Sua para Sempre II
Sua para Sempre II
por Valentina Oliveira
Sua para Sempre II
Autor: Valentina Oliveira
---
Capítulo 1 — O Sussurro do Tempo em Pedra e Mar
O sol, teimoso em se esconder, tingia o céu de um laranja melancólico sobre as falésias da Praia das Gaivotas. O vento salgado chicoteava os cabelos de Isadora, emoldurando um rosto que parecia esculpido pela própria saudade. Havia dez anos, ela pisou pela última vez naquela areia dourada, em meio a despedidas que dilaceraram sua alma. Dez anos, um abismo de tempo que a trouxera de volta, não como a jovem sonhadora que partiu, mas como uma mulher marcada pela vida, carregando nas costas o peso de escolhas difíceis e um coração que, apesar de tudo, ainda pulsava com as memórias daquele lugar.
Ela fechou os olhos, inspirando profundamente o aroma de maresia e a fragrância inconfundível das acácias que desabrochavam nos jardins da antiga mansão que agora parecia ainda mais imponente, quase um fantasma de pedra erguido contra o crepúsculo. A mansão dos Vasconcelos. Seu lar, por tantos anos. E o lar dele.
Lucas. O nome ecoava em sua mente como uma melodia proibida. Lucas Vasconcelos, seu amor de verão, seu primeiro e único amor verdadeiro. Aquele que ela deixou para trás, em nome de um futuro que, na época, parecia promissor, longe daquela pequena cidade costeira, longe das expectativas sufocantes daquela família tradicional. Uma promessa que, no fim das contas, se revelou um deserto de solidão.
Um arrepio percorreu sua espinha, não de frio, mas de uma apreensão doce e amarga. A notícia da doença de Dona Cecília, sua tia, fora o catalisador para aquele retorno. Uma justificativa, talvez. Ou seria o destino, finalmente, cobrando seu preço?
Ela se virou, observando a silhueta esguia da mansão. As janelas, escuras como olhos profundos, pareciam observá-la, julgar sua ausência. A velha escadaria de pedra, que levava à entrada principal, parecia mais íngreme do que ela se lembrava. Cada degrau era uma memória, um riso compartilhado, um beijo roubado.
“Isadora?”
A voz, profunda e inconfundível, a atingiu como uma onda inesperada. Ela congelou, o coração disparado contra as costelas. Era ele. Não havia dúvida. Dez anos poderiam ter gravado linhas de expressão em seu rosto, a barba grisalha poderia ter despontado em suas têmporas, mas a ressonância daquela voz era imutável.
Lentamente, ela se virou.
Lucas estava ali, parado a poucos metros, a figura imponente contra o céu alaranjado. A camisa de linho branca, levemente aberta no colarinho, as calças escuras, o cabelo um pouco mais comprido, mas a mesma postura de quem carrega o mundo nos ombros, com uma elegância inata. Seus olhos, aqueles olhos verdes penetrantes que ela jamais esquecera, a percorriam com uma intensidade que a fez corar, mesmo que a luz fraca a protegesse.
O silêncio que se instalou entre eles era pesado, carregado de todas as palavras não ditas, de todos os sentimentos reprimidos. Era um silêncio que gritava o passado.
“Lucas”, ela conseguiu sussurrar, a voz embargada.
Ele deu um passo à frente, depois outro, até que estivessem a uma distância que permitia sentir o calor um do outro, a eletricidade que ainda os cercava, apesar do tempo e da dor.
“Você voltou”, ele disse, mais uma afirmação do que uma pergunta. Havia uma certa surpresa em seu tom, uma ponta de incredulidade, mas algo mais profundo que ela não conseguia decifrar.
“Tia Cecília… eu soube que ela não estava bem”, Isadora respondeu, desviando o olhar por um instante, incapaz de sustentar a intensidade do olhar dele.
Lucas suspirou, um som rouco que parecia carregar o peso de décadas. “Ela está lutando. Como sempre lutou.” Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nela. “Você… você se parece com a mesma Isadora de sempre. A mesma força, a mesma beleza que me tirava o fôlego.”
O elogio, vindo dele, a atingiu em cheio. Era como se o tempo tivesse parado e eles estivessem de volta àquele dia de despedida, quando ele a olhava com a promessa de um futuro juntos, um futuro que ela escolheu ignorar.
“E você, Lucas… você mudou. Está mais… maduro”, ela disse, tentando manter a compostura, mas sentindo as lágrimas arderem em seus olhos.
Um sorriso tênue, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. “Dez anos têm esse efeito, não acha? O tempo cobra seu preço, Isadora. Cobrou de você, cobrou de mim, cobrou de todos nós aqui.” Ele deu um passo para trás, quebrando a proximidade que a sufocava e a atraía ao mesmo tempo. “A casa está… diferente. Mas a sua entrada ainda é a mesma. A mesma que sempre nos esperava, mesmo quando você estava longe.”
Ele a convidou com um gesto sutil em direção à entrada principal. A porta maciça de madeira escura, com detalhes em ferro forjado, parecia uma boca faminta por histórias.
Ao cruzarem a soleira, o cheiro de cera de abelha, de flores secas e de algo indefinível, uma mistura de tradição e poeira, a envolveu. O hall de entrada, com seu lustre imponente e o piso de mármore polido, parecia imune à passagem do tempo, um santuário de memórias. Os retratos a óleo de ancestrais Vasconcelos pareciam observá-la com um misto de reprovação e curiosidade.
“Seus pais não estão aqui?”, ela perguntou, a voz um pouco mais firme agora, buscando preencher o silêncio com palavras.
Lucas balançou a cabeça. “Moram em São Paulo agora. Preferem o agito da cidade grande. Mas vêm nos fins de semana quando a situação exige.” Ele a guiou pelo corredor, seus passos ecoando no silêncio. “Quarto de hóspedes está pronto para você. E o seu antigo quarto… ainda está lá. Do jeito que você deixou, eu acho.”
A menção ao seu antigo quarto fez seu coração apertar. Era ali que ela e Lucas haviam compartilhado segredos, sonhos e promessas sussurradas sob o véu da noite. Era ali que o amor deles florescera, antes de ser brutalmente ceifado.
“Obrigada, Lucas”, ela disse, a voz baixa. “Por tudo.”
Ele parou em frente a uma porta de madeira escura. “Tia Cecília está no quarto dela, no segundo andar. Mas acho que ela está descansando agora. A enfermeira se certifica de que ela tenha paz. Você pode ir vê-la amanhã, com calma.”
Ele a olhou nos olhos novamente, e dessa vez, havia algo mais em seu olhar. Uma mistura de dor, ressentimento e… uma faísca de algo que ela ousava não nomear.
“Bem-vinda de volta, Isadora”, ele disse, e o peso daquelas palavras, a forma como ele as pronunciou, a fez sentir um frio na espinha. Havia tanto mais ali do que um simples cumprimento. Era uma declaração, um aviso.
Ela apenas assentiu, incapaz de responder. O passado, que ela pensou ter enterrado profundamente, estava ali, vivo e pulsante, entre eles, na imensidão silenciosa daquela mansão à beira-mar. A Praia das Gaivotas, que um dia representara o paraíso, agora parecia um labirinto de lembranças, e ela não sabia se teria a força para encontrar a saída. A noite caía, e com ela, a certeza de que aquele reencontro seria muito mais complexo do que ela imaginava. A brisa do mar, que outrora trazia a promessa de liberdade, agora trazia o eco de um amor que se recusava a morrer.