O Milionário Solitário
Capítulo 13 — O Jantar e as Sombras
por Camila Costa
Capítulo 13 — O Jantar e as Sombras
A sala de jantar exalava uma atmosfera de luxo contido. A luz dourada dos lustres refletia nas taças de cristal e nos talheres polidos, criando um cenário de opulência. Sofia, sentada à mesa ao lado de Eduardo, sentia-se como uma borboleta tentando se equilibrar em um ramo de rosas espinhosas. A conversa fluía em torno dela, um turbilhão de assuntos que iam desde política internacional até os mais recentes escândalos da alta sociedade.
Ela tentava acompanhar, mordiscando discretamente os lábios a cada vez que um comentário mais ácido era feito, ou quando um olhar inquisitivo recaía sobre ela. A Sra. Drummond, ao que parecia, não havia esquecido o incidente anterior. Seus comentários, embora velados, eram cortantes, direcionados a Sofia de forma sutil, mas incisiva.
"É tão admirável como algumas pessoas conseguem se adaptar a novos ambientes tão rapidamente", disse a Sra. Drummond, após um breve silêncio, enquanto olhava para Sofia com um sorriso que não alcançava os olhos. "Devem ter um talento especial para a camuflagem."
Sofia sentiu um aperto no estômago. Olhou para Eduardo, esperando uma reação. Ele, no entanto, mantinha uma expressão impassível, apenas trocando um olhar rápido com a Sra. Drummond, que parecia um aviso silencioso.
"O talento para a adaptação, minha cara Clarissa", respondeu o Sr. Valente, um homem de fala mansa e olhar bondoso, dirigindo-se à Sra. Drummond, "vem da inteligência e da capacidade de observar e aprender. E a senhorita Sofia, com sua serenidade, demonstra possuir ambas as qualidades em abundância."
Sofia sentiu um calor no peito. O Sr. Valente havia percebido a intenção da Sra. Drummond e a havia defendido discretamente. Ela sorriu para ele, um sorriso sincero de gratidão.
Eduardo, percebendo a tensão, mudou de assunto, dirigindo-se ao embaixador. "Embaixador Costa, como está a situação das negociações em Genebra? Há alguma esperança de um acordo favorável?"
A conversa então se desviou para assuntos mais formais, deixando Sofia um pouco mais à vontade, mas ainda assim, observadora. Ela notava a forma como Eduardo navegava pela conversa com uma desenvoltura impressionante, alternando entre a frieza calculista de um negociador e a cordialidade de um anfitrião. Era um jogo de aparências, e ele era um mestre.
Mas em alguns momentos, quando seus olhos encontravam os dela, Sofia vislumbrava algo além da máscara. Uma vulnerabilidade, uma melancolia que a tocava profundamente. Ele parecia tão deslocado quanto ela, apesar de ser o dono de todo aquele luxo.
O jantar prosseguiu, com os pratos servidos em uma sequência impecável, cada um uma obra de arte culinária. Sofia provava de tudo com um certo receio, mas a qualidade era inegável. Ela se concentrava em apreciar os sabores, em absorver a atmosfera, em tentar não se sentir como uma peça fora do lugar.
De repente, a Sra. Drummond, em um tom que buscava ser casual, mas que carregava uma insinuação maliciosa, perguntou: "Senhorita Ribeiro, ouvi dizer que a senhorita tem… habilidades musicais. O senhor Montenegro mencionou que a senhorita toca violino."
Sofia sentiu o olhar de todos sobre si. Sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela não queria ser o centro das atenções, especialmente sob o escrutínio da Sra. Drummond.
"Eu… eu toco um pouco, sim", respondeu ela, a voz um pouco trêmula. "Nada de especial."
"Ah, mas eu adoraria ouvir!", exclamou a Sra. Drummond, com um sorriso triunfante. "Seria um prazer para todos nós. Imagine, um concerto particular aqui na mansão Montenegro!"
Houve um silêncio expectante. Sofia olhou para Eduardo. Ele a observava com atenção, seus olhos escuros transmitindo uma mistura de apreensão e algo que parecia… confiança.
"Sofia", ele disse, sua voz calma, mas firme. "Se você se sentir confortável, seria um deleite para todos nós."
Sofia sentiu o pânico crescer. Tocar para aquelas pessoas, sob aqueles olhares julgadores? Seria tortura. Mas ela também sabia que não podia simplesmente fugir. Eduardo a havia defendido, e agora, ela precisava ter coragem.
"Eu… eu posso tentar", ela disse, com a voz baixa. "Se o senhor Eduardo permitir que eu vá buscar meu violino."
"Claro", disse Eduardo, levantando-se. "Almeida providenciará para que você o traga. E um lugar adequado para a sua… apresentação."
Após o jantar, todos se dirigiram à sala de estar, um ambiente ainda mais suntuoso, com sofás de veludo e obras de arte inestimáveis. Sr. Almeida retornou com o violino de Sofia, cuidadosamente embalado. Ela o pegou com as mãos trêmulas, sentindo o peso familiar do instrumento.
Eduardo a conduziu até um canto da sala, onde um pequeno palco improvisado havia sido montado. As luzes foram diminuídas, criando um clima mais íntimo. Sofia respirou fundo, fechou os olhos por um instante e começou a tocar.
A melodia que preencheu a sala era a mesma que ela havia tocado quando Eduardo a encontrou na biblioteca. Uma sonata de Bach. A princípio, suas mãos tremiam um pouco, mas à medida que a música fluía, ela se sentia transportada. As notas pareciam dançar no ar, preenchendo o silêncio com uma beleza pura e tocante.
Ela abriu os olhos e viu os rostos à sua frente. A hostilidade da Sra. Drummond parecia ter se dissipado, substituída por um espanto genuíno. O embaixador e sua esposa ouviam com atenção, seus rostos serenos. O Sr. Valente fechava os olhos, absorvido pela música. E Eduardo… Eduardo a olhava com uma intensidade que a fez sentir um arrepio. Em seus olhos, ela não via mais a frieza de antes, mas sim uma admiração profunda, um respeito que a aquecia.
Quando a última nota soou, um silêncio reverente pairou no ar por alguns instantes, antes de ser quebrado por aplausos calorosos.
"Magnífico!", exclamou o embaixador, com genuíno entusiasmo. "Senhorita Ribeiro, você tem um talento extraordinário!"
"Verdadeiramente tocante", concordou a Sra. Valente, com um sorriso sincero. "Uma performance que nos transportou."
Até mesmo a Sra. Drummond, parecendo um pouco envergonhada, murmurou um "Impressionante".
Sofia sentiu um alívio imenso. Ela havia conseguido. Ela não havia sido apenas tolerada, mas apreciada. Ela olhou para Eduardo, que lhe ofereceu um sorriso discreto, mas repleto de orgulho.
"Sofia", disse ele, sua voz baixa, mas audível para todos. "Você nos presenteou com um momento inesquecível."
O jantar terminou com um clima mais leve. A tensão inicial havia se dissipado, substituída por uma atmosfera de admiração mútua. Sofia sentia-se mais confiante, mais relaxada. Ela havia mostrado a eles, e a si mesma, que não era apenas uma hóspede indesejada.
Ao final da noite, enquanto os convidados se despediam, Eduardo acompanhou Sofia até a porta de seu quarto.
"Você se saiu muito bem, Sofia", ele disse, sua voz suave. "Estou orgulhoso de você."
Sofia sentiu o rosto corar. "Obrigada, senhor Eduardo. Por tudo. Por me defender e por… por acreditar em mim."
"Eu sempre acreditei em você", ele respondeu, e havia uma verdade inegável em suas palavras. Um significado que ia além do que estava sendo dito.
Ele hesitou por um momento, como se quisesse dizer algo mais, mas apenas acenou com a cabeça. "Descanse bem, Sofia."
Sofia assentiu, um turbilhão de emoções a invadindo. O jantar, que começou com tanta apreensão, havia se transformado em algo inesperado. Uma noite de desafios, sim, mas também de superação e de uma conexão silenciosa que parecia crescer entre ela e Eduardo, forte e silenciosa como as raízes de uma árvore antiga.
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