Alma Gêmea II
Capítulo 22 — O Fio da Meada e a Conspiração Revelada
por Valentina Oliveira
Capítulo 22 — O Fio da Meada e a Conspiração Revelada
O escritório de Helena, antes um refúgio de criatividade e inspiração, agora parecia um campo de batalha onde os fantasmas de seu passado a assombravam. Pilhas de documentos, fotografias embaçadas e anotações rabiscadas cobriam a mesa. A luz fria do abajur projetava sombras longas e dançantes nas paredes, amplificando a sensação de isolamento. Helena, com os olhos vermelhos de exaustão e a mente fervilhando de informações, passava horas a fio investigando, seguindo cada fio solto que pudesse levar à desmantelação da teia de mentiras tecida por seu pai e Lúcia.
Ela havia reativado contatos antigos, pessoas que haviam sido vítimas das artimanhas de Armando Vasconcelos no passado. Havia um ex-sócio falido, um artista cujas obras foram roubadas, uma família arruinada por investimentos fraudulentos. Um a um, eles iam se abrindo, contando suas histórias de desespero e de injustiça. Cada depoimento, cada prova documental, era como uma nova peça no complexo quebra-cabeça que Helena tentava montar. Ela sentia um misto de revolta e de tristeza ao testemunhar o sofrimento que seu pai havia causado, a crueldade de sua ambição desenfreada.
O golpe mais doloroso foi descobrir a extensão da participação de Lúcia. A ex-melhor amiga de Helena, com seu sorriso doce e suas palavras afetuosas, era, na verdade, uma cúmplice fria e calculista. Helena encontrou e-mails trocados entre Lúcia e Armando, onde planejavam os detalhes da chantagem, a maneira de incriminá-la, de afastá-la de Rafael. As mensagens eram cruéis, desprovidas de qualquer resquício de amizade ou lealdade. Lúcia se deleitava com a dor que infligia a Helena, alimentada por uma inveja doentia e pela promessa de uma recompensa generosa de Armando.
"Inacreditável", murmurou Helena para si mesma, examinando uma cópia de um extrato bancário que provava uma transferência substancial da conta de Armando para uma conta offshore de Lúcia. "Ela fez tudo isso por dinheiro? Por esse homem nojento?"
Uma batida na porta a sobressaltou. Era Sofia, trazendo uma bandeja com um café fumegante e alguns pães de queijo.
"Você precisa comer alguma coisa, Helena. Você está se esgotando." Sofia pousou a bandeja na mesa, com cuidado para não espalhar os papéis.
Helena deu um sorriso cansado. "Obrigada, amiga. Você é um anjo."
"Anjos não se deixam morrer de fome", respondeu Sofia, sentando-se em uma poltrona próxima. "Algum progresso?"
"Sim", disse Helena, os olhos brilhando com uma mistura de exaustão e triunfo. "Eu tenho a prova da transferência do dinheiro. E tenho depoimentos suficientes para mostrar o padrão de conduta do meu pai. Lúcia era a peça chave, a executora. Ela usou a confiança que eu tinha nela para me manipular, para conseguir as informações que ele precisava." Helena pegou uma fotografia de Lúcia e Rafael, sorrindo juntos em uma festa. "E pensar que ela estava planejando tudo isso enquanto sorria para ele. Que cobra."
"Essa é a pior parte, não é? A traição de quem mais perto está." Sofia suspirou. "Mas você está chegando lá. E quando tudo isso acabar, o que você vai fazer com o Rafael?"
A pergunta pairou no ar. Helena olhou para a fotografia, uma dor aguda percorrendo seu peito. "Eu não sei. Ele ainda está furioso, não está? Ele não me atende, não responde minhas mensagens. Ele acredita que eu fui cúmplice do meu pai, ou pior, que eu o traí."
"Ele precisa ouvir a verdade, Helena. A verdade completa. E você é a única que pode contá-la. Mas ele precisa estar pronto para ouvir."
"Eu não sei se ele vai estar", disse Helena, a voz embargada. "Eu cometi erros, Sofia. Eu não percebi o perigo. E a minha proximidade com meu pai, mesmo que forçada, o fez duvidar de mim."
"Vocês dois têm um amor que transcende tudo isso, Helena. Lembre-se do que vocês sentiram um pelo outro. Esse sentimento não desaparece assim tão facilmente. Vocês só precisam de um tempo para curar as feridas e para que a verdade venha à tona sem as nuvens da desconfiança." Sofia pegou um dos papéis da mesa. "Isso aqui... o que é?"
"É um recibo. De um acordo secreto entre meu pai e Lúcia. Ela concordou em me afastar de Rafael em troca de uma fortuna e de ter o apoio dele para um projeto pessoal que ela tinha. Um projeto que envolvia roubar um design de moda meu e lançá-lo como se fosse dela." Helena sentiu uma pontada de dor ao pensar em sua criação sendo roubada. "Ela sempre foi invejosa do meu talento."
"Essa mulher é doentia", exclamou Sofia, chocada. "Mas agora você tem tudo, não é? As provas, os depoimentos. O que falta?"
"Falta juntar tudo de forma irrefutável e apresentar à justiça. E, ao mesmo tempo, preciso encontrar uma maneira de chegar ao Rafael antes que meu pai ou Lúcia tentem algo mais. Eles não vão desistir facilmente. Sei que meu pai tem contatos poderosos, e Lúcia... ela é capaz de qualquer coisa por vingança."
Helena sentiu um arrepio na espinha. A ideia de Rafael em perigo era insuportável. Ela precisava agir rápido. Ela não podia mais esperar que ele viesse até ela. Ela tinha que ir atrás dele, mesmo que ele a rejeitasse. A promessa esquecida do mar, a chama de seu amor, a impulsionavam a ir além.
"Eu vou organizar tudo isso", disse Helena, com a voz firme. "Vou imprimir os documentos, organizar os depoimentos. E então... eu vou atrás dele. Não posso mais viver com a incerteza."
Sofia assentiu, compreendendo a urgência e a determinação nos olhos de Helena. "Eu estarei com você, em cada passo."
Enquanto a noite avançava, Helena trabalhou incansavelmente, unindo cada fragmento da verdade, reconstruindo a história com a precisão de uma cirurgiã. Cada documento, cada palavra em um e-mail, era uma arma contra a escuridão. Ela sentia que estava no limiar de uma batalha final, onde a verdade seria sua única aliada. E no centro de tudo, pairava a imagem de Rafael, a esperança de que, uma vez que ele soubesse de tudo, a tempestade em seus corações pudesse finalmente se acalmar, abrindo caminho para a promessa de um amor eterno.