. Caminharam juntos em direção ao salão principal, onde os primeiros convidados começavam a chegar.
Ao adentrarem o salão, um burburinho de vozes cessou por um instante. Todos os olhares se voltaram para eles. Sofia sentiu um aperto no peito, mas a mão de Eduardo em seu braço a transmitia segurança. Ele a apresentou com uma naturalidade surpreendente.
"Meus caros amigos, apresento a vocês a senhorita Sofia Ribeiro. Ela tem sido uma hóspede… muito especial em minha casa."
A atmosfera era densa, carregada de curiosidade e, em alguns olhares, uma pontada de desaprovação. Sofia tentou manter a compostura, oferecendo um sorriso discreto a cada um. O senhor e a senhora Valente, um casal de idosos elegantes, a cumprimentaram com simpatia. O embaixador, um homem de meia-idade com um olhar perspicaz, ofereceu um sorriso polido. Mas foram os Drummond, um casal mais jovem e ostensivo, que a encararam com um desdém disfarçado.
"Senhorita Ribeiro", disse a Sra. Drummond, com um sorriso forçado. "Não sabia que o senhor Montenegro estava recebendo… hóspedes de outra natureza."
Sofia sentiu o rosto corar, mas antes que pudesse responder, Eduardo interveio, sua voz fria e cortante.
"Senhora Drummond", ele disse, sem desviar o olhar dela. "A senhorita Sofia Ribeiro é uma convidada. E a minha companhia é a única que importa. Por favor, mantenha suas observações para si mesma."
O tom de Eduardo era inconfundível. Um aviso claro e direto. A Sra. Drummond engoliu em seco, o sorriso desaparecendo de seus lábios. O Sr. Drummond puxou a esposa discretamente.
Sofia olhou para Eduardo, surpresa com a sua defesa tão direta. Uma onda de gratidão a inundou. Ele a estava protegendo.
"Obrigada, senhor Eduardo", ela sussurrou, quando os outros convidados se dispersaram para conversar.
"Não mencione isso", ele respondeu, seu olhar ainda fixo nela. "Algumas pessoas precisam aprender a ser mais… respeitosas."
A noite estava apenas começando, e Sofia já sentia que aquele jantar seria uma prova de fogo. Mas com Eduardo ao seu lado, defendendo-a com uma veemência inesperada, ela sentia que talvez, apenas talvez, ela pudesse sobreviver a tudo aquilo. E mais do que sobreviver, talvez ela pudesse, de alguma forma, florescer.
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