Cap. 7 / 25

Entre Sombras

Capítulo 7 — O Peso das Raízes e o Aroma das Flores Roubadas

por Isabela Santos

Capítulo 7 — O Peso das Raízes e o Aroma das Flores Roubadas

O aroma do café fresco se espalhava pela casa de Clara, um convite reconfortante para iniciar um novo dia. Mas a tranquilidade matinal era apenas uma fina camada sobre a inquietação que a consumia. A conversa com Miguel e as revelações de Dr. Arnaldo haviam plantado sementes de dúvida e esperança em seu coração, mas a terra ainda estava fértil para a confusão.

Ela decidiu que não podia mais esperar. A imagem da família Valente, um nome que Arnaldo mencionara com relutância, ecoava em sua mente. Precisava de informações, de um ponto de partida concreto para desvendar a teia de mentiras que envolvia seu passado. Com um misto de apreensão e determinação, ela se dirigiu à pequena biblioteca da vila, um lugar modesto, mas acolhedor, onde a Sra. Elvira, uma senhora de cabelos grisalhos e sorriso bondoso, reinava sobre prateleiras empoeiradas.

"Bom dia, Sra. Elvira", disse Clara, tentando manter a voz firme.

"Bom dia, minha querida! Que ventinho bom hoje, não é? Trouxe o cheiro de mar com ele." A Sra. Elvira sorriu, os olhos brilhando por trás dos óculos.

"Sim, Sra. Elvira. Eu vim pedir um favor. Preciso consultar alguns jornais antigos. Talvez de uns vinte, trinta anos atrás. Procuro informações sobre uma família, a família Valente."

A Sra. Elvira franziu a testa, pensativa. "Valente… O nome me soa familiar, mas não me lembro de ter visto por aqui. Jornais antigos, sim, temos alguns aqui no sótão. Mas o que a traz a essa busca, minha flor?"

Clara hesitou por um instante. Contar a verdade parecia assustador, mas a Sra. Elvira irradiava uma confiança que a encorajou. "É sobre a minha família, Sra. Elvira. Descobri que meu pai, que nunca conheci, pode ter tido ligações com essa família."

Os olhos da Sra. Elvira se arregalaram ligeiramente. "Oh, minha querida… o passado às vezes nos surpreende, não é mesmo? Sente-se, vou buscar os jornais. Teremos que ter paciência, pois a poeira no sótão é grande."

Enquanto a Sra. Elvira subia para o sótão, Clara sentiu o coração bater mais rápido. Cada minuto parecia uma eternidade. Ela imaginou os rostos dos Valente, a vida que poderiam ter levado, e se perguntou se em alguma daquelas páginas empoeiradas encontraria um reflexo de si mesma.

Pouco depois, a Sra. Elvira desceu, carregando uma pilha de jornais amarelados e pesados. "Aqui estão, minha flor. Peço desculpas pela condição, mas são os mais antigos que temos. Se precisar de alguma coisa, estarei aqui."

Clara agradeceu com um sorriso e se acomodou em uma mesa isolada, o cheiro de papel velho e tinta invadindo suas narinas. Começou a folhear as páginas com cuidado, procurando por menções ao nome Valente. As notícias falavam de política local, de festas comunitárias, de naufrágios e de colheitas. Nada que parecesse diretamente relacionado.

Ela estava quase desistindo quando, em um jornal de vinte e cinco anos atrás, um pequeno anúncio chamou sua atenção. Era um anúncio de casamento. "Ricardo Valente e Sofia Albuquerque unem-se em matrimônio em cerimônia exclusiva." Abaixo, uma foto em preto e branco de um casal jovem e elegante. Ricardo Valente parecia ter um olhar intenso, quase desafiador. Sofia Albuquerque, com um sorriso contido, exalava uma beleza fria e calculista.

Clara sentiu um aperto no peito. Aquele era o nome do homem que Arnaldo mencionara como possível pai de seu pai. Mas ali ele estava casado com outra mulher. Havia mais camadas nessa história do que ela imaginava. Ela continuou a ler as notícias da época, buscando por qualquer menção ao nome de seu pai ou de sua mãe.

No mesmo jornal, em uma página dedicada à sociedade da capital, uma pequena nota: "O renomado empresário Arthur Valente, tio do noivo Ricardo Valente, encontra-se em viagem pelo exterior, afastado dos holofotes após um escândalo pessoal que abalou os círculos sociais."

Arthur Valente. O nome que Arnaldo dissera ser o de seu avô. Mas aqui ele era o tio de Ricardo, e estava envolvido em um "escândalo pessoal". O que isso significava? Havia tantas peças soltas, tantas perguntas sem resposta.

Enquanto Clara se perdia na leitura, Miguel entrou na biblioteca, o cheiro de maresia ainda em suas roupas. Ele a observou por um momento, a concentração em seu rosto, a testa franzida em busca de respostas.

"Encontrando o que procura?", perguntou ele, a voz suave.

Clara ergueu os olhos, um lampejo de alívio ao vê-lo. "Miguel! Não sei. Encontrei um anúncio de casamento de Ricardo Valente, que Dr. Arnaldo disse ser meu avô. Mas aqui ele é um jovem empresário, e tem um tio chamado Arthur, que também é um Valente. E parece que ele teve um escândalo."

Miguel se aproximou da mesa, olhando os jornais. "O nome Valente é comum na capital, Clara. Talvez seja uma coincidência."

"Mas Arnaldo disse que meu pai era filho de um Arthur Valente, e que esse Arthur era um homem importante. E essa notícia menciona um Arthur Valente, tio de Ricardo, envolvido em um escândalo. As datas batem, Miguel." Sua voz tremia levemente.

Miguel assentiu, a testa franzida. Ele entendia a gravidade da situação. "Escândalo pessoal… pode significar muitas coisas. Um amor proibido, talvez? Uma paternidade não assumida?"

"É o que eu temo", disse Clara, o coração pesado. "Se Arthur Valente é meu avô, e ele teve um escândalo, pode ser que meu pai tenha sido fruto desse escândalo. E minha mãe… quem era ela? Por que meu pai nunca falou dela?"

O peso de suas raízes parecia esmagá-la. A vida simples e honesta que ela conhecia parecia agora um disfarce, uma proteção contra uma verdade complexa e talvez dolorosa.

Na capital, Ricardo Valente estava em seu escritório, o olhar fixo na foto de seu avô, Arthur Valente, que ele retirara da caixa antiga. A fotografia mostrava um homem sorridente, com um olhar penetrante e um ar de quem sabia mais do que dizia. A carta que encontrara na noite anterior ainda estava em sua mesa, o papel frágil em suas mãos. "Fruto que carrego em meu ventre."

Ele sentia uma conexão inexplicável com aquela carta, com aquela mulher anônima. Algo dentro dele despertara, uma curiosidade que se transformava em obsessão. Ele precisava saber quem era aquela mulher, quem era o filho que ela esperava.

"Sra. Lúcia!", ele chamou, a voz firme.

Uma senhora idosa, a governanta da mansão há décadas, entrou no escritório, com passos cuidadosos. "Sim, senhor Ricardo?"

"A senhora conheceu meu avô, Arthur Valente, não é?", perguntou Ricardo, a voz tensa.

"Sim, senhor. O conheci muito bem. Um homem de muitas facetas, para dizer o mínimo."

"Houve algum… relacionamento importante em sua vida que minha mãe não quis comentar? Algum filho fora do casamento?"

A Sra. Lúcia hesitou, um lampejo de preocupação em seus olhos. Ela olhou para Ricardo, depois para a foto de Arthur. "Senhor Ricardo, sua mãe sempre foi muito protetora de sua imagem e da reputação da família. Houve… uma mulher. Uma moça simples, de uma cidadezinha no litoral. Arthur se apaixonou por ela, mas sua família não aprovou. E depois… houve um filho."

O coração de Ricardo disparou. "Um filho? Um irmão que eu não conheço?"

"Sim, senhor. Ele nasceu pouco antes de você. Arthur tentou ajudar a mãe e o filho, mas sua mãe, Dona Verônica, a sua avó, interferiu. Ela não queria que esse filho fosse reconhecido. Manteve Arthur afastado. O menino foi criado longe daqui, e Arthur nunca teve muito contato com ele depois de um tempo. Sua mãe sempre disse que era para proteger Arthur de más influências."

Ricardo sentiu o chão sumir sob seus pés. A carta que encontrara… a mulher misteriosa… "Fruto que carrego em meu ventre". Aquela mulher não era apenas uma amante qualquer. Era a mãe de seu irmão. E ela estava grávida.

"E a mulher, Sra. Lúcia? Sabe o nome dela?"

A governanta suspirou. "Sei que ela era de uma vila de pescadores. Clara… o nome dela era Clara."

O mundo de Ricardo parou. Clara. O nome ecoou em sua mente, tão familiar, tão inesperado. A mulher de seus sonhos, a mulher que o assombrava… "Clara".

"Clara…?", ele repetiu, a voz embargada pela incredulidade. "Onde ela mora agora? A senhora sabe?"

"Era uma moça muito gentil, senhor. Tinha olhos como os da lua em noite clara. Morava com sua mãe, que era costureira. Não sei se ainda está na vila. Faz muito tempo."

Ricardo se levantou, a mente girando. A peça que faltava em seu quebra-cabeça parecia estar em uma vila pesqueira distante, ligada a um nome: Clara. A mesma Clara que ele sonhava, a mesma Clara que talvez fosse a chave para desvendar os segredos de sua própria família.

Ele pegou o telefone, os dedos tremendo enquanto discava um número. "Preciso que você descubra tudo sobre uma mulher chamada Clara que morava em uma vila de pescadores no litoral há cerca de vinte e cinco anos. Procure por Arthur Valente, meu avô, e qualquer ligação dele com essa vila. Quero tudo o que você puder encontrar."

Do outro lado da linha, uma voz profissional respondeu. Ricardo sentiu que estava prestes a desvendar uma verdade que mudaria sua vida para sempre. As raízes que ele pensava conhecer eram mais profundas e complexas do que ele jamais imaginara. E as flores que floresceram em solo árido, roubadas pela discrição e pelo medo, pareciam agora clamar por reconhecimento, sussurrando seu nome no vento da verdade.

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