Cap. 2 / 25

Entre Sombras

Capítulo 2 — Ecos de Um Passado Esquecido

por Isabela Santos

Capítulo 2 — Ecos de Um Passado Esquecido

O cheiro de café recém-passado e bolo de fubá assando preenchia a cozinha de Clara, um aroma reconfortante que ela usava para tentar afogar o turbilhão de memórias que a visita inesperada de André havia desenterrado. A noite havia sido longa, marcada por pesadelos fragmentados e um pesar que a deixava inquieta. A Vila dos Ventos, que antes era seu santuário, agora parecia um palco onde fantasmas do passado dançavam à sua volta.

Ela se serviu de uma xícara de café fumegante, sentindo o calor percorrer seu corpo, um contraste bem-vindo com o frio que sentia na alma. O bolo, feito com a receita de sua avó, D. Elvira, era um ritual que a conectava a tempos mais simples, antes que a vida açoitasse com suas reviravoltas cruéis.

Um barulho na porta a fez sobressaltar. Ela sabia quem era. Não havia mais ninguém na Vila dos Ventos que a visitasse sem avisar, muito menos que ousasse bater à sua porta com aquela persistência silenciosa. Com o coração batendo descompassado, ela se dirigiu à porta da frente.

André estava ali, apoiado no batente, os olhos fixos nela. O sol da manhã realçava a expressão cansada em seu rosto, mas havia uma determinação inabalável em seu olhar. Ele segurava um pequeno buquê de flores silvestres, simples e delicadas, que pareciam deslocadas em suas mãos grandes.

"Bom dia, Clara", disse ele, a voz baixa e respeitosa.

Clara suspirou, abrindo a porta o suficiente para que ele pudesse falar. "Bom dia, André. Eu pensei que você tivesse ido embora."

"Eu disse que não iria", respondeu ele, um leve tremor em sua voz. "Eu vim te trazer isso." Ele estendeu as flores.

Clara hesitou por um instante, mas pegou o buquê. Eram margaridas e pequenas flores azuis, que ela não via há anos. Uma lembrança de um tempo em que ele costumava colhê-las para ela nos campos perto da vila.

"Obrigada", murmurou ela, evitando seu olhar.

"Posso entrar?", perguntou ele, a esperança pintada em seu rosto.

Clara ponderou. A razão gritava para que ela o mandasse embora, para que mantivesse a distância segura que construíra ao longo de duas décadas. Mas algo em seus olhos, uma vulnerabilidade que ela não via desde a adolescência, a fez hesitar. Havia também a curiosidade, a necessidade latente de entender o que o havia levado a sumir.

"Por alguns minutos", cedeu ela, abrindo a porta um pouco mais.

André entrou, e a casa antiga pareceu ganhar uma nova energia com sua presença. Ele olhou ao redor, seus olhos absorvendo cada detalhe: os móveis antigos, as fotos em preto e branco empoeiradas nas prateleiras, o aroma familiar de comida caseira. Parecia um mergulho em um passado que ele havia deixado para trás.

"A casa mudou pouco", comentou ele, um sorriso melancólico nos lábios.

"A casa é a mesma, André. As pessoas mudam."

Ele assentiu, a alegria do comentário dissipada. Sentou-se à mesa da cozinha, onde Clara já havia colocado duas xícaras de café.

"Você está bem?", perguntou ele, genuinamente preocupado.

"Estou vivendo", respondeu Clara, a voz seca. "E você? O que te traz de volta a esta cidadezinha esquecida?"

"Eu… eu soube que sua avó faleceu", disse ele, e Clara sentiu um aperto no peito. Sua avó, D. Elvira, fora sua rocha, seu porto seguro depois que André partiu. "Eu sinto muito, Clara. D. Elvira era uma mulher incrível."

"Era", concordou Clara, a voz embargada. "Ela significava o mundo para mim."

"Eu sei. Ela sempre falou muito bem de você." André desviou o olhar, um rubor sutil tingindo suas bochechas. "Ela… ela me mandou cartas. Por todos esses anos."

Clara o olhou, chocada. "Cartas? Da minha avó? Onde estão essas cartas?"

"Eu as tenho. Em casa." Ele explicou que havia retornado à cidade por conta do falecimento de D. Elvira, e que, ao se hospedar em uma pousada local, ouvira falar de Clara. A curiosidade e uma necessidade de fechar o ciclo o levaram até sua porta.

"Minha avó… ela sabia que você existia?", Clara perguntou, o tom acusador.

"Sim. Ela sabia de tudo. E ela… ela não me julgou. Ela me disse para voltar. Disse que você precisava de mim."

Aquelas palavras atingiram Clara como um raio. Sua avó, que sempre a ensinara sobre a força e a independência, que a tinha visto sofrer e a incentivara a seguir em frente, havia mantido contato com André? E pior, o incentivara a voltar?

"Minha avó fez isso?", Clara perguntou, a voz cheia de incredulidade e uma ponta de raiva. "Como ela pôde? Como você pôde simplesmente aparecer aqui depois de todos esses anos, como se nada tivesse acontecido?"

"Eu não pensei que nada tivesse acontecido, Clara. Aconteceu. E eu carrego isso comigo todos os dias. Mas eu não vim aqui para te magoar. Vim para tentar entender, para tentar me redimir."

Ele contou sobre sua vida após deixar a Vila dos Ventos. A fuga para São Paulo, o recomeço difícil, a luta para construir uma carreira. Falou sobre os percalços, as decepções, mas também sobre as conquistas. Ele era um arquiteto bem-sucedido, com seu próprio escritório, viajando pelo mundo. Um mundo completamente diferente do dela.

Clara o ouvia em silêncio, cada palavra dele um golpe em sua armadura. A avó escrevendo para ele? Isso era inaceitável. D. Elvira, que sempre fora tão protetora, que lhe dera forças para superar a dor da partida de André.

"E por que agora, André?", ela perguntou, a voz novamente firme. "Por que você decidiu voltar agora?"

"Porque a vida me ensinou que algumas coisas não podem ser deixadas para trás. Eu passei vinte anos fugindo de mim mesmo, fugindo do que eu fiz. Mas não dá mais. Eu preciso encarar isso. E eu preciso encarar você." Ele olhou para ela, a intensidade de seu olhar fazendo Clara se sentir exposta. "Eu nunca esqueci você, Clara. Nunca."

Ele estendeu a mão sobre a mesa, como se quisesse tocá-la. Clara se afastou instintivamente. Aquele gesto, que antes significava segurança e amor, agora era um gatilho para a dor.

"Você não pode simplesmente vir aqui e esperar que eu te perdoe, André", disse ela, a voz trêmula. "Você destruiu minha confiança. Você destruiu muito mais do que isso."

"Eu sei. E eu não espero que você me perdoe de uma hora para outra. Eu só peço uma chance. Uma chance de te contar a verdade. De te mostrar que eu não sou mais o garoto assustado que fugiu vinte anos atrás."

Clara se levantou da mesa, o café intocado. O aroma do bolo agora parecia sufocante. "Eu preciso pensar, André. Por favor, vá embora."

André assentiu, levantando-se também. Seus ombros caíram um pouco, mas a determinação em seus olhos não vacilou. "Eu vou ficar na cidade por um tempo. Na pousada. Se você mudar de ideia, sabe onde me encontrar." Ele deixou o buquê de flores na mesa, ao lado da xícara de Clara, um pequeno gesto de esperança.

Ao sair, ele olhou para trás uma última vez, um olhar que parecia carregar o peso de duas décadas de arrependimento. Clara o observou ir embora, a porta se fechando suavemente atrás dele. Ela pegou as flores silvestres, sentindo a textura delicada das pétalas. Um lembrete agridoce de um tempo que ela pensava ter enterrado. A Vila dos Ventos, antes um refúgio de paz, agora se transformara em um campo de batalha para seu coração, e André, o fantasma de seu passado, estava ali para lutar por ele.

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